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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O ABRAÃO CRATENSE: CORONEL MAÍNHA

O ABRAÃO CRATENSE: CORONEL MAÍNHA
           
                                                                                   Heitor Feitosa Macêdo

   
Coronel José Francisco Pereira Maia, coronel Maínha (Fonte: Álbum do Seminário do Crato).
        
José Francisco Pereira Maia (também conhecido por Coronel Maínha) nasceu no dia 08 de maio de 1803, na freguesia de Nossa Senhora da Penha, em Crato/CE, e foi batizado no dia 25 de maio de 1804, sendo filho do português Francisco Pereira Maia Guimarães e de uma cratense, Maria Isabel da Penha, bisneta do célebre tenente José Pereira Aço.
Assentamento de batismo do coronel José Francisco Pereira Maia (Fonte: Departamento Histórico Padre Antonio Gomes de Araújo, Crato/CE).

         O português Francisco Pereira Maia Guimarães, certamente, recebeu como dote de sua esposa uma faixa de terra regada por nascentes no Sítio Fábrica, cabeceiras do Rio Carás (no município do Crato), onde, em 1829, possuía um engenho corrente e moente, isto é, movido por água e por tração animal, respectivamente. Um pouco antes, no ano de 1817, este patrício havia tomado parte na Revolução Pernambucana, porém, com a Guerra de Independência, em 1822, o ódio aos portugueses havia se alastrado, passando os lusitanos a serem tratados com violência, fato que deve ter contribuído para o seu retorno a Portugal.
         Mesmo tendo seu pai regressado à Europa, José Francisco Pereira Maia continuou no Brasil, residindo no Sítio Monte Alegre, na Região do Cariri cearense, onde era dono de muitos imóveis rurais, possuindo várias propriedades no Crato, a maioria delas, praticamente, dentro da mesma área que seu trisavô, José Pereira Aço, havia senhoreado no século XVIII, às margens da ribeira do Carás. Estando entrelaçado à família Alencar e, consequentemente, à causa republicana, o clã a que pertencia Maínha findou se envolvendo nas tragédias político-familiares da era de 1800. Explica-se!
         O coronel Joaquim Pinto Madeira, chefe político na Vila de Jardim/CE, havia se colocado do lado oposto à família Alencar e à República, inclusive tendo realizado a prisão de alguns de seus integrantes durante as turbulências de 1817. Mas o que isso tem a ver com o coronel Maínha?
         A Revolta do Pinto, ou Revolta de Pinto Madeira, ou, ainda, Revolta Restauradora Caririense, frutificou de divergências políticas e pessoais. Na esfera política, ligava-se ao ideário defendido por Pinto Madeira, em trazer D. Pedro I de volta ao trono do Brasil (depois do episódio da abdicação), plano arquitetado pelos Restauradores. Já na esfera pessoal, o antagonismo havia sido gerado por intrigas particulares, que iam desde a vexação pelo cárcere às mortes praticadas nos tempos das lutas de 1817 e 1824 (sendo esta última data marcada pela Confederação do Equador).
         Joaquim Pinto Madeira, entre os anos de 1831 e 1832, comandando milhares de cabras armados, principalmente de cacete, deflagrou a dita revolta, dominando boa parte do Cariri, no entanto, terminou sendo preso e remetido para os cárceres do Maranhão, donde fora, finalmente, reenviado ao Ceará, para ser julgado pelos crimes políticos cometidos durante a rebelião. Quando o coronel Pinto Madeira foi transferido para o Ceará, em 1834, José Martiniano de Alencar já exercia o cargo de presidente desta província (governador), e não hesitou em fazer remessa do dito preso para o Crato, onde foi imediatamente submetido ao Tribunal do Júri.
         Cabe salientar que, além do juiz que presidiu o dito júri, muitos dos jurados que faziam parte do Conselho de Sentença possuíam consanguinidade com a família Alencar, estando igualmente ligados por algum vínculo de parentesco ao Coronel Maínha, sendo eles: Antonio Ferreira de Lima Sucupira, o capitão Romão José Batista, Raimundo Pedroso Batista e José Ferreira Castão.
         Maínha atuou diretamente na execução da sentença, tendo negociado a permuta de enforcamento por morte mais honrosa, o fuzilamento, sob o argumento de Pinto Madeira ter sido coronel de milícias. Conta-se também que, no alto do Barro Vermelho (no tope da atual ladeira Duque de Caxias, Bairro Pinto Madeira, em Crato, nas imediações da Cruz do Século), onde estava erguida a forca feita de aroeira, o Coronel Maínha aproximou-se do condenado para lhe oferecer um lenço, a fim de que cobrisse o rosto no instante dos disparos, todavia, este recusou a oferta, dizendo em tom de soberba: eu também tenho.
         Ainda se discute de quem teria sido a culpa do Assassínio Jurídico de Pinto Madeira. Alguns acusam José Martiniano de Alencar, outros apontam José Vitoriano Maciel e uma parcela indica José Francisco Pereira Maia, o qual, na opinião de Eusébio de Sousa, foi a alma de toda essa tragédia. Todavia, o padre Antonio Gomes de Araújo, acertadamente, pondera que o coronel Maínha era apenas um dos responsáveis pela comédia sinistra que liquidou o coronel Joaquim Pinto Madeira
         Deve ser ressaltado que José Francisco Pereira Maia, ombreando-se a boa parte de seus primos, exerceu vários cargos públicos, pois era coronel da Guarda Nacional, foi delegado de polícia no Crato (demitido em 21 de julho de 1847); juiz ordinário; prefeito interino; vereador; 1º suplente de juiz municipal; deputado provincial nos biênios: 1838 a 1839, 1850 a 1851 e de 1864 a 1868; e, além disso, também recebeu a comenda de Cavaleiro da Ordem da Rosa e do Cruzeiro. Saliente-se que, na vida política, nota-se que o Coronel Maínha não fazia apenas o tipo vingativo e beligerante, mas também paternalista e populista, deixando como sua marca o chavão: eu sou do povo e o povo me pertence.
         A vida pessoal deste indivíduo foi um tanto conturbada, isso porque depois de ter se casado com Clara Bezerra Monteiro, foi visitar o pai em Portugal, levando sua filha Josefina Pereira Maia (que, mais tarde, veio a se casar com José Romão de Norões). Ao retornar ao Cariri, Maínha soube da traição conjugal da esposa, de quem se apartou definitivamente.
         Daí terminou se amasiando com nove mulheres, dentre elas cinco tias do padre Cícero Romão Batista, irmãs de dona Quinô (Raimunda, Antonia, Donana, Terezinha e Ázia Ferreira Castão − primas do Coronel Maínha). Com estas mulheres e outras mais gerou uma prole imensa, de 74 filhos, o que lhe valeu a alcunha de Sábio Abraão cratense (Ver: Padre Antonio Gomes de Araújo, Povoamento do Cariri, p. 118), em alusão ao personagem bíblico, cujo nome, de origem hebraica, significa pai de muitos.

         Por fim, o Coronel Maínha, chefe do partido liberal do Crato, prolífero, polêmico e político, faleceu em sua cidade natal no dia 22 de setembro de 1880, aos 76 anos de idade.    
Nota do trigésimo dia do falecimento do coronel José Francisco Pereira Maia (Fonte: jornal Cearense, dia 09 de outubro de 1880).
     

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

CARIRI CANGAÇO NO CARIRI CEARENSE: SETEMBRO DE 2015

 CARIRI CANGAÇO NO CARIRI CEARENSE: SETEMBRO DE 2015
                                                                                       
                                                                                    Heitor Feitosa Macêdo
Caricatura dos ex-cangaceiros Moreno e Durvinha.


1. PRÓLOGO  
Nos dias 23, 24, 25 e 26 de setembro de 2015, ocorreu mais um evento engendrado pela agremiação chamada Cariri Cangaço, reunindo historiadores e pesquisadores dos quatro cantos do Nordeste, sob a coordenação de Manoel Severo.
         Deve ser ressaltado que, apesar do título que batiza a confraria, Cariri Cangaço, o objetivo dos seus organizadores não é fazer apologia ao banditismo de outrora, muito menos heroicizar personagens ligados ao cangaceirismo, o qual não era formado apenas por cangaceiros, mas também por coronéis, políticos, magistrados, policiais, padres, campesinos e, inclusive, mulheres.
Grosso modo, pode-se dizer que toda a sociedade da época, estabelecida naqueles rincões, vivia a era do cangaço, à guisa de uma verdadeira instituição social, onde não havia margem para escolhas dentro daquele tempo e espaço.
Assim, apesar do preconceito e das agruras que ainda causam repulsa (tendo em vista o cometimento de furtos, roubos, estupros, assassinatos, mutilações, etc.) a imagem do cangaceiro que nos foi relegada coincide apenas com um de seus tipos, exatamente no que se enquadrava o famanaz Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), caracterizado não só por crimes e pela estrambótica estética, mas, principalmente, pelo lado em que estava entrincheirado, oposto à oficialidade, isto é, contra o Estado. Fato que poderia ser facilmente modificado pela oportunidade e conveniência dos governos e de seus gestores, que não eram menos cangaceiros que os primeiros.
         Desprezar esses acontecimentos é a mesma coisa que renegar a própria história, seja ela política, social ou antropológica. Afinal, fomos agentes (ativos e/ou passivos) dessas práticas e não é exagero dizer que também somos, em parte, o resultado delas.

2. O EVENTO
         Durante os quatro dias de reuniões protagonizadas pelo Cariri Cangaço, muita coisa pôde ser discutida, apesar do tempo exíguo para as conversas de tantos espíritos apaixonados.
         Contudo, farei um resumo apenas de alguns dos encontros nos quais estive presente, destacando o que mais me chamou a atenção.

2.1. RELÍQUIA DO BANDO LAMPIÔNICO
         Na noite do dia 23, na cidade do Crato/CE, foi exibida a película do longa metragem que conta a redescoberta de um casal de cangaceiros do grupo de Lampião, Moreno e sua esposa Durvinha, os quais no começo do século XXI ainda eram vivos, residindo em Minas Gerais, décadas depois de terem abandonado a vida bandoleira. 
         A tez acobreada, os olhos amendoados e os cabelos linheiros como setas acusam a possível origem cromossômica do casal de cangaceiros, certamente, mamelucos e/ou cafuzos, como a maioria dos caboclos do interior do Nordeste.
         A saga de um indivíduo que entrou para a vida do crime depois de ter sido violentamente surrado pela polícia, sob a acusação der ser o autor do furto de um bode, e que durante o suplício, ao ser chamado de ladrão, retrucava, insistentemente, sou um cidadão, ajuda a reconstituir um quadro comum no passado do Nordeste, onde a falsa imputação de um crime e a arbitrariedade das autoridades tinham o condão de lançar indivíduos na vida do crime, sendo estes motivados, algumas vezes, pelo sentimento de justiça e vingança.
         O logística usada pelos cangaceiros e pela polícia-volante (não menos cangaceira) remontam ao tempo das expedições bandeirantes, quando as guerrilhas demandavam estratégias mistas, cooptadas nos embates indígenas e nas antigas técnicas militares portuguesas, como emboscadas; perseguição a partir de rastros; armas de fogo usadas por combatentes em constantes deslocamentos; etc.
          Porém, no vídeo, o ex-cangaceiro Moreno demonstra, com originalíssimos trejeitos, parte da movimentação rápida utilizada para se livrar dos projéteis, cabendo destacar a posição de tiro com fuzil, em pé, acomodando-se lateralmente, a fim de reduzir a superfície de contato do corpo, e, consequentemente, diminuir a probabilidade de ser alvejado na região ventral.
         É curioso ver que, mesmo tendo residido tantos anos em uma região cuja cultura é relativamente diversa, o casal manteve a tradição da sua terra natal, como, por exemplo, o sotaque carregado, pronunciando os fonemas ti e di linguodentais, falando com som arrastado, entre outras características do português arcaico que os habitantes do sertão do Nordeste ainda mantêm.
         No meio de tudo isso, a interessantíssima história desses dois ex-cangaceiros é regada por um romance mal sucedido, pois Durvinha, quando entrou para o dito bando, o fez apaixonada por um cangaceiro bem-apessoado, chamado Virgíneo, contudo, foi após a morte deste que se uniu a Moreno. Sem papas na língua e na presença do esposo, confessa, sem o menor receio, que o seu grande amor ainda era Virgíneo. Ademais, cabe salientar que ela nunca atirou em ninguém, pois tinha medo de pegar em armas, evidenciando comportamentos, admiravelmente, antagônicos dentro do cangaço.

2.2. O PACTO DOS CORONÉIS
         Na tarde do dia 24, na cidade de Lavras da Mangabeira/CE, houve uma conversa entre os pesquisadores/historiadores, sendo assistida por vários estudantes do distrito de Quitaiús, tendo como tema o Pacto dos Coronéis em Juazeiro do Norte, datado de 1911.       
         O assunto tratado girava em torno do uso do cangaço pra fazer política regional, isto porque no dia 04 de outubro de 1911, ano da inauguração da cidade de Juazeiro do Norte, alguns coronéis do sul cearense, intendentes municipais (espécie de prefeitos ‒ chefe do poder executivo), se reuniram nesta localidade para firmarem publicamente um acordo mútuo, sob a direção do padre Cícero Romão Bastista, comandante supremo do município recém-inaugurado.
         Neste dia, Juazeiro deixava de ser uma mera vila para passar à capital do cangaceirismo regional, e o padre Cícero o coronel dos coronéis.
         O encontro destes chefes políticos no Cariri cearense resultou numa espécie de tratado de paz, sendo batizado pelo padre Cícero de artigos de fé política. Porém, existem outras denominações para este mesmo fato, como pacto de paz, pacto de harmonia política, aliança política, conferência política, e, mais usualmente, pacto dos coronéis.
O fato é que o pacto pretendia por fim à série de deposições municipais (sendo o cargo de prefeito disputado à bala), bem como firmar o compromisso de apoio ao velho babaquara então presidente do Estado do Ceará, Antonio Pinto Nogueira Acióli. Porém, o artigo sétimo mencionava a condição de abrir mão dos cangaceiros, o que tornava tudo aquilo uma utopia, afinal, o coronel só existia em função destes bandidos e vice-versa.
Dos 19 líderes convocados para a sessão, apenas 17 deles ou seus representantes compareceram e assinaram a ata. Os pactuantes eram chefes das cidades de: Missão Velha, Crato, Juazeiro do Norte, Araripe, Jardim, Santana do Cariri, Assaré, Várzea Alegre, Campos Sales, São Pedro do Cariri, Aurora, Milagres, Porteiras, Lavras, Barbalha, Quixará (Farias Brito) e Brejo dos Santos.
         Por fim, das nove cláusulas estabelecidas, pouco foi cumprido, como, por exemplo, o apoio ao presidente estadual, que, inclusive, veio a ser reconduzido ao dito cargo, em 1914, pelas armas, principalmente, dos cangaceiros, chefiados por seus respectivos coronéis sul cearenses. Isto prova a existência da simbiose entre o coronelismo e o cangaço.
A medida tinha vários propósitos, dentre eles o fim das deposições municipais que estavam ocorrendo na região, pois os chefes políticos se aboletavam neste cargo usando da força. Para tanto, faziam uso de verdadeiros exércitos privados, compostos por capangas e cangaceiros.
Apesar da farta bibliografia que existe em torno do tema, alguns pontos permanecem sem solução, como afirmou Joaryvar Macedo, ao dizer que este: “tem sido um dos assuntos controvertidos da crônica política do Cariri, inclusive quanto a quem o concebeu. A sua ideação já foi atribuída por estudiosos ao Padre Cícero, ao doutor Floro, ao coronel Antônio Luís Alves Pequeno, ao presidente Nogueira Acióli, ao doutor Arnulfo Lins e Silva, então juiz de Barbalha” (Império do Bacamarte, p. 139).
Assim, já tendo sido o pacto em comento algo bastante explorado pelos estudiosos, coube aos painelistas fazerem digressões em outros aspectos, como apontar algumas origens remotas do coronelismo, do tempo da ocupação sesmarial, bem como abordar a influência psíquica da figura mística do padre Cícero sobre os coronéis, cangaceiros, jagunços, capangas e o povo.   
Ao final da tarde, o grupo fez excursão pela cidade de Lavras da Mangabeira, conhecendo os pontos principais que envolveram a invasão cangaceira da dita urbe no começo do século XX, isto por ensejo do resgate histórico feito por João Calixto e publicado em livro.
Heitor Feitosa Macêdo e o escritor Voldi Ribeiro, Lavras da Mangabeira, na tarde do dia 24 de setembro de 2015


2.3. O PADRE CÍCERO
         Em que pese ser a bibliografia sobre o padre Cícero bastante extensa, ainda restam pontos a serem revelados, e foi com esse mesmo mote que houve a reunião na noite do dia 25 de setembro de 2015, em Juazeiro do Norte.
         Os palestrantes discorreram sobre aspectos místicos e genealógicos do Santo Padre, enveredando tanto pela psique quanto pela árvore de costados de Cícero Romão Batista, apresentando uma ótica singular sobre o poder da crença no catolicismo popular e a possível influência que os ancestrais do dito sacerdote exerceram sobre o seu comportamento.

3. EPÍLOGO
         Este é apenas um breve resumo do que pude acompanhar nas poucas horas em que estive acompanhando o referido evento. Confesso que tive que provar uma moderada dose de convivência para afastar o preconceito que o título per si impõe, Cariri Cangaço, pois, como ficou dito, o compromisso deste sodalício não é enaltecer tal espécie de banditismo, mas poder compreender melhor os fatos que envolvem a sociedade nordestina, principalmente, a sertaneja.
         Futuramente, com expansão deste movimento para outros estados e regiões do País, ocorrendo a inserção de mais estudiosos sobre o cangaço e temas correlatos, estes encontros constituirão uma importante ferramenta para a elucidação histórica de uma sociedade encravada há séculos nos antigos sertões do Norte
         Talvez não seja exagero, mas acredito que esse sinergismo poderá oferecer algumas respostas ou orientações para aqueles que estudam a história, a sociologia, a antropologia e o direito (principalmente no ramo da criminologia) concernente à civilização do couro, sociedade esta formada por gente interiorana, do semiárido nordestino, que ainda existe e, por isso, precisa ser vista e escutada não como vítima, mas como sujeitos de sua própria história.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ARAÚJOS CHAVES & FEITOSAS COLONIZADORES DO CENTRO-OESTE DO CEARÁ HISTÓRIA E GENEALOGIA, DE F. ARAÚJO FARIAS

ARAÚJOS CHAVES & FEITOSAS COLONIZADORES DO CENTRO-OESTE DO CEARÁ HISTÓRIA E GENEALOGIA, DE F. ARAÚJO FARIAS

           
                                                                                      Heitor Feitosa Macêdo

         Fernando, é com muito prazer que traço alguns pontos acerca desta sua obra. E a sensação que tenho, ao fazer isso, seria mais ou menos a mesma que você teria se pudesse tratar desses assuntos com Seu Nado (Leonardo Feitosa) ou com Raimundo Girão, por exemplo.

         Portanto, encaro a referida tarefa com muita responsabilidade, respeito e admiração.
         Como diz o padre Neri, “historiador é como pedreiro: não pode olhar o trabalho de outro sem apontar erros”.[1] Ao lado disso, é certo que a verdade histórica nunca é absoluta, muito menos será homogênea, pois, por mais que nasça da análise de um fato externo, será sempre o produto do pensamento individual, fruto da idiossincrasia, e, portanto, relativa.
         A nós pesquisadores (já que historiador, oficialmente, passou a ser um título outorgado por universidades) consola poder escarafunchar fatos e tentar amoldá-los a uma suposta realidade de uma época pretérita, o que, dificilmente, conseguiremos fazer com exatidão.
         E o que nos move para esse deserto sem rosto é o simples desejo de saciar a universal curiosidade humana, em saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
         Portanto, ao aceitar realizar tais considerações sobre o presente trabalho, não posso afastar-me da responsabilidade de tentar alcançar a verdade, repita-se, que sempre será subjetiva.
 
RESENHA

         A proposta apresentada pela dita obra alcança, perfeitamente, seu objetivo, pois o autor consegue provar que a ocupação (colonização/povoamento/fundação) do centro-oeste cearense deu-se por gente oriunda desses dois clãs originários do Rio de São Francisco, Araújo Chaves e Feitosa. Acrescente-se que estes dois grupos eram aparentados entre si, o que é demonstrado repetitiva e didaticamente no decorrer da obra.
         Talvez, para a maioria da geração moderna, o gênero destes estudos possa conotar algo supérfluo, levando os mais apressados ao erro de julgar que o estudo desses laços de parentesco seja algo dispensável, ou mero resquício do período colonial, sendo, por isso, demodé e incompatível com a atual forma de governo que vigora no Brasil, a democracia.
Data venia, esse julgamento é um erro crasso, pois o autor, ao destrinçar os nós sócio-genealógicos, não o faz com a finalidade de mero enaltecimento ou frívolo deleite, mas com a intenção de poder entender a psicologia e o arranjo social das eras passadas, tentando, honestamente, reconstituir o antigo cenário que frutificou no que somos hoje.
A importância desse estudo pode ser encontrada na proposta de um dos maiores best sellers da sociologia brasileira, Casa-Grande & Senzala, no qual Gilberto Freyre, ao analisar a formação do povo brasileiro, o faz a partir da família patriarcal, como sendo esta a célula mater dessa sociedade desde os primeiros tempos do desbravamento. Pena que a visão freiriana tenha esbarrado na zona da mata nordestina, legando aos pesquisadores do presente a difícil tarefa de investigar a atuação desse núcleo familiar no seio do sertão.
É sob essa mesma vertente que Fernando Araújo Farias lança seu olhar microscópico sobre as antigalhas dos séculos passados, estando despido da vaidade heráldica e de qualquer eugenia sertaneja. O compromisso do autor é tentar esclarecer como ocorreu a ocupação do solo no centro-oeste cearense, e qual a importância das relações familiares neste empreendimento.
         Como sempre costuma fazer em seus estudos, o autor vai além da aparente superfície imposta pela história oficial, revolvendo o passado em busca de documentos capazes de (re)contar os antigos fatos, apresentando, sempre que possível, novas versões.
É com esse mote que atesta o pioneirismo das famílias citadas nas imediações da Serra da Ibiapaba, quase que de Norte a Sul, delineando minuciosamente a ocupação luso-brasileira de parte das fronteiras do Ceará com o Piauí, na área açambarcada pelo antigo Sertão do Acaracú (hoje, modificado para Acaraú, evitando o cacófato).
Constitui um trabalho de grande fôlego, reunindo vasto conhecimento em vários campos do saber, como história, genealogia, geografia, sociologia, etc., sob uma perspectiva regional/local, onde a visão alcança aspectos microscópicos, indispensável para compreender a antiga sociedade que se alocou nessas serras e sertões.
Como afirmou o eminente padre Sadoc de Araújo: “a história do Ceará não estará escrita, enquanto escrita não estiver a história particular de cada um dos seus municípios”. Porém, essa ideia merece ser estendida, pois, na verdade, a história do sertão nordestino não estará escrita, enquanto escrita não estiver a história particular de cada um dos seus sertões.
Pensando a história desse espaço como um mosaico, pode-se dizer que a presente obra de Fernando Araújo Farias constitui mais uma das peças essenciais para a constituição desse enorme e pouco conhecido quebra-cabeça.   





[1] Feitosa, Padre Neri, Feitosas e Montes, Canindé – Ceará, p. 51.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Memória da Rua da Gente

MEMÓRIA DA RUA DA GENTE
                                                                         
                                                                     Heitor Feitosa Macêdo

         Falar na malha urbana de uma cidade é inevitavelmente fazer menção as suas ruas, e, por conseguinte, aos seus nomes, tomados de coisas ou pessoas. No município do Crato/CE isto não é diferente, exceto pelo critério adotado por alguns homens públicos.
Antigo mapa da Vila do Crato, entre 1815 e 1824.
         Há alguns anos, uma pequenina rua, supedânea à chapada do Araripe, que vai esbarrar no Centro de Expansão, ao lado do Clube Recreativo Granjeiro, existe de fato, mas não de direito, por causa de não possuir um nome, o que tem causado prejuízo aos seus moradores, pois suas correspondências restam prejudicadas.
         Tentando sanar tal situação, pediu-se auxílio a um dos ilustres vereadores da referida urbe, no entanto, a resposta dada foi a de que a Câmara municipal andava bastante ocupada com a apuração de denúncias indigitadas aos membros deste cândido sodalício. Assim, como demanda o bom senso, parecia razoável esperar a poeira baixar, mas, infelizmente, estas questões não possuem prazo certo para acabar.
         Não mais podendo aguardar o fim do atual impasse que envolve a administração cratense, mais uma vez outro vereador foi procurado para por fim ao anonimato da dita rua, sendo a ele remetida a biografia de um português chamado José Pereira Aço, trisavô do padre Cícero Romão Batista e um dos primeiros colonizadores do Cariri, ancestral de várias famílias da região, como os Lima Verde, os Ferreira Lima, os Alencar Araripe, os Maia, os Norões, etc. Este material compunha-se de documentos inéditos e relatava a importância da forma como o território cratense havia sido ocupado, sob o pano de fundo dos primeiros conflitos agrários.
         Contrariando as expectativas, o referido edil refutou o nome do patrício citado, não por motivo ligado ao estranho sobrenome, Aço, ou por qualquer aspecto que desabonasse aquele filho de Barcelos, mas sim por calcar-se no fato de tal indivíduo ser muito antigo, por não ter nascido no Crato/CE bem como por não haver memória recente sobre ele entre os atuais moradores. Ora, de fato, o José Pereira Aço, por ser um dos primeiros habitantes do antigo território cratense, imigrado no início do século XVIII, realmente não poderia aí ter vagido em uma época tão remota, a não ser que, em vez de europeu, fosse ele um índio Cariri.
         Quanto à memória, este é o propósito a que se destinam os trabalhos escritos como as biografias, não podendo esquecer a relação que isto guarda com o batismo das ruas, afinal, as coisas e pessoas são relembradas sempre que um endereço é mencionado.
         Percebe-se que, inicialmente, até o século XIX, as ruas do Crato não eram batizadas com nomes de pessoas, a exemplo da Rua das Nove Laranjeiras (R. José Carvalho), Rua do Pisa (ou R. das Flores, e, hoje, R. D. Quintino), Rua Grande (trecho da Miguel Lima Verde), Rua do Fogo (R. Senador Pompeu), Rua da Missão Velha (R. Tristão Gonçalves ou R. da Vala), Rua da Pedra Lavrada (R. D. Pedro II), e outras. Porém, diferentemente dos tempos passados, segue a tendência de (re)nomear tais vias com alcunhas de pessoas, elegendo-se, teoricamente, os nomes dos indivíduos mais destacados, que contribuíram de alguma maneira para a coletividade, critério este que vem sendo impiedosamente vitimado pela amnésia pública.
         Esse esquecimento parece ser algo crônico, pelo menos por parte dos gestores, pois, no que tange aos primeiros povoadores, nenhum deles figura em nome de rua, quais sejam: Manoel Rodrigues Ariosa (oficialmente, o primeiro proprietário), Antonio Mendes Lobato (o segundo proprietário), Domingos Alves de Matos e sua esposa Maria Ferreira da Silva (doadores do atual território cratense). Nem mesmo o célebre fundador do primitivo núcleo da cidade do Crato, Frei Carlos Maria de Ferrara, italiano natural de Palermo, nomeia rua na cidade que ajudou a erguer.
         Entre os índios, tanto os tapuias com seus nomes originários (aborígenes) quanto os que foram batizados com alcunhas cristãs, não consta um sequer que tenha sido homenageado com o batismo das artérias urbanas cratenses, salvo a generalidade da Rua dos Cariris.
         A velha gente supracitada, na sua maioria, a exemplo do José Pereira Aço, não é mais estranha ao Crato, em termos de nascimento, do que outros que servem como denominação de suas ruas, pois dos noventa nomes arrolados por J. Lindenbergue de Aquino (em Roteiro Biográfico das Ruas do Crato, 1969), dezenas deles nasceram em longínquas paragens, como Duque de Caxias, Getúlio Vargas, Rui Barbosa, Santos Dumont e o Presidente Kennedy, que nem brasileiro era.
         Esta omissão do poder legislativo municipal não merece prevalecer, pois, não fossem os primeiros colonizadores, palmilhando sendas indígenas (abertas a golpe de facão e alargadas pelas patas bovinas), assentando fazendas e aldeias artificiais, nada da atual cidade existiria. Isto porque foi o heroísmo dessa gente, singrando mares, atravessando florestas, sobrevivendo às adustas caatingas e varando rios a nado, o que garantiu a conquista do nosso território.   
         Por ignorância ou por falta de compromisso de alguns homens públicos para com a memória da cidade do Crato, os heróis do povoamento sertanejo caem no esquecimento de sua própria gente, relegados à penumbra das passagens por eles criadas, sepultados aos pés das vias que outrora transitaram efêmeros e que agora, inertes, aguardam pacientemente os atuais edis, não só em termos materiais, mas também em ações que reconheçam publicamente o que hoje lhes têm sido negado, o direito de permanecer na memória dos cratenses.
         Finalmente, o critério utilizado por alguns administradores públicos para nomear ruas e homenagear seus moradores, segue, além da conveniência e oportunidade (conferidas pela lei), um subjetivismo incapaz de entender a origem e os verdadeiros valores de sua gente, sintoma de uma cegueira política, que faz dessa prática mero deleite pessoal, ou, quando muito, reles aprazimento para os seus eleitores.
         E ainda dizem que o povo brasileiro tem memória curta! 
      
(In Jornal Acontece, 2015)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

APROVEITE A LIQUIDAÇÃO! É DE DAR ÁGUA NA BOCA!

APROVEITE A LIQUIDAÇÃO! É DE DAR ÁGUA NA BOCA!
                                                                         
                                                                         Heitor Feitosa Macêdo
Foto da Chapada do Araripe (Autor: Roberto de Matos Amorim)

          Preço imperdível! Corra agora e aproveite, pois essa oferta é por tempo limitado! São os últimos números do estoque. Garanta já o seu!
         São milhões de metros quadrados com vista para a Chapada do Araripe, ou, se preferir, do alto, também poderá ter uma visão panorâmica das principais cidades do Cariri. Comprando um terreno, você leva de graça um jardim natural, com Mata Atlântica e tudo mais, cheia de palmeiras, pássaros exóticos e, o mais importante, também terá, sem nenhum custo, água limpa e cristalina, brotando direto da terra. E tudo isso com um super desconto e preços baratinhos, em suaves parcelas. Mas corra agora, porque já está acabando!
         E está acabando mesmo, porque essa é a atual demanda da região do Cariri: a especulação imobiliária e o avanço das casas sobre as matas. É algo impressionante, pois pouca gente se preocupa com as consequências que isso já está trazendo, e não precisa ser um biólogo para perceber.
         Quem não quer ter uma casa? Esse é o sonho de qualquer um, principalmente se for uma duplex que tenha visão privilegiada, de preferência, para alguma área verde, pois, aparentemente, é saudável e, além de tudo, chique.
         Na cidade do Crato, os efeitos desastrosos dessa prática saltam aos olhos. A torto e a direito veem-se ofertas de terrenos e casas encravadas no seio da área de proteção ambiental, algumas são de muito bom gosto, exceto pela pouca consciência dos donos e pela omissão das autoridades públicas. Cadê o Ministério Público? E o plano Diretor?
         Nascentes estão perdendo sua vazão, enquanto que outras já secaram, como, por exemplo, algumas no Sítio Coqueiro e nas proximidades do distrito de Santa Fé. Aproveitando o ensejo, não bastasse alguém ter desmatado parte da densa floresta que cobria as imediações daquele pé de serra, alguns proprietários estão vendendo o que restou, bem na encosta, onde as fontes brotam. Parece piada, mas, no lugar onde houve esse desmate, foi feito um condomínio com o nome Bosque dos Babaçus. Talvez seja alguma homenagem póstuma.
         Primeiro foram os clubes recreativos, hoje são os particulares que querem a todo custo usar, gozar e dispor do seu direito de propriedade, em contato direto com a natureza, claro, sem respeitá-la.
         Os números indicam a velocidade com que essa catástrofe se aproxima da população cratense, bastando olhar ao redor e perguntar qual reservatório abastece a cidade afora as pequeninas nascentes que outrora corriam transparentes pelas levadas.
         Em 1764, relatos indicam que dois aquíferos perenes banhavam a então Vila do Crato, os rios Batateira e Miranda (Revista Itaytera:1973, Nº17, p. 18). No século XIX, João Brígido dá notícia de, aproximadamente, cem fontes jorrando constantemente das encostas do Araripe (Homens e Fatos:2001, p. 151). No início do século XX, Irineu Pinheiro enumerou 70 delas só no Crato (O Cariri:2009, p. 21); porém, na década de 1980, esse número caiu para apenas 58 (Revista Hyhyté:1980, Nº 07, p. 20).
         Como se vê, este número ainda está diminuindo. Deus queira que a próxima Guerra Mundial não seja por água, porque, se for, certamente o Crato está a meio caminho. 
         Cabe lembrar que os poços e cacimbas não servem como solução definitiva, pois o lençol freático também seca, e, pior, pode ser contaminado com as fossas das belas e escatológicas mansões.
         As faldas do Araripe escaparam à secura das caatingas que as rodeiam, mas está agonizando com a predação da especulação imobiliária e com o descaso do Poder Público.
         Mas, atenção! Aproveite a oferta e faça parte dessa liquidação!

(In Revista Acontece, Crato, julho de 2015)

         

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O PRIMEIRO JORNAL DE JUAZEIRO DO NORTE: O REBATE

O PRIMEIRO JORNAL DE JUAZEIRO DO NORTE: O REBATE
                                                               
                                                                            Heitor Feitosa Macêdo


         
         No dia 18 de julho de 1909, o jornal O Rebate foi publicado, entrando em circulação nas ruas do então distrito de Juazeiro do Norte/CE, tendo como fundador, diretor e redator-chefe o padre Joaquim de Alencar Peixoto.
         O nascimento deste jornal serviu como importante ferramenta de apoio à almejada emancipação política de Juazeiro do Norte, pois, ao tempo de suas primeiras edições, tal localidade não passava de um pequeno povoado pertencente à cidade do Crato/CE.
         O Rebate representava parte dos anseios da nascente burguesia que se concentrava no primitivo nicho juazeirense, trazendo em seu bojo a indelével ideia separatista. Assim, o emergente distrito, para se desvencilhar da urbe cratense, utilizou-se largamente do dito semanário.
         Na época, a rivalidade entre Crato e Juazeiro era representada, no mundo das ideias, pelo entrincheiramento da imprensa local, de um lado O Rebate, comandado pelo padre Alencar Peixoto, do outro o Correio do Cariry, chefiado pelo farmacêutico José Alves de Figueiredo. Não foi à toa que o hebdomadário tomou o nome de O Rebate, em alusão ao ato de rebater, indicando uma das suas principais ocupações.
Pe. Alencar Peixoto
(Fonte:Álbum do Seminário do Crato)

         O dito padre era natural do Crato, porém, havia migrado para o Juazeiro em 1907, sem autorização do Bispo D. Joaquim, e, além disso, também havia se desentendido com o caudilho cratense, o coronel Antonio Luiz Alves Pequeno. Sem dúvida, estes fatos serviram à causa que dividia as duas localidades em conflito.
         Afora a emancipação de Juazeiro do Norte, o jornal O Rebate também se dedicou veementemente ao tema das minas de cobre do Sítio Coxá, que, no período, era objeto de uma tensa disputa judicial envolvendo o padre Cícero, proprietário das terras em que se localizavam as jazidas.
         Como se percebe, a intenção precípua desses jornais não era meramente o repasse da notícia, mas o engajamento político, e, por conseguinte, a busca pela imposição de seus discursos, ou melhor, da vontade das classes dominantes, engalfinhadas a troco de poder sobre aquele nascente espaço urbano.    
         O encerramento das atividades desse jornal se deu pouco tempo depois da emancipação de Juazeiro do Norte (22 de julho de 1911), ensejando a saída do seu redator-chefe da cidade recém-criada, pois apesar de este ter alcançado a separação política, não pôde realizar seu outro desejo, o de chefiar o governo da nova urbe, tendo em vista que esse encargo coube ao seu confrade, o padre Cícero.
         As publicações de O Rebate davam-se semanalmente, aos domingos, isto até o dia 03 de setembro de 1911, data de seu último exemplar, perfazendo a soma de 104 edições.
À esquerda, o padre Alencar Peixoto, ladeado pelo Dr. Floro Bartolomeu, em 1909, na sala de redação de O Rebate (Fonte:Sobreira, Padre Azarias, O Patriarca de Juazeiro, p. 07)
         Para aqueles que tiverem curiosidade de ler o antigo hebdomadário, a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Brasil disponibilizou parte de suas edições, concernente aos anos de 1909 e 1910, no seguinte endereço: <http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx>

(Jornal Acontece, Região do Cariri - De 24 de fevereiro a 10 de março de 2015, Nº 55 - Ano 6 - Fundado por Antonio Rodrigues Peixoto, p. 07).



quinta-feira, 19 de março de 2015

O REINO SANGRENTO DA PEDRA BONITA

O REINO SANGRENTO DA PEDRA BONITA
                                                                 
                                                                                        Heitor Feitosa Macêdo

            Uma das mais famosas obras de Ariano Suassuna traz o título de A Pedra do Reino, romance que teve como inspiração um fato verídico ocorrido no sertão pernambucano do Pajeú, o qual, apesar de ter virado folclore, constituiu uma verdadeira tragédia sertaneja.
         Contado em minúcias em 1875, por seu principal historiador, Antonio Ático de Sousa Leite, sob o título de Memória sobre o Reino Encantado na Comarca de Villa Bella, o ocorrido nesta localidade ganhou exatidão e contornos verossímeis, consignando uma crueza que anda longe de ser mera literatura.
         Esta história sangrenta teve início entre os anos de 1836 e 1838, quando um grupo composto por, aproximadamente, trezentas pessoas reuniu-se no alto sertão do Pajeú, sob a liderança de um mameluco eloquente, João Antonio dos Santos, que pregava com singular ardor a volta do rei português D. Sebastião, desaparecido na África desde 1578.
         Nas fervorosas prédicas, João Antonio, na qualidade de rei dos fanáticos (o primeiro da tosca dinastia), garantia que D. Sebastião voltaria do lugar em que estava, isto é, no reino encantado, mas, antes, seria necessário que duas enormes pedras, uma delas impregnada de reluzente malacaxeta, fossem totalmente banhadas de sangue, pois, quando o reino fosse desencantado, o monarca desaparecido voltaria com seu exército e aquela gente gozaria de muitas benesses.
         Mas, para alcançar esta graça, o sangue deveria ser obtido com o sacrifício de pessoas e cães, porque, uma vez atingido o desencantamento, todos os mortos ressuscitariam, os pobres voltariam nobres, imortais, ricos e poderosos, amais, quem fosse preto tornaria à vida branco como a lua. Eram estas promessas irresistíveis, ao considerar a marginalização em que vivia aquela miserável gente, formada por pobres e não brancos.
         E qual a razão de também sacrificarem os cães? Os pregadores deblateravam que estes animais também ressuscitariam, contudo, em forma de dragões, com a finalidade de engolir os proprietários da época.
         Deturpando a religião católica, os sebastianistas acrescentaram características aparentemente índias ao culto romano, dando-lhe caráter sincrético, pois, para poder enxergar o reino, os seguidores sorviam uma beberagem feita de jurema e manacá, conhecida como vinho encantado, além de fumarem em cachimbos, havendo proibição de adquirir roupas e tecidos. Acrescente-se que os súditos da Pedra do Reino utilizavam cacetes como armas, também sendo usual o casamento de um só homem com mais de uma mulher.
         Acerca dos casamentos, existia uma peculiaridade digna de citação, pois, aos reis da Pedra Bonita, era reservado o direito da prima nocte, ou seja, os líderes deste movimento dormiam a primeira noite com as mulheres recém-casadas, ato que os sebastianistas denominavam de dispensa do rei.  
         O certo é que entre os dias 14 e 15 de maio de 1838 os sacrifícios tiveram início, matando-se mais de 50 pessoas, além de 14 cães. As crianças eram entregues ao algoz pelos próprios pais, isto quando estes não cuidavam de realizar pessoalmente o serviço, como ocorreu a um filho de José Vieira, que foi colocado sobre a pedra dos sacrifícios pelo próprio genitor, vindo este, com o primeiro golpe, a decepar o braço do inocente com um facão, não atendendo às súplicas da criança, ditas em vão: meu pai, você não dizia que me queria tanto bem?!.
         Ao tomar notícia deste acontecimento, através de um vaqueiro de sua fazenda que havia se evadido durante o início das matanças, o comissário major Manoel Pereira da Silva organizou uma tropa e tão logo rumou de sua fazenda Caiçara até à Serra Formosa, onde teve encontro com o grupo dos sebastianistas, homens, meninos e mulheres semi-nús, armados de facões e cacetes, tendo à frente o terceiro rei, Pedro Antonio, na ocasião, adornado com uma coroa de cipó, pois roubara o trono no dia 17, ao matar seu predecessor João Ferreira, o Jóca (o segundo rei de Pedra Bonita), a quem quebrou a cabeça e arrancou as vísceras.
         O morticínio só teve trégua no dia 18 de maio de 1838, quando alguns membros de uma família de proprietários da região, conhecida como os Pereira do Pajeú, puseram cobro a esta hecatombe, mas não sem sofrer danos, pois dos quatro irmãos que travaram intenso combate com o grupo sebastianista, dois foram mortos, Cipriano e Alexandre Pereira, um ficou ferido, o comissário major Manoel Pereira da Silva, e apenas o terceiro saiu ileso, o coronel Simplício Pereira da Silva, o qual, nobremente, evitou que os sobreviventes da Pedra Bonita fossem linchados por parte da população.
         Mais que folclore e mera literatura, a pedra do reino representa os efeitos de uma colonização excludente e do choque de culturas, reverberando em pobreza e fanatismo, matéria prima para a história dos sertões nordestinos.