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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

ORIGEM DA PALAVRA CANGAÇO

               ORIGEM DA PALAVRA CANGAÇO
                                     
              
                                                                      Heitor Feitosa Macêdo

       A “língua brasileira” é uma verdadeira miscelânea de palavras com diferentes origens, tendo como seu arcabouço não só o português, vernáculo neolatino, de origem Greco-romana, mas também influências nascidas durante a colonização do continente Americano, com a adoção parcial das línguas aborígenes, como aparenta ser o termo CANGAÇO.
Figura meramente ilustrativa (Fonte: <http://www.totalclipping.com.br/v1/noticias.php?id=1747>)

         A discussão acerca da origem desta palavra parece ter arrefecido diante das opiniões de abalizados escritores, como dois dos imortais da Academia Brasileira de Letras, Gustavo Barroso e Euclides da Cunha, sendo que, atualmente, os estudiosos, em geral, não têm discordado da teoria adotada para a formação deste vocábulo, fato que merece ser reavaliado.  
         Ao contrário do que se pensa, a palavra cangaço não define apenas a forma do banditismo rural ocorrida nos sertões do Nordeste brasileiro em épocas passadas, possuindo também outros significados.
         Afora o modo de vida adotado pelos indivíduos cangaceiros, ou seja, o cangaceirismo, Aurélio Buarque de Holanda também registra que cangaço pode referir-se ao engaço de uvas depois de pisadas e de extraído o vinho, ou ao conjunto de armas dos cangaceiros, ainda, pode reportar-se aos objetos de uso de uma casa pobre, bem como ao pedúnculo e à espada do coqueiro, que se desprendem da árvore quando secos.
         Pedro Baptista assegura que, antigamente, em certos recantos do sertão, cangaço referia-se à ossada, esqueleto de qualquer animal, doméstico ou selvagem. No mais, observa que o vocábulo “nem sempre designa o homem armado, o mal fazejo, na linguagem simples”, mas, por vezes, é utilizado para distinguir o reles guarda-costas do “cabeça do bando”.
         Cabe lembrar que os cangaceiros, antes de possuírem tal denominação, eram chamados, no Ceará, de “caxeados”, devendo-se frisar que, à esta época, já possuíam as mesmas peculiaridades no seu modo de vida, na forma de agir e, principalmente, na estética, com longas e desgrenhadas melenas.
         Os imortais da Academia Brasileira de Letras, Gustavo Barroso e Euclides da Cunha, foram os responsáveis pelas primeiras asserções sobre a origem da palavra cangaço, concebendo-lhe como sendo oriunda da língua portuguesa.
         Gustavo Barroso, estudioso incansável do cangaceirismo, foi responsável por arrematar a teoria mais aceita para explicar a origem da palavra cangaço. Segundo o referido autor, a terminologia “cangaço” surgiu do hábito de os antigos bandoleiros se sobrecarregarem de armas, trazendo o bacamarte passado sobre os ombros, à feição de uma canga de jungir bois, por isso dizer que estes indivíduos andavam debaixo do cangaço, isto é, de uma canga metálica, feita de aço. Daí a expressão usada por Euclides, em “Os Sertões”, ao dizer que alguns indivíduos: “vinham debaixo do cangaço”.
         A obviedade e a lei do menor esforço consignam essa teoria como verdadeira e acima de qualquer suspeita, no entanto, tal afirmativa é, no mínimo, uma visão simplista, insuficiente para explicar a origem do termo cangaço, que se mostra bem mais complexa do que se imagina.
         Contrariando a pretensa origem lusa do étimo em apreço, Tomé Cabral afirma que o substantivo masculino cangaço, na segunda acepção apontada em seu dicionário, com o sentido de esqueleto, “parece, a princípio provir do tupi CANGUERA (ossada, osso sem carne)”. Completa o autor, citando a opinião de Batista Caetano, que cangaço tem origem no “abanenga” (língua tupi), sendo derivado de KANG (osso) ou AKANG (crânio ou cabeça).
         No entanto, Tomé Cabral admite haver dúvida em torno da exata origem do termo cangaço, ponderando que o assunto: “Merece entretanto, um estudo mais aprofundado a respeito de sua origem, tendo-se em vista a semelhança gráfica e a quase homofonia entre cangaço e cangalho e sobretudo ao sentido mais ou menos equivalente”.
         Pedro Baptista, no ano de 1929, suscitou a possibilidade de a palavra cangaço ter origem na língua dos índios Cariris, isto com base na antiga obra do Padre Luiz Vincencio Mamiani, autor do “Catecismo Kiriri”, publicado em 1698, na qual está registrado o termo CANGHI, que quer dizer “bom”. Argumenta Pedro Baptista que esta adjetivação estaria relacionada com a “compassiva tradição sertaneja” em lembrar-se dos seus heróis “sempre aureolados de bondade e nobreza d’alma”.
         Na Gramática da Língua Kiriri, publicada em 1699, igualmente da autoria do padre Vincencio, encontramos um termo semelhante, CANGHITÈ, que se traduz em “obra boa”.         
         Ao lado disso, em obra recente, Luis Bernardo Pericás sugere que cangaço poderia ter se originado da palavra CAYACU (Kâyacu), também pertencente à língua dos índios Cariris, e tendo como significado “lua”. O autor, partindo do princípio que tal astro liga-se diretamente à noite e, consequentemente, aos animais de hábito noturno, compara-os aos salteadores: “quase invisíveis, que surgiriam desavisadamente no meio da noite para realizar os seus ataques”. Todavia, o próprio Pericás dá pouco crédito a esta hipótese pela inviabilidade da corruptela. 
         Portanto, palavras corriqueiras da “língua brasileira”, como cangaço, podem guardar, no estudo de suas origens, enigmas extremamente complexos, exigindo pesquisas mais aprofundadas, o que, certamente, revelará pontos intricados de nossa cultura, fortalecendo a identidade do povo brasileiro enquanto mestiços detentores de uma língua própria.

(Fonte: jornal acontece, Região do Cariri - De 30 de outubro a 10 de novembro de 2014, Nº 53 - Fundado por Antonio Rodrigues Peixoto, p. 06)

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