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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Origens das Famílias Alves Feitosa e Ferreira Ferro: Portugal e Brasil


1. Origens das Famílias Alves Feitosa e Ferreira Ferro: Portugal e Brasil
         
                                                                                Heitor Feitosa Macêdo
         A família Feitosa constitui um núcleo numeroso de pessoas que se identificam, mutuamente, como parentes. Sabe-se que os seus primeiros membros migraram da Europa para o Brasil, estabelecendo-se às margens do Rio de São Francisco e, daí, dispersaram-se por vários lugares do Nordeste brasileiro, sobremodo, para o sertão dos Inhamuns, Ceará. Afirma-se, também, que os primeiros Feitosa vieram de Portugal, todavia, não se sabe ao certo de qual região.

2- A Teoria da Vila da Feitosa e a Tradição da Ilha
No início do século XIX, dois autores ingleses, em obras escritas sobre o Brasil, mencionaram as origens da família Feitosa. O primeiro foi Henry Koster, em 1816, no livro “Travels in Brazil”, dizendo que: “Os Feitozas são descendentes de europeus, mas, muitos dos ramos têm sangue mestiço e possivelmente raro são os que não teriam a coloração dos primitivos habitantes do Brasil”[1]. O segundo foi Robert Southey, autor da obra “História do Brasil”, publicada em três tomos (1810, 1817 e 1822), sendo que, no último volume, apenas repete as palavras de Koster a respeito dos Feitosa [2].  
         Acerca do tema, no Ceará, alguns estudiosos costumam utilizar como fonte de pesquisa o trabalho de Leonardo Feitosa (Seu Nado) intitulado de “Tratado Genealógico da Família Feitosa”, escrito entre os anos de 1915 a 1933 e cuja primeira publicação data de 1952[3]. Neste compêndio genealógico, João Alves Feitosa é apontado como sendo o primeiro patriarca desta família no Brasil e que ele teria origem portuguesa:

Desde criança, ouvi sempre uma tradição vaga e errada, que João Alves Feitosa, que deu origem à família Feitosa no Brasil, era português e que residia numa ilha, talvez colônia do seu país natal, chamada Feitosa, e por este motivo alguns tradicionalistas, mal orientados, chamaram-no João Alves da Feitosa[4].

            Como se percebe, tendo nascido no sertão dos Inhamuns, em 1876[5], Leonardo alcançou essa antiquíssima tradição acerca da origem portuguesa de João Alves Feitosa, o qual, segundo o referido autor, residia em uma ilha lusitana.
         Contudo, Leonardo Feitosa veio a desqualificar a velha tradição oral, corrente no seio da família Feitosa dos Inhamuns, a partir do momento em que obteve a informação de haver, no continente português, uma vila também chamada Feitosa. Isto foi o suficiente para levar o genealogista à suposição de que João Alves Feitosa era natural do dito lugar:

Posteriormente, corria certa versão, afirmando que o português João Alves Feitosa era natural da província do Minho, em Portugal, e, francamente, confirmava essa asserção a notícia que em carta me dava Monsenhor Pedro Leopoldo de Araújo Feitosa, de saudosa memória, antigo Cura da Sé, em Fortaleza, dizendo que encontrava, em um Boletim Salesiano o nome de uma vila denominada ‒ Feitosa em Portugal (...). É, pois, fora de dúvida que o português João Alves Feitosa residia naquela freguezia e devia pertencer àquela familia Feitosa, que ainda existe atualmente lá.[6]   
             
            Acrescente-se que, um pouco antes de Leonardo, já havia sido publicado um folhetim sobre as origens da família Feitosa, cujo autor era Pedro Tenente (Pedro Gonçalves de Moraes), o qual também atribuía, de forma bem sugestiva, a nacionalidade portuguesa a João Alves “da” Feitosa[7].
         Desse momento em diante, a mera suposição de Leonardo, respaldada na homonímia entre o nome de família e o da dita vila, influenciou e ainda influencia uma série de escritores, que costumam aceitar tal hipótese como verdadeira.
         Dessa maneira, arrimado nesta assertiva, um neto de Leonardo, o Padre Neri Feitosa, resolveu viajar para Portugal no ano de 1986, a fim de visitar a vila da Feitosa, que, segundo este:

Quando eu pisei o chão da Feitosa, meu espírito agitou-se. Mais ao lembrar-me qual teria sido a alegria de Leonardo Feitosa, meu avô, se tivesse tido a felicidade de pisar aquele solo de suas pesquisas (...). Minha alegria vinha de dupla fonte: cumprimento de uma missão que eu mesmo me impus e confirmação dos estudos de Leonardo Feitosa, em busca das raízes da família.[8]    
       
            Apesar da emoção descrita, o Padre Neri também exprime certa decepção ao constatar que na vila da Feitosa não existiam pessoas com este sobrenome, mas, apenas em uma freguesia próxima dali, em Santa Marina. Então, dirigindo-se a esta localidade, o Padre Neri entrou em contato com alguns indivíduos que se assinavam por Feitosa.
         Entretanto, para seu grande desapontamento, o padre constatou que, entre os Feitosa de Santa Marina, não havia nenhum culto ao parentesco, mas apenas bastante indiferença, conforme revela o próprio Padre Neri:

Na Feitosa não há Feitosas. Ali mesmo a Rosa informou-nos que na Feitosa não há família com este nome, mas em Santa Marina. Fomos de princípio recebidos com frieza, falta de fé e silêncio. Quando souberam que o português Arlindo era padre, os primos se abriram e Madalena prontificou-se a ser a cabeça de ponte para correspondência. Ofertei a ela o livro de Leonardo Feitosa e ela deu uma de anedota: folheou o livro para lá e para cá, e disse: “Não vejo aqui o nome de nenhum conhecido!” (...). Deu pra ver que ali não existe este gosto em ser Feitosa como aqui, a ponto de fazer-se uma IFFA, nem os parentes se prezam entre si como aqui: afinal, estamos na Europa, onde inexiste o afeto familiar.[9] 

            Ainda, nesta viagem, o padre buscou na Feitosa elementos que se ligassem ao Brasil, como, por exemplo, a Igreja da dita vila, na qual existia um cristo crucificado, semelhante aos que também estavam nas igrejas inhamunsenses de Arneiroz e Cococi. Entretanto, merece ser salientado que, apesar de haver algumas semelhanças destas imagens sacras, o santo padroeiro da Feitosa é São Salvador[10], enquanto que os de Arneiroz e Cococi são Nossa Senhora da Paz e Nossa Senhora da Conceição, respectivamente.

3- João Alves Feitosa ou João Ferreira Ferro
            O fato é que a hipótese defendida por Leonardo Feitosa se tornou bastante robusta, sendo repetida a torto e a direito. Mas será que esta versão não merece ser revista diante de novas fontes de informação?
         Segundo a maioria dos estudiosos, o primeiro Feitosa a chegar ao Brasil foi o português João Alves Feitosa, provavelmente, na primeira metade do século XVII, o qual teria se radicado na vila de Penedo (hoje, no Estado de Alagoas), às margens do Rio de São Francisco.
         Apesar da mera especulação sobre a data da chagada de João Alves Feitosa ao Brasil, até hoje, o documento mais antigo citado pelos especialistas acerca do assunto é datado de 18 de maio de 1680, dia em que tal indivíduo obteve uma data de sesmaria, no Rio de São Francisco, 40 léguas de terra, para serem repartidas com seus companheiros:

Sesmaria de 40 léguas em quadra no Rio de São Francisco, donde se acha um riacho chamado Rio do Araripecico, correndo do dito rio para a parte do poente em continuação, fazendo pião no Cororopénico, e do mesmo rio abaixo até intestar com terras povoadas, concedida em 18 de maio de 1680 ao Capitão Antonio Velho Tinoco, Lourenço Álvares, Capitão João Álvares Feitosa, Agostinho Álvares, Duarte Lopes, Lourenço Cordeiro, Antonio Barbosa Pascoal Dias, Antonio da Caldeira, e João de Souza, e seus herdeiros, pelo Governador Ayres de Souza de Castro, sem foro ou pensão alguma, salvo o dízimo a Deus. [11]  

         Assim, até agora, essa era a informação mais remota já publicada sobre o capitão João Alves Feitosa!
         Antes de iniciarmos a análise das novas fontes de informação, merece ser dito que João era pai do comissário-geral Lourenço Alves Feitosa e do coronel Francisco Alves Feitosa. Estes dois irmãos migraram do Rio de São Francisco para a Capitania do Ceará, por volta do ano de 1707, onde travaram lutas sangrentas pela posse de terras, sobremodo no ano de 1724, na chamada “Guerra entre Montes e Feitosas”.
         Indo mais a fundo na investigação sobre João Alves Feitosa, encontramos uma carta endereçada aos oficiais da Câmara da vila de Penedo/AL, escrita pelo governador-geral do Brasil (Alexandre de Sousa Freyre), nos seguintes termos:

Carta que se escreveu aos officiaes da Villa de Penedo
O Capitão João Alves Feitosa me entregou a carta, e capítulos com que Vosssa Mercês acompanharam o Capitão-mor João Vieira de Moraes; e estando eu tratando do remedio, que podia dar conforme o regimento, á queixa que me faziam delle o remettem agora preso; esquecendo-se de sua obrigação, sendo a quem mais tocava, não consentir ao Povo, um excesso tão grande, que forçosamente há de ser castigado e o Capitão-mor restituido ao seu posto, que brevemente mandarei daqui ao Sr. Fernão de Sousa Coutinho para que o faça continuar no seu cargo, enquanto lhe não chega o sucessor na frota. Deus guarde a Vossa Mercês. Morro de São Paulo e Dezembro 3 de 1670.
Alexandre de Sousa Freyre.[12]      

            Como se depreende do texto, o capitão João Alves Feitosa foi o responsável por informar ao governador-geral do Brasil, antes do dia 3 de dezembro de 1670, sobre a prisão feita ao capitão-mor do Rio São Francisco (da Vila de Penedo)[13], João Vieira de Moraes.
         Este documento também revela o posto militar ocupado por João, em Penedo, qual seja, o de capitão, um posto elevado na organização militar da época. Aparentemente, em cada Companhia de Ordenança, só poderia haver um capitão:

Após o levantamento de moradores e respectivos armamentos, seriam formadas as Companhias de Ordenanças, com os seguintes oficiais: um capitão, um alferes e um sargento, e seus respectivos subalternos: um meirinho, um escrivão e 10 cabos de esquadra. O capitão-mor seria assistido pelo sargento-mor, encarregado de auxiliá-lo e de verificar o cumprimento de suas ordens.[14]  

            Menos de seis anos depois, no que tange aos postos militares da Companhia de Ordenança da vila de Penedo, apresenta-se outro documento, datado do dia 2 de abril de 1664, o qual faz menção à nomeação ao posto de capitão da infantaria da referida vila. Porém, o nome do militar agraciado é João Ferreira Ferro e não João Alves Feitosa:

Patente de Capitão da Ordenança da Villa de Penedo, e districtos do Rio de São Francisco, provida na pessoa de João Ferreira Ferro.
Dom Vasco Mascarenhas, Conde de Obidos etc. Porquanto com a minha successão no governo deste Estado, ficaram vagas as companhias de Infantaria da Ordenança da Villa do Penedo, e mais districtos do Rio de São Francisco: e convem provel-as em pessoas que tenham a experiencia, valor, e mais qualidades requisitas para o seu exercício: tendo eu consideração ao bem que todas concorrem na pessoa de João Ferreira Ferro Capitão actual de uma das ditas companhias, e esperando delle que continuará nas obrigações do mesmo posto muito conforme a informação que tive dos (texto incompleto) nelle a El-Rei meu Senhor e a confiança que faço de seu procedimento. Hei por bem de o eleger, e nomear (como em virtude da presente elejo, e nomeio) Capitão da mesma companhia de Infantaria da mesma Ordenança, que está servindo, para que como tal o seja, use, e exerça com todas as honras, graças, franquezas, privilegios, preeminencias, isenções, e liberdades, que lhe tocam, podem, e devem tocar a todos os mais Capitães de Infantaria da Ordenança deste Estado. Pelo que ordeno ao Governador da Capitania de Pernambuco o tenha assim entendido; e ao Capitão-mor da dita Villa do Penedo, e districtos daquelle Rio lhe dê o juramento debaixo da mesma posse em que está, e o conserve nella para continuar o mesmo posto como té o presente fez. E aos offciaes maiores, e menores deste Exercito, e Estado do Brasil, o honrem, estimem, e reputem por tal Capitão da dita companhia. E aos officiaes e soldados della mando façam o mesmo, cumpram, e guardem todas suas ordens de palavra, ou por escrito, tão pontual, e inteiramente como devem, e são obrigados. Para firmeza do que lhe mandei passar a presente sob meu signal e sello de minhas armas: a qual se registrará nos livros a que tocar. Bento Pereira de Andrada a fez nesta cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos em os 2 dias do mez de Abril de anno de 1664. Bernardo Vieira Ravasco a fiz escrever. O Conde de Obidos. Carta Patente do posto de Capitão de Infantaria da Ordenança da Villa do Penedo, e districtos do Rio de São Francisco, que vagou pela sucessão de V.Exca. no governo deste Estado, e V.Exca. foi servido prover na pessoa de [José?] Grifo Nosso Ferreira Ferro, que actualmente o servia, pelos respeitos acima declarados. Para V.Exca.[15]     
       
            Logo, partindo do princípio que somente poderia haver um capitão na vila de Penedo, surgem duas possibilidades, quais sejam, de João Alves Feitosa ter sucedido João Ferreira Ferro no dito posto ou de estes dois indivíduos serem a mesma pessoa.
         O parentesco entre os Alves Feitosa e os Ferreira Ferro de Penedo/AL parece ser bem antigo, pois Pedro Théberge, em escritos anteriores a 1862, ao falar do comissário Lourenço Alves Feitosa, cita que:

Lourenço Aves Feitosa, o seu chefe, tomava o título de Alferes Comissário; era casado na família dos Gondins de Goiana com uma irmã do Vigário dessa Vila e de outro provigário do Recife, entrelaçado com os desecndentes de André Vidal de Negreiros, e com uns Ferreira Ferros, moradores em Penedo, e por parentesco tão íntimo que um membro da família Feitosa sempre tomou até hoje este nome de Ferreira Ferro.[16]     
          
            Pedro Théberge obteve essa informação ao examinar uma escritura particular de compra e venda, datada de 1717, pela qual Lourenço Alves Feitosa (filho do capitão João Alves Feitosa) realizou a venda de sua fazenda Cachoeirinha, em razão do que sua esposa (Antônia de Oliveira Leite), estando em Serinhaem/PE, passou procuração a várias pessoas, dentre elas os capitães Manuel Ferreira Ferro e João Ferreira Ferro, moradores na vila de Penedo do Rio de São Francisco:

Em 1717 Lourenço Alves, tendo vendido a sua fazenda da Cachoeirinha por escritura particular, à falta de tabelião no lugar, comprometeu-se a mandar de Pernambuco a procuração de sua mulher, necessária para legalizar a venda. Esta procuração foi passada a 26 de março de março de 1719 no sítio Currais de Serinhaem pela mulher de Lourenço Alves, que se achava presente, para o fim de conceder poderes ao capitão Pedro Alves Feitosa de passar o papel público de venda do dito sítio Cachoeira do Cariuzinho ao Capitão Antônio Garras da Câmara. A constituinte estabelece por seus procuradores no Recife seu marido o comissário Lourenço Alves Feitosa, e seu irmão o pró-pároco do Recife José Ferreira Gondim, e a seu pai o sargento-mor Domingos Vaz Gondim; em Goiana ao sargento-mor Matias Vidal de Negreiros, ao Cap. Antonio Velho Gondim e ao pe. Domingos Velho Gondim; no Ceará ao reverendo vigário Dr. João da Mata Serra; no Icó ao reverendo vigário cura da Matriz de N. Senhora da Expectação da dita freguezia do Icó o padre Domingos Dias da Silveira, ao Capitão José de Araújo Chaves, ao Alferes Francisco Alves Feitosa e a Pedro Alves Feitosa; na vila de Penedo do Rio de S. Francisco aos Capitães Manuel Ferreira Ferro e João Ferreira Ferro; sendo todas pessoas ligadas por laços de consanguinidade ou afinidade com os Feitosas ainda hoje.[17]                  
   
            Essa proximidade entre os Alves Feitosa e os Ferreira Ferro também pode ser comprovada pelo fato de o coronel Francisco Alves Feitosa (filho do capitão João) ter batizado um de seus filhos como nome de Manuel Ferreira Ferro (o coronel).
         Nos assentamentos paroquiais da Capela de São Mateus (hoje, município de Jucás), sul do Estado do Ceará, também é encontrado o nome André Ferreira Ferro, em data de 8 de agosto de 1734[18]. Já na Capela de Nossa Senhora da Conceição do Cococi (hoje, município de Parambú/CE, sertão dos Inhamuns), no dia 23 de maio de 1767, um indivíduo chamado Francisco Ferreira Ferro serviu de testemunha em um casamento[19].
         Cococi era a fazenda na qual residia o coronel Francisco Alves Feitosa (filho do capitão da vila de Penedo, João), onde, em 1748, fundou uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. O nome do coronel Francisco é recorrente nos assentamentos paroquiais lavrados na dita capela, na qualidade de testemunha. Assim, é possível que o referido Francisco Ferreira Ferro seja o mesmo Francisco Alves Feitosa, posto que, no ano de 1767, ainda era vivo[20].
         A ligação com os Ferreira também era bastante estreita. Para ilustrar, cite-se que o capitão João Alves Feitosa fora casado com Ana Gomes Vieira, filha do capitão Manoel Martins Chaves e Maria da Cruz Portocarreiro, ocorre que a mãe desta chamava-se Domingas Ferreira e o seu avô materno Pedro Gomes Ferreira[21]. Mas não para por aí, pois a irmã da dita Ana Gomes Vieira tinha o nome de Nazária Ferreira Chaves.
         Uma das filhas do coronel Francisco Alves Feitosa (Josefa) casou-se com o sargento-mor Francisco Ferreira Pedrosa, os quais, durante a “Guerra entre Montes e Feitosas”, em 1724, uniram-se ao capitão João da Fonseca Ferreira, fundador do Icó Velho/CE. Ao lado disso, sabe-se que o coronel Francisco Alves Feitosa foi casado, sucessivamente, com três viúvas, sendo a última delas Isabel Maria de Melo, a qual já havia sido casada com Cosme Ferreira da Silva[22], que, por sua vez, era irmão do referido sargento-mor Francisco Ferreira Pedrosa[23]. 
         De tudo isso depreende-se que os Alves Feitosa mantiveram laços sanguíneos e de amizade com os Ferreira Gondim, os Ferreira da Fonseca, os Ferreira Pedrosa, os Ferreira da Silva, e, principalmente, com os Ferreira Ferro, sendo, ainda hoje, comum encontrar indivíduos da família Feitosa se assinando com este derradeiro sobrenome.

4- Os Feitosa e os Ferreira Ferro da Ilha da Madeira
            Tentando descobrir as origens lusitanas dos Alves Feitosa do Brasil, várias buscas foram empreendidas em arquivos virtuais de Portugal, contudo, até agora, nenhum documento, anterior ao século XIX, foi encontrado, isto é, não se conhecem fontes que sirvam de embasamento para afirmar que na vila da Feitosa existiu uma família com este mesmo sobrenome.
         No entanto, nós encontramos antigos registros escritos que citam os sobrenomes Feitosa e Ferreira Ferro em territórios pertencentes a Portugal, em áreas fora do continente português, mais especificamente, na Ilha da Madeira.
         Um desses registros do Arquivo da Ilha da Madeira, datado do dia 8 de junho de 1616, trata do casamento do soldado Baltazar de Andrade com a viúva Margarida Gonçalves Feitosa, sendo ela natural da vila da Ponta do Sol e ele da Ilha da Palma:

Em os 18 dias do Mes de Junho de 1616@ Recebi eu Anrrique/ Nunes Cura aporta da See desta cidade a Baltezar de Andra/ de Soldado f.o de Joao̓ Alves e de Catherina de And.ra sua mo-/ lher naturais da Ilha da Palma freguezia de Sam Salvador/ com Margaida gonsalves feitoza veuva na turais da villa/ da Ponta do Sol freguezia de N.S.ra dalus os quais Recebi Sem/ embargo de Ser elle fora do Bispado por Licença que para/ isso teve do Ill.mo S.r Bispo D: Frey Lourenco de Tavora Sendo lhes/ primeiro corridos os banhos e feitas as mais deLigencias neceSsa-/ rias com forme osagrado ConciLio Testemunhas que prezen-/ tes estavam Joam Roiz de Nebla Soldado e Francsco aLar-/ com outro sym Soldado e eu Anrrique Nunes Cura que o esCre/ vi Anrrique Nunes// Joam Roiz de Nebla// Francisco aLarcon.[24]
Assentamento de Casamento de Margarida Gonçalves Feitosa, 1616. Arquivo da Madeira/PT.

            Pela leitura deste assentamento de casamento, percebe-se que os nomes dos pais dos noivos são Catarina de Andrade e João Alves. Todavia, pela falta de mais subsídios, não se pode afirmar que estas pessoas sejam parentes dos Alves Feitosa que migraram para o Brasil. 
         Por enquanto, este é o mais antigo documento que registra o uso da palavra Feitosa enquanto sobrenome de família!
         Outros documentos da Ilha da Madeira evidenciam datas anteriores de ocupação daquele espaço por membros da família Ferreira Ferro, pelo menos, a partir do ano de 1568, quando, no dia 31 de agosto, ocorreu o casamento de Francisco Ferro com Catarina Ferreira.
         Os noivos não haviam nascido na Ilha da Madeira, mas na porção continental do território português. Francisco Ferro nascera no termo de Barcelos, na freguesia de São Saturnino; e Catarina Ferreira, criada de Branca Loba, era natural do Mosteiro de Refoios (Refoios do Lima, em Ponte de Lima, Viana do Castelo)[25].
         Ao que parece, este casal é ancestral dos Ferreira Ferro da Ilha da Madeira, pois, segundo o especialista Peter Clode:

João Rodrigues Panasco folho de Gonçalo Afonso e de Maria Gonçalves, casou, por 1600, com Briolangia Ferro, filha de Francisco Ferro, hortelão, de Barcelos, e de Catarina Ferreira, criada duma D. Branca. Teve: Agostinho Ferreira que casou, na Ponta do Pargo, por 1635, com Maria Rodrigues de Almeida e tiveram pelo menos 7 filhos. Foi neto deste o Capitão Cabo e Sargento-mor Francisco Ferreira Ferro que herdou o morgado de seu tio Manuel Rodrigues Ferreira, fundador da capela do Santíssimo, no Porto Moniz, e instituidor do vinculo. Este Capitão Cabo foi avô do morgado Henrique José Ferro que casou com D. Ana Garcês de quem houve nm sic filho Domingos Ferro Garcês o qual casou com D. Ana Carolina de La Tuelliere, filha de Nicolau José Sabois de La Tuelliere e de D. Joaquina Monteiro Gusmão, em t.o de Monteiro, de quem houve geração.[26]   
  
            Desta data em diante, é frequente encontrar nos registros paroquiais da Ilha da Madeira pessoas com o sobrenome Ferreira Ferro. Aliás, até hoje, o dito patronímico é bastante utilizado pelos habitantes da Madeira, fato também recorrente no sertão dos Inhamuns/CE, pois ainda existem pessoas que possuem os sobrenomes Ferreira Ferro (ou Feitosa Ferro), qual ocorre nos estados de Alagoas (Penedo) e Sergipe (Porto da Folha), onde há grupos numerosos com esses sobrenomes.
Assentamento de casamento de Francisco Ferro e Catarina Ferreira. Arquivo da Madeira/PT.

Conclusão
            A antiga tradição contada entre a família Feitosa do sertão dos Inhamuns (no Estado do Ceará), sobre seus ancestrais serem oriundos de uma ilha em Portugal, foi desacreditada pelo pesquisador Leonardo Feitosa (Seu Nado), no início do século XX, quando ele obteve a informação de existir no continente lusitano uma vila conhecida por Feitosa, freguesia do conselho e comarca de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo, diocese de Braga, na região do Minho. Portanto, foi este autor influenciado pela mera homonímia da palavra que batizava a família e a referida vila em Portugal.
         Entretanto, não há comprovação que esta vila tenha sido habitada por pessoas com o sobrenome Feitosa, configurando esta hipótese, criada por Leonardo, uma mera especulação, que, atualmente, é repetida com aparência de verdade.
         O mais antigo registro do sobrenome Feitosa, até agora encontrado, está em um documento lavrado na Ilha da Madeira, território português, que trata do casamento de Margarida Gonçalves Feitosa, ocorrido no dia 8 de junho de 1616. Na mesma ilha, a partir do ano de 1568, também são encontrados registros de pessoas que para ali migraram e formaram a família Ferreira Ferro.
         No Brasil, o entrelaçamento dos Alves Feitosa com os Ferreira Ferro é bastante estreito, havendo evidências disto já à época em que estas famílias habitavam as margens do Rio de São Francisco, nas imediações de Penedo/AL e Porto da Folha/SE. Ademais, com base na documentação aqui apresentada, suspeita-se que o capitão da vila de Penedo João Alves Feitosa seja o mesmo João Ferreira Ferro, indivíduo a quem os estudiosos atribuem a ancestralidade de todos os Feitosa do Nordeste do Brasil.
         Portanto, acreditamos que, no Brasil, os Alves Feitosa e Ferreira Ferro formam, desde o século XVII, uma só família, sendo oriunda da Ilha da Madeira, o que reafirma a antiquíssima tradição oral corrente no sertão dos Inhamuns, qual seja, de o capitão João Alves Feitosa (o primeiro) ser natural de uma ilha, no caso, da Ilha da Madeira.  
                         
           


Referência Bibliográfica:
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[1] KOSTER, Henry. Viagens ao Interior do Brasil, Volume 1. 12ª Ed. Rio – São Paulo – Fortaleza: ABC Editora, 2003, p. 184.
[2] SOUTHEY, Robert. História do Brasil, Volume III. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 1785.
[3] FEITOSA, Aécio. Arneiroz: Passado e Presente. Fortaleza: Gráfica Canindé, 2000, p. 39.
[4] FEITOSA, Leonardo. Tratado Genealógico da Família Feitosa. Fortaleza/CE: Imprensa Oficial, 1985, p. 09.
[5] FEITOSA, Aécio. Arneiroz: Passado e Presente. Op. cit., p. 37.
[6] FEITOSA, Leonardo. Op. cit., p. 10.
[7] TENENTE, Pedro. O Passado no Presente, In Palavras, Palavras... (Disponível em: http://artemisia-palavraspalavras.blogspot.com.br/p/o-passado-no-presente-pedro-tenente_05.html. Acesso em: 04 de julh. de 2018, às 12h11min).
[8] FEITOSA, Padre Neri. Crato-Arneiroz-Feitosa: Documento e Guia. Fortaleza/CE: Imprensa Universitária, 1987, p. 68 e 69.
[9] Idem.
[10] COSTA, P. Antonio Carvalho da. Corografia Portugueza. Tomo Primeiro. Lisboa: Oficina de Valentim da Costa Deslandes, Ano MDCCVI, p. 189. Disponível em:< https://books.google.com.br/books?id=XqcjzPjwaF0C&pg=PA527&lpg=PA527&dq=Couto%20de%20Feitosa%2FPortugal&source=bl&ots=OJm3Kda_7r&sig=f5Jz6LThwhbONcOWfIpQizWpe_s&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiln-Cpo4bcAhXLEZAKHVpDCPMQ6AEINzAD#v=snippet&q=Couto%20de%20Feitosa&f=false>. Acesso em 04 de julh. de 2018, às 20h21min.
[11] A transcrição original do documento apresenta algumas abreviaturas, que dificultam a leitura do texto, por isso, procedeu-se, no presente trabalho, a um melhoramento do texto, para facilitar a sua compreensão (Ver: Documentação Histórica Pernambucana, Sesmarias, Volume IV, Recife/PE, Secretaria de Educação e Cultura: Biblioteca Pública, 1959, p. 96).
[12] Documentos Históricos (1663 - 1685), Volume IX da Série e VII dos Documentos da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1929, p. 390.
[13] João Vieira de Moraes era Capitão-mor do Rio de São Francisco (Ibidem, op cit., p. 309), que também equivalia a dizer Capitão-mor da Vila de Penedo (Ibidem, op. cit., p. 392).
[14] MELO, Christiane Figueiredo Pagano de. Forças Militares no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Ed. E-papers, 2009, p. 35.
[15] Documentos Históricos (1650 - 1693): Provisões, Patentes e Alvarás, Volume XXXI, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1936, p. 338 e 339.
[16] THÉBERGE, Pedro Dr. Esboço Histórico sobre a Província do Ceará. 2ª Ed. Fortaleza/CE: Editora Henriqueta Galeno, 1973, p. 140.
[17] Ibidem, p. 153 e 154.
[18] FEITOSA, Aécio. Casamentos Celebrados nas Capelas, Igrejas e Fazendas dos Inhamuns (1756 – 1801): História da Família Feitosa. Fortaleza: [s.n.], 2009, p. 45.
[19] Ibidem, p. 130.
[20] O coronel de infantaria de Ordenança da Ribeira dos Inhamuns, Francisco Alves Feitosa, faleceu, provavelmente, no ano de 1770, pois seu inventário possui esta data (FEITOSA, Leonardo. Op. cit., p. 18.
[21] VIANA, Angela, e BOTELHO, Clara Anastasia. D. Maria da Cruz e a Sedição de 1736. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012, p. 10 e 11. Ver também: CALMON, Pedro. Introdução e Notas ao Catálogo Genealógico das Principais Famílias, de Frei de Jaboatão, Volume II. Salvador/BA: Empresa Gráfica da Bahia, 1985, p. 572.
[22] FREITAS, Antônio Gomes de. Notas e Transcrições: Vários Artigos. Revista do Instituto do Ceará: Fortaleza: 1966, p. 279.
[23] FREITAS, Antônio Gomes de. Inhamuns: Terra e Homens. Fortaleza/CE: Editora Henriqueta Galeno, 1972, p. 91 e 162.
[24] Arquivo da Madeira/Portugal. Disponível em:<http://arquivo.abm.madeira.gov.pt/viewer?id=491387&FileID=657220>. Acesso em: 02 de julh. de 2018, às 09h51min.
[25] Arquivo da Madeira/ Portugal. Disponível em:<http://arquivo.abm.madeira.gov.pt/viewer?id=559685&FileID=653236>. Acesso em: 05 de julh. de 2018, às 11h15min.
[26] CLODE, Eng.o Luiz Peter. Registo Genealógico de Famílias que Passaram à Madeira. Funchal: Tipografia Comercial, 1952, p. 129.