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sábado, 2 de setembro de 2017

CARIRIENSES QUE AINDA UTILIZAM A LÍNGUA INDÍGENA

CARIRIENSES QUE AINDA UTILIZAM A LÍNGUA INDÍGENA
                                                                 
                                                                  Heitor Feitosa Macêdo

         Em meados de 2015, na peleja diária do ganha pão, estive na Vila da Palmeirinha dos Vilar, zona rural do município do Crato/CE, para fazer uma visita a uma cliente. Na ocasião, parecia que tudo fluiria como sempre, não ultrapassando as raias da formalidade profissional.
Dona Tica de Jorge.
         Tentando agir dentro das convenções do meio sertanejo, fui apanhado pela hospitalidade peculiar daquela gente. Começou com uma água, depois um cafezinho; e a conversa já ia descambando por mais de duas léguas quando perguntei a Dona Tica de Jorge (Francisca Maria Pereira Santos), mãe de minha cliente, se ela havia plantado algo naquele ano. Em resposta, Tica me disse ter semeado fava.
         Com o pequeno conhecimento que eu havia adquirido em conversas que tive com meia dúzia de agricultores, sabia que fava é uma cultura com a qual nem sempre se obtém sucesso todos os anos. Assim, fingindo ser doutor no assunto, indaguei qual tinha sido o resultado da plantação. Foi aí que ela respondeu nos seguintes termos: “a fava tá fazendo um jererê danado”.
         A resposta me causou grande dúvida, pois, no alto de meus trinta e poucos anos, tendo bacharelado em Direito e um livro no prelo, não sabia patavina do que ela havia dito, pois “jererê”, até então, era, para mim, uma palavra vazia de significado, quando muito, seria alguma espécie de prato baiano ou afro-brasileiro. Santa ignorância!
         No entanto, lancei mão da humildade, coloquei um sorriso amarelo no rosto e perquiri mais uma vez à velha: “Dona Maria, e o que é jererê?”. Rindo do meu desconhecimento e da indiscrição da minha curiosidade, ela explicou suscintamente: “meu fi, jererê é inrramar”. Complementarmente, explicou que a fava crescia volteando seus ramos em torno de um algum sustentáculo, sendo este, comumente, a haste dos pés de milho. Estava eu diante de um grande ensinamento da policultura de subsistência, porém, restava saber de onde ela havia tirado essa palavra, pois, sendo analfabeta, só poderia ter assimilado da tradição oral.
Dona Tica de Jorge.
         Mais feliz do que envergonhado, por desconhecer a riqueza do vernáculo falado em meu próprio terreiro, lembrei do que havia ocorrido com o pesquisador Luís da Câmara Cascudo, o qual, depois de ter mangado de uma velha quitandeira, pelo fato de essa ter utilizado a palavra “parança”[1], ao consultar um antigo dicionário do final do século XVIII, ele constatou, para sua surpresa, que o termo existia. Assim, seguindo este exemplo, fui buscar socorro nos dicionários.
         O Aurélio afirma que “jererê” faz referência ao “baseado”, maconha[2]. Já o Houaiss registra duas palavras homônimas (“jererê”): a primeira é repetida com o mesmo significado dado pelo Aurélio, acrescentando que o vocábulo deriva da língua africana, mais especificamente, do termo “ngelele”; a segunda remete à sarna, assumindo acentuação diversa (“jererê” ou “jereré”), com acento agudo no “e”, sendo que a etimologia desta palavra, nesta segunda acepção, é, de acordo com o mesmo autor, de origem obscura[3].
         Mas ocorre que “jereré”, com acento agudo no “e”, aparece algumas vezes nos dicionários carreando diversos significados, como, por exemplo, chuvisco ou garoa; rede cônica de pescar, presa num aro circular, adaptado a uma longa vara que serve de cabo (sendo o mesmo que puçá e landuá); e, ainda, lepra ou coceira. O mais interessante é que, neste caso, a referida palavra encontra origem na língua indígena, o tupi, conforme o volumoso dicionário da enciclopédia Mirador.[4]
         Destarte, até aí, alguns dos dicionários mais clássicos da língua portuguesa só haviam aumentado minhas dúvidas, pois nenhum falava no movimento da ramagem da maldita fava!
         Analisando com maior delonga o caso, lembrei ter escutado dos moradores das imediações que a família de Dona Tica, “os Dorotêu”, morava desde priscas eras no território próximo ao distrito cratense de Ponta da Serra, lá pelas bandas da antiquíssima Fazenda Boqueirão, da Lagoa Rasa e Jaburú, tangenciando as fraldas da Serra de Caririaçú. Gente, em regra, de pele acobreada, olhos repuxados e, alguns, com cabelos lisos.
         Disse-me alguém que o meninos dos “Dorotêu”, por volta da década de 1960, andavam nús pelos citados sítios; usavam arcaísmos da língua para se referirem, por exemplo, a certos tipos de répteis, comumente conhecidos por calangos, os quais chamavam de “sardão”; além disso, faziam aluás em potes de barro, adoçando-os com rapaduras, para tanto, metiam o braço no dito recipiente para dissolver o açúcar. Importa dizer que, entre os integrantes dessa família, não existe memória que tenham vindo de outro lugar.
         Minha investigação via-se, sob este aspecto, limitada, pois, em regra, a História oficial se encarrega de identificar as origens da nobreza da terra, deixando na obscuridade negros, índios e mestiços. Não seria desmedido cogitar que esses discursos históricos tenham, disfarçadamente, a intenção de apagar a existência dos povos indígenas em determinados territórios brasileiros, como, por exemplo, no Vale do Cariri, onde, frequentemente, propala-se que os índios Cariri foram transferidos da Missão do Miranda (núcleo que originou a cidade do Crato) e levados para as aldeias do litoral: Parangaba, Messejana e Caucaia.
         Talvez, por trás desse argumento, haja o propósito de negar a atual presença do sangue e da cultura Cariri nas terras do respectivo Vale. Todavia, apesar da invisibilidade aos olhos das elites, esta gente sobreviveu amocambando-se pelos matos, dando origem à classe dos cabras e caboclos; outra parte, integrando a sociedade civil, forma a atual casta dos trabalhadores rurais (plantadores de cana, comboieiros, vaqueiros, moradores, etc.) e dos trabalhadores urbanos (empregadas domésticas, lavadeiras, passadeiras, jardineiros, pedreiros, caseiros, etc.). Boa parte da nação Cariri está no campo e nas favelas!
         Acredito que o principal motivo de não se investigar o origem dessa gente, através de uma História dos Pobres, se encontre no fato de a classe dominante se sentir desconfortável ao ver seus segredos revelados, isto é, ver descortinado o esbulho que fora feito aos índios da Missão do Miranda. Afinal, hoje, a quem pertencem as maiores áreas de terras férteis no município do Crato, que haviam sido dadas ao índios à época do missionamento? Esse é um dos grandes enigmas que envolvem essa gente marginalizada!
         Mas, voltando ao estudo da origem da palavra “jererê”, no sentido usado pela velha Tica de Jorge, recorri à antiga gramática da Língua Kiriri, escrita em 1698 por um padre italiano, da Ordem dos Capuchinhos, Vincêncio Mamiani, o qual esteve nas missões dos índios Cariris alocadas às margens do Rio de São Francisco. Para minha surpresa, encontrei um termo bastante parecido: “tererè”, cujo significado é “corrupio”[5]. A partir daí, tudo começava a fazer sentido, pois a ideia de girar se adequava ao movimento helicoidal da ramagem da fava que havia sido descrito por Tica.
Gramática da Língua Kiriri ou Cariri, de 1698.
         Entre as tradições sertanejas acerca do assunto, cabe destacar a crendice em torno dos redemoinhos de vento, pois, para evita-los, costumava o sertanejo desenhar na areia uma estrela de Davi, também conhecida por sino-salomão[6]. De certa forma, isto indica que, no catolicismo popular nordestino (fruto do amalgama entre a cultura indígena e os ritos romanos), estes redemoinhos tinham um quê de sobrenatural, ou, mais especificamente, demoníaco.
         Essa relação de movimentos circulares, do diabo e da língua indígena é sublimada pela lenda do saci-pererê, entidade que se desloca no espaço através de remoinhos. Destaque-se que a palavra “pererê", de origem tupi, é muito semelhante a “tererè” e “gererê”. Provavelmente, possuem o mesmo sentido, qual seja, rodopiar, girar. A variação da primeira consoante não causa estranheza, pois, nas línguas indígenas, era algo bastante comum; como exemplo, cite-se o caso do Rio Jaguaribe, no Ceará, também pronunciado Gegoaribe[7], Iaguaribe, Jaguarive, Jaguazibe e Jaguaripe[8].
         Penso que tive a sorte de não apenas escutar, mas, também, ouvir a antiga língua Cariri que ecoa no tempo, num timbre já esmaecido, nas mesmas vozes marginalizadas, ainda inaudível aos ouvidos dos estudiosos oriundos das academias.   
                
        
            
          




[1] Ap. MELO, Frederico Pernambucano de, Guerreiros do Sol, 5ª Ed., São Paulo, A Girafa, 2011, p. 46. Ver também: Cascudo, Luís da Câmara, Viajando o Sertão, São Paulo, Global Editora, 2009, p. 65.
[2] HOLANDA, Aurélio Buarque de, Dicionário Aurélio: Dicionário Eletrônico, 5ª Ed., Versão 7.0, Positivo Informática.
[3] HOUAISS, Antonio, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Objetiva, 2009, p. 1131.
[4] Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, 2ª Ed., São Paulo, Mirador Internacional, 1976, p. 1006.
[5] MAMIANI, P. Luiz Vincencio, Arte de Grammatica da Nação Kiriri, 2ª Ed., Rio de Janeiro, Typ. Central de Brown & Evaristo, 1877, p. 24.
[6] MELLO, Frederico Pernambucano de, Estrelas de Couro: A estética do Cangaço, 2ª Ed., São Paulo, Escrituras Editora, 2012, p. 50 e 51.
[7] Puntoni, Pedro, A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil (1650 – 1720), São Paulo, Fapesp, 2002, p. 167.
[8] Studart, Guilherme, Geografia do Ceará, Fortaleza - Ceará, Expressão Gráfica, 2010, p. 172 a 179.