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domingo, 16 de abril de 2017

Parte I: O Suposto Romance de Bárbara Pereira de Alencar com o Vigário do Crato, Miguel Carlos da Silva Saldanha

Parte I: O Suposto Romance de Bárbara Pereira de Alencar com o Vigário do Crato, Miguel Carlos da Silva Saldanha

                                                             Heitor Feitosa Macêdo

Mesmo depois da anistia dos patriotas presos durante a Revolução Pernambucana de 1817, um dado gerado por essa guerra, na esfera da informação, se protraiu no tempo, trespassando os séculos sem uma resposta definitiva. Trata-se do episódio que envolveu Bárbara Pereira de Alencar e o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha (Silva Peixoto) num suposto romance.
Imagem idealizada de Bárbara de Alencar.

Este evento já foi abordado por vários pesquisadores e historiadores, que sempre se posicionaram ferrenhamente em um dos lados desta trincheira. Alguns defenderam que D. Bárbara de Alencar teria sido vítima de um esquema difamatório originado pela maledicência de seus inimigos; outros são veementes em afirmar que Dona Bárbara, mesmo sendo casada com o português José Gonçalves dos Santos, foi amante do vigário do Crato, o padre Saldanha.
Mas qual dessas duas opiniões merece maior crédito?
A resposta será difícil, porque as evidências até hoje conhecidas são mínimas para afirmar com exatidão a ocorrência de tal enlace, mas, por outro lado, também não são suficientes para negar o referido. Daí, qual a melhor solução e que importância tem um evento, aparentemente, tão insignificante como este?
Tentando solucionar o problema, será feita uma exposição sistematizada de todos os informes que açambarcam o tema, isto para podermos alcançar melhor nível de compreensão sobre o fato e, a partir disso, um julgamento mais equilibrado.
Os principais autores e seus argumentos são os seguintes:

A Controvérsia

         Atualmente, a verdade sobre envolvimento amoroso de Bárbara Pereira de Alencar com o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha se tornou algo controverso nas fontes que tratam do assunto, pois, enquanto algumas afirmam que Bárbara foi amásia do padre Saldanha, outras negam a ocorrência do referido evento. 
Os registros até agora encontrados sobre o tal namoro são muito antigos, e desde o ano de 1817, à época da Revolução Pernambucana. As autoridades e os inimigos dos patriotas de 1817 afirmaram abertamente que D. Bárbara e o padre Saldanha eram amantes, o que também fora adotado pelos antigos cronistas, como João Brígido e Pedro Théberge, os quais puderam conviver com alguns dos personagens coetâneos à época do fato mencionado.
Contudo, também houve quem, além de negar o ocorrido, defendesse a honra da matriarca alencarina, mesmo que em réplicas apaixonadas, à guisa de autodefesa ao orgulho do vetusto e poderoso clã sertanejo.
Entre os que afirmam a veracidade do enlace de Bárbara com o dito padre estão o ex-governador da Capitania do CE Manoel Ignácio de Sampaio, padre Francisco Gonçalves Martins, George Gardner, João Brígido dos Santos e Pedro Thebérge.
Negando a existência do romance entre Bárbara e o padre Saldanha encontram-se: Pedro Jaime de Alencar, José Carvalho, Ruth Alencar, J. C. Alencar Araripe e o padre Antônio Gomes de Araújo.
Neste caso, por óbvio, não sendo possível obter a rainha das provas, ou seja, a confissão dos supostos amantes, nos resta apenas averiguar elementos que sejam capazes de levar a uma conclusão lúcida, para tanto, confrontando os diferentes discursos que pairam em trono deste evento.  

O Primeiro e o Principal Difamador de Bárbara de Alencar

         Depois do perdão de 06 de fevereiro de 1818 (por Aviso de 02 de outubro de 1820), Bárbara Pereira de Alencar foi libertada do cárcere na Bahia no dia 17 de novembro de 1820, e retornou ao Cariri. Porém, seus bens haviam sido sequestrados pela Coroa Portuguesa e uma parte de seus sítios foram leiloados, ou melhor, foram à hasta pública.
         Um desses sítios, o Pontal, onde residira o padre Saldanha, bem próximo ao Sítio Pau Seco, bucólica residência de Bárbara, fora adquirido em hasta pública pelo padre Francisco Gonçalves Martins, o que culminou numa disputa judicial entre o adquirente e Bárbara de Alencar. Ressalte-se que a animosidade entre tais contendores existia desde o movimento de 1817, como será exposto.
         O padre Martins era baiano, natural de Santo Amaro, e neste lugar havia feito parte da Ordem dos Carmelitas Calçados com o nome Frei Francisco de São José, contudo, veio a se afastar da dita ordem religiosa.
Em 1817, o padre Francisco Gonçalves Martins já era um homem maduro, com 43 anos de idade, havendo uma interessante notícia de sua compleição física na data de 1824, quando já possuía 50 anos de idade, nos seguintes termos:  de estatura ordinária, corpo magro, rosto descarnado, olhos grandes e pardos, com sobrancelhas grossas, nariz afilado, boca ordinária, lábios grossos e possuindo todos os dentes da frente. 
O tal sacerdote mantinha relações estreitas com os magnatas da época, pois, além de ser amigo e partidário de um dos descendentes do Caramurú (Diogo Álvares Correia) em terras caririenses, o coronel Leandro Bezerra Monteiro, também fora procurador de um parente deste, Antônio Joaquim Pires, o derradeiro senhor da poderosa Casa da Torre, principal sede da riquíssima família baiana dos Garcia d’Ávila.
Quando da Revolução de 1817 no Cariri, o padre Martins foi designado por seu correligionário, o coronel Leandro Bezerra Monteiro, para ir ao engenho do capitão-mor José Pereira Filgueiras no intento de trazê-lo com palavras ao grêmio do partido realista, o que serve para demonstrar um pouco do fervor do padre pela monarquia e pela elite direitista da época.
 Pelo exposto, o contexto ganha maior transparência, pois é patente que, já havendo a rivalidade no plano político entre o padre e a família Alencar (republicanos x monarquistas), a arrematação do Sítio Pontal serviu de estopim para mais um embate direto entre os dois partidos. Ademais, o padre Martins acusou o Vigário Miguel Carlos da Silva Saldanha e Tristão Gonçalves Pereira de Alencar de terem ordenado um ataque ao Sítio Pontal, à noite e com homens armados, certamente na tentativa de reaver as ditas terras por meio da força.
Não bastasse tantos desdouros, durante as guerras de Independência do Brasil, em que os caririenses estiveram envolvidos até 1823, a família Alencar, formando umas das principais lideranças desse movimento, se rivalizou novamente com o padre Francisco Gonçalves Martins que, ao lado de outros figurões da época, se posicionou contra à Independência, e, quando esta foi finalmente alcançada, terminou sendo preso e remetido às enxovias do litoral pernambucano:

Mandada abrir devassa pelos dois chefes da Expedição (José Pereira Filgueiras e Tristão de Alencar Araripe), o padre Francisco Gonçalves Martins foi preso sob a acusação de conspirar contra a causa do Brasil na companhia de alguns outros. Como juiz e escrivão no processo instaurado contra o sacerdote, figuraram respectivamente o citado Francisco Pereira Maia e José Pedro Nolasco de Carvalho, primo de Tristão e sobrinho de Bárbara de Alencar. Julgado e condenado, o réu padre Francisco Gonçalves Martins foi mandado em cadeias à justiça de Recife, acompanhado dum ofício de Tristão, membro do Governo desta província. De sua prisão em recife, o réu apelou para o Supremo Tribunal de Justiça de Pernambuco, ao qual estava subordinada a Justiça do Ceará. O agravo do padre Francisco Gonçalves Martins, escrito de seu cárcere, constituiu, ao mesmo tempo, um libelo contra os seus inimigos políticos e pessoais de Crato, os quais o haviam levado à prisão e condenação.

Dessa forma, o padre Martins não economizou tinta para fazer sua defesa frente às acusações dos seus inimigos, os quais foram atacados mordazmente, tecendo, sem rodeios, que Bárbara de Alencar era “manceba teúda e manteúda” do Vigário do Crato, isto é, do padre Miguel Carlos da Silva Saldanha.  
Um dos netos de Bárbara de Alencar, filho natural de Tristão de Alencar Araripe, Pedro Jaime, corroborou os motivos que teriam levado à dita difamação, entretanto, como era de se esperar, defende a honra de sua avó, negando que tenha havido o romance:

Dona Bárbara, que perdera todos os bens materiais no confisco da contrarrevolução, percebia agora, manchado pela maledicência, um bem maior: a sua honra de mulher honesta, mãe de família exemplar. Segundo o mísero e infame sacerdote, Padre Martins, que havia arrematado em hasta pública o Sítio Pontal, de propriedade de Dona Bárbara, ao ver-se envolvido em demanda judicial, em torno do dito sítio, começou a fomentar, por vingança, uma campanha de injúria e difamação em torno da honra da veneranda senhora. Passou a divulgar que José Martiniano, o filho mais novo de Dona Bárbara, não seria de seu marido, o comerciante português José Gonçalves dos Santos, mas sim do Vigário do Crato, Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha. Essa infâmia precisava ser rebatida com veemência, por não ter o menor cabimento.

            Até hoje, o dito padre tem carregado a culpa de ser o primeiro propagador da referida infâmia contra D. Bárbara Pereira de Alencar. Todavia, encontramos outro indivíduo, em tempo bastante remoto, afirmando por escrito que esta matrona era amásia do padre Saldanha, e, ao que tudo indica, em data anterior ao labéu do padre Francisco Gonçalves Martins.
Nos extratos do Ofício nº 11, do dia 13 de agosto de 1817, do governador do Ceará Manoel Ignácio de Sampaio, enviado a um dos desembargadores responsáveis pela apuração do levante de 1817, consta uma afirmação categórica, certamente a mais antiga que se tem notícia acerca do suposto namoro de Bárbara de Alencar e da perfilhação de seu filho caçula, cuja paternidade é atribuída ao padre Saldanha:

Nas cadeias da fortaleza daquela vila se acham presos à ordem de Sua Majestade, Maximiano Gomes da Sila, espião e propagador das doutrinas de Carvalho, o Padre Francisco Manuel de Barros , cujo crime consta do documento nº 28, Gregório José de Lemos, e Antônio da Costa Vilar, cujo crime consta dos documentos nos 29 e 30, além dêste os 8 indivíduos que mais figuraram na revolta do Crato que são o Padre José Martiniano de Alencar, seu irmão Tristão Gonçalves Pereira de Alencar, seu irmão o Padre Carlos Pereira de Alencar, sua mãe Bárbara Pereira de Alencar, o vigário do Crato o Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha, pai do padre José Martiniano, Francisco Joaquim de Gouvêa e Inácio Tavares Benevides, parentes daquele Alencar, e o Padre Frei Francisco de Santa Ana Pessoa, parente do infame João Ribeiro Pessoa de Melo.       
    
            Como se percebe, os boatos quanto à infâmia de Bárbara de Alencar já circulavam, por escrito, desde agosto de 1817, o que leva a crer que o padre Martins não foi o primeiro a publicar em letras as notas difamatórias, e, pelo visto, era ele apenas um dos principais a fazer a dita imputação contra a honra da referida matriarca.  

CONTINUA!
NOTA: TODOS OS DADOS AQUI APRESENTADOS SÃO RESPALDADOS EM FONTES ESCRITAS, CONTUDO, ESTAS SÓ SERÃO REVELADAS QUANDO DA PUBLICAÇÃO EM LIVRO DE NOSSA AUTORIA.


O CAPITÃO-MOR DA REAL VILA DO CRATO (CE): SUA HISTÓRIA EM VERSO E REVERSO

O CAPITÃO-MOR DA REAL VILA DO CRATO (CE): SUA   HISTÓRIA EM VERSO E REVERSO

                                                  Autora: Maria Cecília Santos Carvalho
                                                   Postado por: Heitor Feitosa Macêdo

Quantas vezes já ouvimos a expressão: Ninguém é insubstituível?
Acredito que somos todos insubstituíveis, visto que ninguém pode fazer o que o outro faz da mesma forma.


            Somos todos produto da nossa família, do nosso meio, das nossas vivências; trazemos, em nosso âmago, características, reações e comportamentos únicos, os quais constroem a nossa história; e é por essa nossa história, boa ou ruim, que poderemos ser ou não lembrados através dos tempos.
            Partindo deste ponto de vista, entro no tema a que me propus, contando um pouco da história militar e política do brasileiro José Pereira Filgueiras, eleito para o posto de capitão-mor da Real Vila do Crato (CE), em 7 de maio de 1799.
            No dia 3 de maio celebra-se a proclamação da República no Crato. Com duração de apenas oito dias, o levante republicano iniciado nesta referida data de 3 de maio e considerado por muitos historiadores pouco planejado e repentino, tanto no Ceará quanto em Pernambuco, sua capitania de origem, foi abortado pelas tropas legalistas no dia 11 deste mesmo mês, por ordem do governador do Ceará, Manuel Ignacio de Sampaio.
            Presos os cabeças do movimento e seus principais adeptos, iniciou-se a terrível Devassa, com centenas de patriotas processados, alguns executados sumariamente, outros assassinados, sendo que muitos foram exilados ou perderam suas vidas nas prisões.
            Para abrandar os ânimos nas festividades de coroação de D. João VI, em 6 de fevereiro de 1818, foi expedida uma Carta Régia que ordenou o fim da Devassa e suspendeu ordens de prisão após essa data, perdoando os réus, com exceção dos comandantes das rebeliões, que continuaram nas prisões e só foram libertados em 1821.
            Após este pequeno resumo da Revolução Pernambucana no Ceará, mais especificamente, acontecida na Vila do Crato, suponhamos que o capitão-mor José Pereira Filgueiras tivesse apoiado o movimento, mesmo sem entender com maior profundidade o plano dos inconfidentes. Será que as forças realistas das outras vilas sob sua jurisdição também apoiariam o movimento levantado tão repentinamente como o que aconteceu na Vila do Crato? Estariam todas essas vilas e seus povos prontos para suportar suas consequências?
            Provavelmente, sem um planejamento eficiente, todas essas vilas teriam sido subjugadas pelas forças legalistas e, com certeza, o governador Sampaio não teria como perdoar seu comandado, o capitão-mor José Pereira Filgueiras, pelo crime de alta traição à Casa de Bragança; ele também teria sido preso e responsabilizado como um dos cabeças da malfadada revolução eclodida no Crato.
            Consideremos: se o governo cearense tivesse criado uma comissão militar para julgar os patriotas republicanos, certamente, os chefes do movimento teriam sido executados ainda mesmo em Fortaleza.
            Vejamos o que fez D. Marcos de Noronha e Brito, o Conde de Arcos, governador da Bahia, que, por decisão própria e levado por seu cruel autoritarismo, sem nem mesmo participá-la ao Rei, nomeou comissão militar, mandando para o patíbulo, sem prova comprovada e sem julgamento, os chefes patriotas Domingos José Martins, José Luiz de Mendonça e Miguel Joaquim de Almeida e Castro, o intemerato Padre Miguelinho.
            Avançando mais um pouco no tempo, podemos ainda indagar: Caso o capitão-mor José Pereira Filgueiras tivesse sido preso, condenado e provavelmente executado junto aos outros líderes do levante de 1817, quem estaria habilitado, na então província do Ceará, a chefiar a expedição em socorro aos independentistas do Piauí e Maranhão, em 1823? Quem teria oferecido sua vida e coragem para comandar os confederados republicanos cearenses durante os terríveis combates da Confederação do Equador, em 1824? Qual seria a versão da História do Ceará contada até os dias de hoje, motivo de honra para seus cidadãos?
            Não se pode deixar de dar razão ao Dr. Irineu Pinheiro, um dos biógrafos mais legítimos do capitão-mor do Crato, quando em sua tese, Um Baiano a Serviço do Ceará e do Brasil, ¹ questiona: Por que nada se fez (no Ceará), no primeiro quartel do século passado, sem a colaboração de Pereira Filgueiras, ou melhor, sem sua ostensiva chefia?
            Concluindo estas breves considerações, pensemos bem antes de julgar e condenar o capitão-mor José Pereira Filgueiras, que, embora monarquista, levantou exércitos contra a opressão absolutista e ofereceu sua vida visando ao bem da nação brasileira, terra onde nasceu e que tanto amou.


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¹  PINHEIRO, Irineu. Um Baiano a Serviço do Ceará e do Brasil. Revista do Instituto do Ceará  (RIC), Fortaleza (CE), tomo LXV, ano 1951, pp. 5-27.