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sexta-feira, 1 de julho de 2016

A Língua Sertaneja: quem diz dixe!

A Língua Sertaneja: quem diz dixe!
                                                                            
                                                                                     Heitor Feitosa Macêdo

         Ainda hoje há quem se depare com gente nos confins das cidades interioranas do Nordeste brasileiro utilizando antiquíssimas expressões da língua portuguesa, consideradas pela maioria dos cidadãos alfabetizados erros crassos de gramática. Porém, o problema é, no mínimo, histórico e geográfico!
         Os citadinos mais desavisados, quando passeiam pelos sertões, o interior, costumam reparar, superficialmente, a dessemelhança cultural que há entre eles e o povo desses lugares recônditos, sendo a pronúncia das palavras o objeto preferido dessa observação, por sinal, verticalizada e precedida de um preconceito indisfarçável.
         No topo de sua jactância, esse indivíduo gramaticalmente correto, ao escutar terminologias não ouvidas nas grandes cidades, como alenvantar (levantar), sobaco (sovaco), bassora (vassoura), entonce (então), etc., ri a valer dessas palavras que julga serem incorretas do ponto de vista da atual regra gramatical da língua portuguesa. E, ainda, quando retornam as suas casas, relembram diversas vezes, contando aos seus conterrâneos o que ouvira, sendo comum narrar sua piada acerca de algum erro gramatical com a seguinte frase: como diz o matuto!
         O grande erudito Câmara Cascudo admite ter se colocado, involuntariamente, ao lado dos que se divertiam com a prosódia e cacoepia dos sertanejos, contudo, confessa que, certa feita, ao rir de uma velha negra quitandeira, pelo fato de esta ter usado o termo parança, consultou um antigo dicionário do final do século XVIII, e constatou que a palavra existia e significava o ato de parar.
         Este é só um exemplo das inúmeras expressões do linguajar do interior do Nordeste que, hoje, desconhecemos e, por isso, julgamos serem, gramaticalmente, erradas. Mas este julgamento é relativo, pois deve ser levado em conta, além do fator geográfico, a história cultural dessa gente, pois boa parte das terminologias presentes no vocabulário sertanejo foi herdada do período colonial, embarcada nas caravelas de 1500 e trazida pela boca dos primeiros portugueses chegados ao País.
Isso mesmo! É a linguagem do Brasil quinhentista, a língua do colonizador, parcialmente mumificada, que não constitui apenas sinal de analfabetismo, mas um verdadeiro laboratório da língua portuguesa, um retorno ao passado. E isto será provado!
Quem, conversando com um agricultor, nunca se deparou com a palavra dixe (do verbo dizer, no singular da terceira pessoa do presente do indicativo: ele disse)? Não precisa apurar os ouvidos para constatar a presença desta expressão no meio rural! É algo bastante corriqueiro e, como em outros casos, julgam os mais apressados ser isto um erro gramatical.
Achar que o matuto deturpou tal vocábulo é inadmissível, pois a história comprova que os intelectuais do período Colonial, chamados de doutores, letrados e licenciados, incluindo os europeus diplomados nas universidades de Portugal, usavam frequentemente dixe para dizer disse na redação dos documentos oficiais da época.
Isto é o que se lê nos autos do Santo Ofício na Bahia, de 1593 a 1595, onde o inquisidor (Juiz do Tribunal da Inquisição), Heitor Furtado de Mendonça, letrado formado na Universidade de Coimbra, ao proceder ao interrogatório dos investigados, por diversas vezes, por meio de seus escrivães, registrou a palavra dixe.

        A palavra dixe registrada nos Autos do Santo Ofício da Bahia, entre 1593 e 1595.

         E não parou por aí, pois, nos séculos seguintes, em vários manuscritos redigidos por portugueses e brasileiros, encontra-se o termo dixe em vez de disse. Basta lançar mão desses antigos documentos para atestar o fato.
         Portanto, quem diz dixe não deve ser considerado, necessariamente, analfabeto nem ridicularizado pelos praticantes da norma culta, mas, pelo contrário, deve ser visto como agente de conservação da antiga língua portuguesa, coisa que, talvez, nem mais exista em Portugal como aqui ocorre, no coração do Nordeste brasileiro.


FONTE BIBLIOGRÁFICA:

Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil: Denunciações e Confissões de Pernambuco (1593 - 1595), Recife, FUNDARPE, 1984.