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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ARAÚJOS CHAVES & FEITOSAS COLONIZADORES DO CENTRO-OESTE DO CEARÁ HISTÓRIA E GENEALOGIA, DE F. ARAÚJO FARIAS

ARAÚJOS CHAVES & FEITOSAS COLONIZADORES DO CENTRO-OESTE DO CEARÁ HISTÓRIA E GENEALOGIA, DE F. ARAÚJO FARIAS

           
                                                                                      Heitor Feitosa Macêdo

         Fernando, é com muito prazer que traço alguns pontos acerca desta sua obra. E a sensação que tenho, ao fazer isso, seria mais ou menos a mesma que você teria se pudesse tratar desses assuntos com Seu Nado (Leonardo Feitosa) ou com Raimundo Girão, por exemplo.

         Portanto, encaro a referida tarefa com muita responsabilidade, respeito e admiração.
         Como diz o padre Neri, “historiador é como pedreiro: não pode olhar o trabalho de outro sem apontar erros”.[1] Ao lado disso, é certo que a verdade histórica nunca é absoluta, muito menos será homogênea, pois, por mais que nasça da análise de um fato externo, será sempre o produto do pensamento individual, fruto da idiossincrasia, e, portanto, relativa.
         A nós pesquisadores (já que historiador, oficialmente, passou a ser um título outorgado por universidades) consola poder escarafunchar fatos e tentar amoldá-los a uma suposta realidade de uma época pretérita, o que, dificilmente, conseguiremos fazer com exatidão.
         E o que nos move para esse deserto sem rosto é o simples desejo de saciar a universal curiosidade humana, em saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
         Portanto, ao aceitar realizar tais considerações sobre o presente trabalho, não posso afastar-me da responsabilidade de tentar alcançar a verdade, repita-se, que sempre será subjetiva.
 
RESENHA

         A proposta apresentada pela dita obra alcança, perfeitamente, seu objetivo, pois o autor consegue provar que a ocupação (colonização/povoamento/fundação) do centro-oeste cearense deu-se por gente oriunda desses dois clãs originários do Rio de São Francisco, Araújo Chaves e Feitosa. Acrescente-se que estes dois grupos eram aparentados entre si, o que é demonstrado repetitiva e didaticamente no decorrer da obra.
         Talvez, para a maioria da geração moderna, o gênero destes estudos possa conotar algo supérfluo, levando os mais apressados ao erro de julgar que o estudo desses laços de parentesco seja algo dispensável, ou mero resquício do período colonial, sendo, por isso, demodé e incompatível com a atual forma de governo que vigora no Brasil, a democracia.
Data venia, esse julgamento é um erro crasso, pois o autor, ao destrinçar os nós sócio-genealógicos, não o faz com a finalidade de mero enaltecimento ou frívolo deleite, mas com a intenção de poder entender a psicologia e o arranjo social das eras passadas, tentando, honestamente, reconstituir o antigo cenário que frutificou no que somos hoje.
A importância desse estudo pode ser encontrada na proposta de um dos maiores best sellers da sociologia brasileira, Casa-Grande & Senzala, no qual Gilberto Freyre, ao analisar a formação do povo brasileiro, o faz a partir da família patriarcal, como sendo esta a célula mater dessa sociedade desde os primeiros tempos do desbravamento. Pena que a visão freiriana tenha esbarrado na zona da mata nordestina, legando aos pesquisadores do presente a difícil tarefa de investigar a atuação desse núcleo familiar no seio do sertão.
É sob essa mesma vertente que Fernando Araújo Farias lança seu olhar microscópico sobre as antigalhas dos séculos passados, estando despido da vaidade heráldica e de qualquer eugenia sertaneja. O compromisso do autor é tentar esclarecer como ocorreu a ocupação do solo no centro-oeste cearense, e qual a importância das relações familiares neste empreendimento.
         Como sempre costuma fazer em seus estudos, o autor vai além da aparente superfície imposta pela história oficial, revolvendo o passado em busca de documentos capazes de (re)contar os antigos fatos, apresentando, sempre que possível, novas versões.
É com esse mote que atesta o pioneirismo das famílias citadas nas imediações da Serra da Ibiapaba, quase que de Norte a Sul, delineando minuciosamente a ocupação luso-brasileira de parte das fronteiras do Ceará com o Piauí, na área açambarcada pelo antigo Sertão do Acaracú (hoje, modificado para Acaraú, evitando o cacófato).
Constitui um trabalho de grande fôlego, reunindo vasto conhecimento em vários campos do saber, como história, genealogia, geografia, sociologia, etc., sob uma perspectiva regional/local, onde a visão alcança aspectos microscópicos, indispensável para compreender a antiga sociedade que se alocou nessas serras e sertões.
Como afirmou o eminente padre Sadoc de Araújo: “a história do Ceará não estará escrita, enquanto escrita não estiver a história particular de cada um dos seus municípios”. Porém, essa ideia merece ser estendida, pois, na verdade, a história do sertão nordestino não estará escrita, enquanto escrita não estiver a história particular de cada um dos seus sertões.
Pensando a história desse espaço como um mosaico, pode-se dizer que a presente obra de Fernando Araújo Farias constitui mais uma das peças essenciais para a constituição desse enorme e pouco conhecido quebra-cabeça.   





[1] Feitosa, Padre Neri, Feitosas e Montes, Canindé – Ceará, p. 51.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Memória da Rua da Gente

MEMÓRIA DA RUA DA GENTE
                                                                         
                                                                     Heitor Feitosa Macêdo

         Falar na malha urbana de uma cidade é inevitavelmente fazer menção as suas ruas, e, por conseguinte, aos seus nomes, tomados de coisas ou pessoas. No município do Crato/CE isto não é diferente, exceto pelo critério adotado por alguns homens públicos.
Antigo mapa da Vila do Crato, entre 1815 e 1824.
         Há alguns anos, uma pequenina rua, supedânea à chapada do Araripe, que vai esbarrar no Centro de Expansão, ao lado do Clube Recreativo Granjeiro, existe de fato, mas não de direito, por causa de não possuir um nome, o que tem causado prejuízo aos seus moradores, pois suas correspondências restam prejudicadas.
         Tentando sanar tal situação, pediu-se auxílio a um dos ilustres vereadores da referida urbe, no entanto, a resposta dada foi a de que a Câmara municipal andava bastante ocupada com a apuração de denúncias indigitadas aos membros deste cândido sodalício. Assim, como demanda o bom senso, parecia razoável esperar a poeira baixar, mas, infelizmente, estas questões não possuem prazo certo para acabar.
         Não mais podendo aguardar o fim do atual impasse que envolve a administração cratense, mais uma vez outro vereador foi procurado para por fim ao anonimato da dita rua, sendo a ele remetida a biografia de um português chamado José Pereira Aço, trisavô do padre Cícero Romão Batista e um dos primeiros colonizadores do Cariri, ancestral de várias famílias da região, como os Lima Verde, os Ferreira Lima, os Alencar Araripe, os Maia, os Norões, etc. Este material compunha-se de documentos inéditos e relatava a importância da forma como o território cratense havia sido ocupado, sob o pano de fundo dos primeiros conflitos agrários.
         Contrariando as expectativas, o referido edil refutou o nome do patrício citado, não por motivo ligado ao estranho sobrenome, Aço, ou por qualquer aspecto que desabonasse aquele filho de Barcelos, mas sim por calcar-se no fato de tal indivíduo ser muito antigo, por não ter nascido no Crato/CE bem como por não haver memória recente sobre ele entre os atuais moradores. Ora, de fato, o José Pereira Aço, por ser um dos primeiros habitantes do antigo território cratense, imigrado no início do século XVIII, realmente não poderia aí ter vagido em uma época tão remota, a não ser que, em vez de europeu, fosse ele um índio Cariri.
         Quanto à memória, este é o propósito a que se destinam os trabalhos escritos como as biografias, não podendo esquecer a relação que isto guarda com o batismo das ruas, afinal, as coisas e pessoas são relembradas sempre que um endereço é mencionado.
         Percebe-se que, inicialmente, até o século XIX, as ruas do Crato não eram batizadas com nomes de pessoas, a exemplo da Rua das Nove Laranjeiras (R. José Carvalho), Rua do Pisa (ou R. das Flores, e, hoje, R. D. Quintino), Rua Grande (trecho da Miguel Lima Verde), Rua do Fogo (R. Senador Pompeu), Rua da Missão Velha (R. Tristão Gonçalves ou R. da Vala), Rua da Pedra Lavrada (R. D. Pedro II), e outras. Porém, diferentemente dos tempos passados, segue a tendência de (re)nomear tais vias com alcunhas de pessoas, elegendo-se, teoricamente, os nomes dos indivíduos mais destacados, que contribuíram de alguma maneira para a coletividade, critério este que vem sendo impiedosamente vitimado pela amnésia pública.
         Esse esquecimento parece ser algo crônico, pelo menos por parte dos gestores, pois, no que tange aos primeiros povoadores, nenhum deles figura em nome de rua, quais sejam: Manoel Rodrigues Ariosa (oficialmente, o primeiro proprietário), Antonio Mendes Lobato (o segundo proprietário), Domingos Alves de Matos e sua esposa Maria Ferreira da Silva (doadores do atual território cratense). Nem mesmo o célebre fundador do primitivo núcleo da cidade do Crato, Frei Carlos Maria de Ferrara, italiano natural de Palermo, nomeia rua na cidade que ajudou a erguer.
         Entre os índios, tanto os tapuias com seus nomes originários (aborígenes) quanto os que foram batizados com alcunhas cristãs, não consta um sequer que tenha sido homenageado com o batismo das artérias urbanas cratenses, salvo a generalidade da Rua dos Cariris.
         A velha gente supracitada, na sua maioria, a exemplo do José Pereira Aço, não é mais estranha ao Crato, em termos de nascimento, do que outros que servem como denominação de suas ruas, pois dos noventa nomes arrolados por J. Lindenbergue de Aquino (em Roteiro Biográfico das Ruas do Crato, 1969), dezenas deles nasceram em longínquas paragens, como Duque de Caxias, Getúlio Vargas, Rui Barbosa, Santos Dumont e o Presidente Kennedy, que nem brasileiro era.
         Esta omissão do poder legislativo municipal não merece prevalecer, pois, não fossem os primeiros colonizadores, palmilhando sendas indígenas (abertas a golpe de facão e alargadas pelas patas bovinas), assentando fazendas e aldeias artificiais, nada da atual cidade existiria. Isto porque foi o heroísmo dessa gente, singrando mares, atravessando florestas, sobrevivendo às adustas caatingas e varando rios a nado, o que garantiu a conquista do nosso território.   
         Por ignorância ou por falta de compromisso de alguns homens públicos para com a memória da cidade do Crato, os heróis do povoamento sertanejo caem no esquecimento de sua própria gente, relegados à penumbra das passagens por eles criadas, sepultados aos pés das vias que outrora transitaram efêmeros e que agora, inertes, aguardam pacientemente os atuais edis, não só em termos materiais, mas também em ações que reconheçam publicamente o que hoje lhes têm sido negado, o direito de permanecer na memória dos cratenses.
         Finalmente, o critério utilizado por alguns administradores públicos para nomear ruas e homenagear seus moradores, segue, além da conveniência e oportunidade (conferidas pela lei), um subjetivismo incapaz de entender a origem e os verdadeiros valores de sua gente, sintoma de uma cegueira política, que faz dessa prática mero deleite pessoal, ou, quando muito, reles aprazimento para os seus eleitores.
         E ainda dizem que o povo brasileiro tem memória curta! 
      
(In Jornal Acontece, 2015)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

APROVEITE A LIQUIDAÇÃO! É DE DAR ÁGUA NA BOCA!

APROVEITE A LIQUIDAÇÃO! É DE DAR ÁGUA NA BOCA!
                                                                         
                                                                         Heitor Feitosa Macêdo
Foto da Chapada do Araripe (Autor: Roberto de Matos Amorim)

          Preço imperdível! Corra agora e aproveite, pois essa oferta é por tempo limitado! São os últimos números do estoque. Garanta já o seu!
         São milhões de metros quadrados com vista para a Chapada do Araripe, ou, se preferir, do alto, também poderá ter uma visão panorâmica das principais cidades do Cariri. Comprando um terreno, você leva de graça um jardim natural, com Mata Atlântica e tudo mais, cheia de palmeiras, pássaros exóticos e, o mais importante, também terá, sem nenhum custo, água limpa e cristalina, brotando direto da terra. E tudo isso com um super desconto e preços baratinhos, em suaves parcelas. Mas corra agora, porque já está acabando!
         E está acabando mesmo, porque essa é a atual demanda da região do Cariri: a especulação imobiliária e o avanço das casas sobre as matas. É algo impressionante, pois pouca gente se preocupa com as consequências que isso já está trazendo, e não precisa ser um biólogo para perceber.
         Quem não quer ter uma casa? Esse é o sonho de qualquer um, principalmente se for uma duplex que tenha visão privilegiada, de preferência, para alguma área verde, pois, aparentemente, é saudável e, além de tudo, chique.
         Na cidade do Crato, os efeitos desastrosos dessa prática saltam aos olhos. A torto e a direito veem-se ofertas de terrenos e casas encravadas no seio da área de proteção ambiental, algumas são de muito bom gosto, exceto pela pouca consciência dos donos e pela omissão das autoridades públicas. Cadê o Ministério Público? E o plano Diretor?
         Nascentes estão perdendo sua vazão, enquanto que outras já secaram, como, por exemplo, algumas no Sítio Coqueiro e nas proximidades do distrito de Santa Fé. Aproveitando o ensejo, não bastasse alguém ter desmatado parte da densa floresta que cobria as imediações daquele pé de serra, alguns proprietários estão vendendo o que restou, bem na encosta, onde as fontes brotam. Parece piada, mas, no lugar onde houve esse desmate, foi feito um condomínio com o nome Bosque dos Babaçus. Talvez seja alguma homenagem póstuma.
         Primeiro foram os clubes recreativos, hoje são os particulares que querem a todo custo usar, gozar e dispor do seu direito de propriedade, em contato direto com a natureza, claro, sem respeitá-la.
         Os números indicam a velocidade com que essa catástrofe se aproxima da população cratense, bastando olhar ao redor e perguntar qual reservatório abastece a cidade afora as pequeninas nascentes que outrora corriam transparentes pelas levadas.
         Em 1764, relatos indicam que dois aquíferos perenes banhavam a então Vila do Crato, os rios Batateira e Miranda (Revista Itaytera:1973, Nº17, p. 18). No século XIX, João Brígido dá notícia de, aproximadamente, cem fontes jorrando constantemente das encostas do Araripe (Homens e Fatos:2001, p. 151). No início do século XX, Irineu Pinheiro enumerou 70 delas só no Crato (O Cariri:2009, p. 21); porém, na década de 1980, esse número caiu para apenas 58 (Revista Hyhyté:1980, Nº 07, p. 20).
         Como se vê, este número ainda está diminuindo. Deus queira que a próxima Guerra Mundial não seja por água, porque, se for, certamente o Crato está a meio caminho. 
         Cabe lembrar que os poços e cacimbas não servem como solução definitiva, pois o lençol freático também seca, e, pior, pode ser contaminado com as fossas das belas e escatológicas mansões.
         As faldas do Araripe escaparam à secura das caatingas que as rodeiam, mas está agonizando com a predação da especulação imobiliária e com o descaso do Poder Público.
         Mas, atenção! Aproveite a oferta e faça parte dessa liquidação!

(In Revista Acontece, Crato, julho de 2015)

         

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O PRIMEIRO JORNAL DE JUAZEIRO DO NORTE: O REBATE

O PRIMEIRO JORNAL DE JUAZEIRO DO NORTE: O REBATE
                                                               
                                                                            Heitor Feitosa Macêdo


         
         No dia 18 de julho de 1909, o jornal O Rebate foi publicado, entrando em circulação nas ruas do então distrito de Juazeiro do Norte/CE, tendo como fundador, diretor e redator-chefe o padre Joaquim de Alencar Peixoto.
         O nascimento deste jornal serviu como importante ferramenta de apoio à almejada emancipação política de Juazeiro do Norte, pois, ao tempo de suas primeiras edições, tal localidade não passava de um pequeno povoado pertencente à cidade do Crato/CE.
         O Rebate representava parte dos anseios da nascente burguesia que se concentrava no primitivo nicho juazeirense, trazendo em seu bojo a indelével ideia separatista. Assim, o emergente distrito, para se desvencilhar da urbe cratense, utilizou-se largamente do dito semanário.
         Na época, a rivalidade entre Crato e Juazeiro era representada, no mundo das ideias, pelo entrincheiramento da imprensa local, de um lado O Rebate, comandado pelo padre Alencar Peixoto, do outro o Correio do Cariry, chefiado pelo farmacêutico José Alves de Figueiredo. Não foi à toa que o hebdomadário tomou o nome de O Rebate, em alusão ao ato de rebater, indicando uma das suas principais ocupações.
Pe. Alencar Peixoto
(Fonte:Álbum do Seminário do Crato)

         O dito padre era natural do Crato, porém, havia migrado para o Juazeiro em 1907, sem autorização do Bispo D. Joaquim, e, além disso, também havia se desentendido com o caudilho cratense, o coronel Antonio Luiz Alves Pequeno. Sem dúvida, estes fatos serviram à causa que dividia as duas localidades em conflito.
         Afora a emancipação de Juazeiro do Norte, o jornal O Rebate também se dedicou veementemente ao tema das minas de cobre do Sítio Coxá, que, no período, era objeto de uma tensa disputa judicial envolvendo o padre Cícero, proprietário das terras em que se localizavam as jazidas.
         Como se percebe, a intenção precípua desses jornais não era meramente o repasse da notícia, mas o engajamento político, e, por conseguinte, a busca pela imposição de seus discursos, ou melhor, da vontade das classes dominantes, engalfinhadas a troco de poder sobre aquele nascente espaço urbano.    
         O encerramento das atividades desse jornal se deu pouco tempo depois da emancipação de Juazeiro do Norte (22 de julho de 1911), ensejando a saída do seu redator-chefe da cidade recém-criada, pois apesar de este ter alcançado a separação política, não pôde realizar seu outro desejo, o de chefiar o governo da nova urbe, tendo em vista que esse encargo coube ao seu confrade, o padre Cícero.
         As publicações de O Rebate davam-se semanalmente, aos domingos, isto até o dia 03 de setembro de 1911, data de seu último exemplar, perfazendo a soma de 104 edições.
À esquerda, o padre Alencar Peixoto, ladeado pelo Dr. Floro Bartolomeu, em 1909, na sala de redação de O Rebate (Fonte:Sobreira, Padre Azarias, O Patriarca de Juazeiro, p. 07)
         Para aqueles que tiverem curiosidade de ler o antigo hebdomadário, a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Brasil disponibilizou parte de suas edições, concernente aos anos de 1909 e 1910, no seguinte endereço: <http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx>

(Jornal Acontece, Região do Cariri - De 24 de fevereiro a 10 de março de 2015, Nº 55 - Ano 6 - Fundado por Antonio Rodrigues Peixoto, p. 07).



quinta-feira, 19 de março de 2015

O REINO SANGRENTO DA PEDRA BONITA

O REINO SANGRENTO DA PEDRA BONITA
                                                                 
                                                                                        Heitor Feitosa Macêdo

            Uma das mais famosas obras de Ariano Suassuna traz o título de A Pedra do Reino, romance que teve como inspiração um fato verídico ocorrido no sertão pernambucano do Pajeú, o qual, apesar de ter virado folclore, constituiu uma verdadeira tragédia sertaneja.
         Contado em minúcias em 1875, por seu principal historiador, Antonio Ático de Sousa Leite, sob o título de Memória sobre o Reino Encantado na Comarca de Villa Bella, o ocorrido nesta localidade ganhou exatidão e contornos verossímeis, consignando uma crueza que anda longe de ser mera literatura.
         Esta história sangrenta teve início entre os anos de 1836 e 1838, quando um grupo composto por, aproximadamente, trezentas pessoas reuniu-se no alto sertão do Pajeú, sob a liderança de um mameluco eloquente, João Antonio dos Santos, que pregava com singular ardor a volta do rei português D. Sebastião, desaparecido na África desde 1578.
         Nas fervorosas prédicas, João Antonio, na qualidade de rei dos fanáticos (o primeiro da tosca dinastia), garantia que D. Sebastião voltaria do lugar em que estava, isto é, no reino encantado, mas, antes, seria necessário que duas enormes pedras, uma delas impregnada de reluzente malacaxeta, fossem totalmente banhadas de sangue, pois, quando o reino fosse desencantado, o monarca desaparecido voltaria com seu exército e aquela gente gozaria de muitas benesses.
         Mas, para alcançar esta graça, o sangue deveria ser obtido com o sacrifício de pessoas e cães, porque, uma vez atingido o desencantamento, todos os mortos ressuscitariam, os pobres voltariam nobres, imortais, ricos e poderosos, amais, quem fosse preto tornaria à vida branco como a lua. Eram estas promessas irresistíveis, ao considerar a marginalização em que vivia aquela miserável gente, formada por pobres e não brancos.
         E qual a razão de também sacrificarem os cães? Os pregadores deblateravam que estes animais também ressuscitariam, contudo, em forma de dragões, com a finalidade de engolir os proprietários da época.
         Deturpando a religião católica, os sebastianistas acrescentaram características aparentemente índias ao culto romano, dando-lhe caráter sincrético, pois, para poder enxergar o reino, os seguidores sorviam uma beberagem feita de jurema e manacá, conhecida como vinho encantado, além de fumarem em cachimbos, havendo proibição de adquirir roupas e tecidos. Acrescente-se que os súditos da Pedra do Reino utilizavam cacetes como armas, também sendo usual o casamento de um só homem com mais de uma mulher.
         Acerca dos casamentos, existia uma peculiaridade digna de citação, pois, aos reis da Pedra Bonita, era reservado o direito da prima nocte, ou seja, os líderes deste movimento dormiam a primeira noite com as mulheres recém-casadas, ato que os sebastianistas denominavam de dispensa do rei.  
         O certo é que entre os dias 14 e 15 de maio de 1838 os sacrifícios tiveram início, matando-se mais de 50 pessoas, além de 14 cães. As crianças eram entregues ao algoz pelos próprios pais, isto quando estes não cuidavam de realizar pessoalmente o serviço, como ocorreu a um filho de José Vieira, que foi colocado sobre a pedra dos sacrifícios pelo próprio genitor, vindo este, com o primeiro golpe, a decepar o braço do inocente com um facão, não atendendo às súplicas da criança, ditas em vão: meu pai, você não dizia que me queria tanto bem?!.
         Ao tomar notícia deste acontecimento, através de um vaqueiro de sua fazenda que havia se evadido durante o início das matanças, o comissário major Manoel Pereira da Silva organizou uma tropa e tão logo rumou de sua fazenda Caiçara até à Serra Formosa, onde teve encontro com o grupo dos sebastianistas, homens, meninos e mulheres semi-nús, armados de facões e cacetes, tendo à frente o terceiro rei, Pedro Antonio, na ocasião, adornado com uma coroa de cipó, pois roubara o trono no dia 17, ao matar seu predecessor João Ferreira, o Jóca (o segundo rei de Pedra Bonita), a quem quebrou a cabeça e arrancou as vísceras.
         O morticínio só teve trégua no dia 18 de maio de 1838, quando alguns membros de uma família de proprietários da região, conhecida como os Pereira do Pajeú, puseram cobro a esta hecatombe, mas não sem sofrer danos, pois dos quatro irmãos que travaram intenso combate com o grupo sebastianista, dois foram mortos, Cipriano e Alexandre Pereira, um ficou ferido, o comissário major Manoel Pereira da Silva, e apenas o terceiro saiu ileso, o coronel Simplício Pereira da Silva, o qual, nobremente, evitou que os sobreviventes da Pedra Bonita fossem linchados por parte da população.
         Mais que folclore e mera literatura, a pedra do reino representa os efeitos de uma colonização excludente e do choque de culturas, reverberando em pobreza e fanatismo, matéria prima para a história dos sertões nordestinos.     
             
         

sábado, 24 de janeiro de 2015

O PRIMEIRO JORNAL DO CARIRI: O ARARIPE

O PRIMEIRO JORNAL DO CARIRI: O ARARIPE


         
    Neste ano de 2015, faz 160 anos da primeira publicação do Jornal O Araripe, primeiro jornal produzido no Cariri cearense, cujo redator era um inteligente jovem chamado João Brígido dos Santos.
         Nascido em São João da Barra, no atual estado do Rio de Janeiro, em 3 de dezembro de 1829, João Brígido, com apenas 27 anos de idade foi o principal idealizador do referido hebdomadário, cuja a primeira edição saiu no sábado do dia 7 de julho de 1855, confeccionado na Cidade do Crato, na Tipografia Monte & Companhia, sita à Rua da Matriz, sob as expensas de do Sr. José Montes Furtado.
         Nesta edição o redator não deixa dúvida sobre a primogenitura do dito semanário na região do Cariri, ao arrematar que: “O nosso destincto amigo, o Sr. José do Monte Furtado vem de ministrar-nos um prello mandando vir a expensas suas, e hoje pela primeira vez após dusentos annos de existencia social o ameno Carirì lê um jornal impresso na Cidade do Crato, sua sede natural”
         O Araripe, inicialmente, trazia como logomarca a imagem de um índio trajando uma saia de penas e um cocar sobre a cabeça, bem como um arco nas mãos. Em verdade, suas armas eram setas envenenadas, palavras tão doridas quanto uma flechada à queima roupa, nem sempre disparada pelo redator, mas por alguns habitantes da região que se digladiavam francamente por inúmeras páginas.
         O conteúdo deste jornal era variado, passando por questiúnculas banais a temas de grande monta, como a criação da Província do Cariri. Também noticiou vastamente sobre a marcha da cólera-morbo que se dirigia paulatinamente ao Cariri e a esperança de tratá-la com suco de limão.
         Outros temas curiosos também são abordados pelo O Araripe, como o conflito dos moradores pelas águas das nascentes, os prejuízos causados pela pecuária à agricultura, a fuga dos escravos, intrigas políticas, corrupção, etc.            
         O Araripe, além de indicar uma produção intelectual intensa no interior do Ceará, também atesta a circulação de outros periódicos no meio interiorano, como o Correio Mercantil, o Correio da Tarde, O Cearense e outros, apontando relativa ilustração de uma parcela da população daqueles rincões.
         O hebdomadário O Araripe teve 336 números, datando sua última publicação do dia 18 de fevereiro de 1865.
         Por fim, aqueles que tiverem interesse de ler esta obra monumental, a coleção deste jornal pode ser vista na hemeroteca da Biblioteca Nacional, disponível no seguinte endereço: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx

(Jornal Acontece, Região do Cariri - De 21 de janeiro a 31 de janeiro de 2015, Nº 54 - Ano 6 - Fundado por Antonio Rodrigues Peixoto, p. 06).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

ORIGEM DA PALAVRA CANGAÇO

               ORIGEM DA PALAVRA CANGAÇO
                                     
              
                                                                      Heitor Feitosa Macêdo

       A “língua brasileira” é uma verdadeira miscelânea de palavras com diferentes origens, tendo como seu arcabouço não só o português, vernáculo neolatino, de origem Greco-romana, mas também influências nascidas durante a colonização do continente Americano, com a adoção parcial das línguas aborígenes, como aparenta ser o termo CANGAÇO.
Figura meramente ilustrativa (Fonte: <http://www.totalclipping.com.br/v1/noticias.php?id=1747>)

         A discussão acerca da origem desta palavra parece ter arrefecido diante das opiniões de abalizados escritores, como dois dos imortais da Academia Brasileira de Letras, Gustavo Barroso e Euclides da Cunha, sendo que, atualmente, os estudiosos, em geral, não têm discordado da teoria adotada para a formação deste vocábulo, fato que merece ser reavaliado.  
         Ao contrário do que se pensa, a palavra cangaço não define apenas a forma do banditismo rural ocorrida nos sertões do Nordeste brasileiro em épocas passadas, possuindo também outros significados.
         Afora o modo de vida adotado pelos indivíduos cangaceiros, ou seja, o cangaceirismo, Aurélio Buarque de Holanda também registra que cangaço pode referir-se ao engaço de uvas depois de pisadas e de extraído o vinho, ou ao conjunto de armas dos cangaceiros, ainda, pode reportar-se aos objetos de uso de uma casa pobre, bem como ao pedúnculo e à espada do coqueiro, que se desprendem da árvore quando secos.
         Pedro Baptista assegura que, antigamente, em certos recantos do sertão, cangaço referia-se à ossada, esqueleto de qualquer animal, doméstico ou selvagem. No mais, observa que o vocábulo “nem sempre designa o homem armado, o mal fazejo, na linguagem simples”, mas, por vezes, é utilizado para distinguir o reles guarda-costas do “cabeça do bando”.
         Cabe lembrar que os cangaceiros, antes de possuírem tal denominação, eram chamados, no Ceará, de “caxeados”, devendo-se frisar que, à esta época, já possuíam as mesmas peculiaridades no seu modo de vida, na forma de agir e, principalmente, na estética, com longas e desgrenhadas melenas.
         Os imortais da Academia Brasileira de Letras, Gustavo Barroso e Euclides da Cunha, foram os responsáveis pelas primeiras asserções sobre a origem da palavra cangaço, concebendo-lhe como sendo oriunda da língua portuguesa.
         Gustavo Barroso, estudioso incansável do cangaceirismo, foi responsável por arrematar a teoria mais aceita para explicar a origem da palavra cangaço. Segundo o referido autor, a terminologia “cangaço” surgiu do hábito de os antigos bandoleiros se sobrecarregarem de armas, trazendo o bacamarte passado sobre os ombros, à feição de uma canga de jungir bois, por isso dizer que estes indivíduos andavam debaixo do cangaço, isto é, de uma canga metálica, feita de aço. Daí a expressão usada por Euclides, em “Os Sertões”, ao dizer que alguns indivíduos: “vinham debaixo do cangaço”.
         A obviedade e a lei do menor esforço consignam essa teoria como verdadeira e acima de qualquer suspeita, no entanto, tal afirmativa é, no mínimo, uma visão simplista, insuficiente para explicar a origem do termo cangaço, que se mostra bem mais complexa do que se imagina.
         Contrariando a pretensa origem lusa do étimo em apreço, Tomé Cabral afirma que o substantivo masculino cangaço, na segunda acepção apontada em seu dicionário, com o sentido de esqueleto, “parece, a princípio provir do tupi CANGUERA (ossada, osso sem carne)”. Completa o autor, citando a opinião de Batista Caetano, que cangaço tem origem no “abanenga” (língua tupi), sendo derivado de KANG (osso) ou AKANG (crânio ou cabeça).
         No entanto, Tomé Cabral admite haver dúvida em torno da exata origem do termo cangaço, ponderando que o assunto: “Merece entretanto, um estudo mais aprofundado a respeito de sua origem, tendo-se em vista a semelhança gráfica e a quase homofonia entre cangaço e cangalho e sobretudo ao sentido mais ou menos equivalente”.
         Pedro Baptista, no ano de 1929, suscitou a possibilidade de a palavra cangaço ter origem na língua dos índios Cariris, isto com base na antiga obra do Padre Luiz Vincencio Mamiani, autor do “Catecismo Kiriri”, publicado em 1698, na qual está registrado o termo CANGHI, que quer dizer “bom”. Argumenta Pedro Baptista que esta adjetivação estaria relacionada com a “compassiva tradição sertaneja” em lembrar-se dos seus heróis “sempre aureolados de bondade e nobreza d’alma”.
         Na Gramática da Língua Kiriri, publicada em 1699, igualmente da autoria do padre Vincencio, encontramos um termo semelhante, CANGHITÈ, que se traduz em “obra boa”.         
         Ao lado disso, em obra recente, Luis Bernardo Pericás sugere que cangaço poderia ter se originado da palavra CAYACU (Kâyacu), também pertencente à língua dos índios Cariris, e tendo como significado “lua”. O autor, partindo do princípio que tal astro liga-se diretamente à noite e, consequentemente, aos animais de hábito noturno, compara-os aos salteadores: “quase invisíveis, que surgiriam desavisadamente no meio da noite para realizar os seus ataques”. Todavia, o próprio Pericás dá pouco crédito a esta hipótese pela inviabilidade da corruptela. 
         Portanto, palavras corriqueiras da “língua brasileira”, como cangaço, podem guardar, no estudo de suas origens, enigmas extremamente complexos, exigindo pesquisas mais aprofundadas, o que, certamente, revelará pontos intricados de nossa cultura, fortalecendo a identidade do povo brasileiro enquanto mestiços detentores de uma língua própria.

(Fonte: jornal acontece, Região do Cariri - De 30 de outubro a 10 de novembro de 2014, Nº 53 - Fundado por Antonio Rodrigues Peixoto, p. 06)