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quarta-feira, 19 de abril de 2017

O encontro com uma neta de Bárbara Pereira de Alencar no Cemitério do Crato/CE

O encontro com uma neta de Bárbara Pereira de Alencar no Cemitério do Crato/CE

                                                                                                   Heitor Feitosa Macêdo

         Em uma manhã, no final do ano de 2016, eu, o pesquisador Ronald Tavares e o padre Roserlândio visitamos o antiquíssimo Sítio Pau Seco, hoje, no município de Juazeiro do Norte/CE, onde Bárbara Pereira de Alencar havia residido por longos anos.
          
Inscrição tumular da neta de D. Bárbara de Alencar.
Na verdade, a casa não existe mais, exceto o seu alicerce, posto que as paredes foram derrubadas, segundo alguns, por gente em busca de tesouros, ou melhor, botijas. Próximo à estrada “carroçável”, polvilhada de amarela piçarra, a alguns metros do Rio Batateira está um discreto outeiro, sob o qual vê-se com muita dificuldade uma sapata de pedra encoberta por pedaços de grossos tijolos adobes.
         Cacos de telhas, aqui e acolá, vão se afastando do terreiro, quase sempre carreados pelas chuvas. Além disso, ao redor dos escombros, também são vistas algumas faianças, isto é, cacos de antigas louças. Moradores da circunvizinhança noticiam sem comedimento encontrarem talheres de metal amarelo, muito provavelmente de latão.
         A uns 150 metros dos entulhos da velha casa estão as ruínas do que foi um próspero engenho, ainda sendo possível ver sua fornalha, cuja boca é formada por um arco de espessos tijolos. O clima bucólico associado aos vestígios materiais do vetusto imóvel chegam a causar certa nostalgia até mesmo para quem não presenciou os dias de glória daquele reduto da matriarca comumente chamada pelo povo de “Dona Bárbara do Crato”.  
         Nenhuma medida existe para preservar o que resta, nem por parte da família Alencar nem por parte dos gestores públicos. Aliás, ressalte-se que a cidade do Crato, da mesma forma que o Juazeiro do Norte, pode se vangloriar de ter destruído uma das duas principais moradas de Dona Bárbara, pois a casa da Praça da Sé, com beiral colonial, foi demolida para dar lugar ao atual prédio da Secretaria da Fazenda do Estado Ceará. É demasiadamente paradoxal, pois como pode a região do Cariri tanto se gabar de Bárbara e dos seus filhos ao passo que pouco faz para preservar sua memória?
         Passando ao largo dessas aflições e denúncias inúteis, nós (eu, padre Roserlândio e o Ronald) continuamos nossa caminhada insatisfeitos com as informações colhidas, pois o mal do pesquisador é sempre querer obter mais e mais. Então, retornamos as nossas habitações.
         Ao final da tarde me dispus a deixar o Ronald na Rodoviária do Crato, pois ele pretendia retornar ao Aquirás/CE. No caminho, resolvemos parar no cemitério da referida cidade para examinar alguns túmulos dos mais antigos. Passando por diversos nomes de gente graúda da cidade, terminamos nos deparando com uma lápide muito velha, datada de 1861. O formato piramidal por si só já chamava a atenção. Ao ler o epitáfio tivemos a surpresa de que ali jazia a neta de Dona Bárbara de Alencar, conforme rezava a inscrição do branco mármore: “AQUI JAZ/ DONA MARIA MARTINIANA D’ALENCAR/ FILHA LEGÍTIMA DO CAPITÃO JOÃO GONÇALVES PEREIRA D’ALENCAR E ESPOSA FIEL DE JOSÉ DE SOUSA ROLIM/ NASCEU A 11 DE JUNHO DE 1811/ FALECEU A 24 DE JULHO DE 1861”.  
Túmulo de D. Maria Martiniana de Alencar.
         De imediato me veio na mente o que escrevera um dos trinetos de Bárbara Pereira de Alencar, José Carvalho, numa publicação do ano de 1920, ao dizer que um inglês naturalista, George Gardner, havia descrito uma das netas de Dona Bárbara quando esteve na então Real Vila do Crato, em visita ao filho mais velho desta, o Capitão João Gonçalves, exatamente no Sítio Pau Seco, no ano de 1838.[1]
         O Capitão João Gonçalves era homem pacato e foi o único filho de Bárbara que não se envolveu nos movimentos revolucionários de 1817 (Revolução Pernambucana) e 1824 (Confederação do Equador). Ocorre que em 1838 o dito capitão foi visitado pelo inglês George Gardner que, por ser médico, ia consultar algumas pessoas no Sítio Pau Seco, as quais estavam sofrendo com a “Sapiranga do brejo”, isto é, o tracoma, muito comum na região. Assim disse o próprio Gardner:

Vivi cinco meses no meio desta gente; mas em nenhuma outra parte do Brasil, mesmo durante mais curta residência, fiz menos amigos ou vivi em menos intimidade com os habitantes. Além do senhor Melo, o único indivíduo cuja casa visitei frequentemente era um outro filho do velho vigário, Capitão João Gonçalves, dono de um engenho de açúcar (rapadura), a duas léguas da cidade. Conheci-o pela primeira vez quando veio me consultar a respeito de sua esposa, que sofria de oftalmia crônica. Era homem amável, de excelente qualidade, de quem ainda conservo agradável lembrança das horas passadas em sua casa. Os olhos de sua mulher melhoraram muito sob meu tratamento e, como era muito comunicativa e bem humorada, tínhamos longas conversas sobre os usos e costumes de nossos respectivos países. A família compunha-se de duas filhas, uma delas casada, vivendo dezesseis léguas de distância em lugar que visitei depois; a mais nova, bela moça de uns dezesseis anos, teve acanhamento de aparecer-me e não a vi nas primeiras duas ou três visitas. Mas, como me disse a mãe depois; sua curiosidade de ver um inglês e conversar com ele, acabou por vencer de todo o seu retraimento, de modo que passou sempre a aparecer quando eu lá estava. Ia se casar com um irmão mais moço do cunhado, havendo anos já que eram noivos. É bem raro aqui que as moças das famílias respeitáveis tenham liberdade de escolher maridos por si mesmas; são os pais que se incumbem dos arranjos em tais casos.[2]    

            Depois de reler este trecho, fiquei remoendo a possibilidade de a pessoa sepultada naquele túmulo ser a mesma que o inglês havia conhecido no Sítio Pau Seco, a filha caçula do Capitão João Gonçalves. Dessa forma, recorri a leituras que pudessem complementar a narrativa de Gardner. O resultado foi que encontrei mais dois filhos do casal João Gonçalves de Alencar e Luíza Xavier da Silva, quais sejam: Cesário Gonçalves de Alencar e Alexandrina Xavier de Alencar.[3]
         Porém, diante da escassez dos dados documentais, como saber a idade das filhas do Capitão João e, assim, identificar a mais nova? 
         Pelos escritos de José Carvalho, infere-se que o seu bisavô, o Capitão João Gonçalves, teve quatro filhos (três mulheres e um homem), sendo que um destes rebentos se chamava Bárbara (Auta de Alencar), casada com Manoel da Cruz Rosa Carvalho (avós de José Carvalho). Mas não parou por aí, pois o referido autor também revela ter conhecido a sua tia mais moça, nos seguintes termos: “Ainda a vi, já velhinha; foi realmente casada com um irmão de meu avô, o qual residiu no sítio Ouro Preto, em Salgueiro, Pernambuco, onde deixou descendência”.
         A esta altura, as pistas já eram suficientes para chegar à conclusão de que aquele túmulo não era o da filha mais jovem do Capitão João Gonçalves, pois a lápide de Dona Maria Martiniana d’Alencar diz que ela nascera no ano de 1811. Paralelamente, Gardner havia anotado em seu diário, em 1838, que a filha “mais nova” do capitão teria “uns dezesseis anos”. Logo, ao fazer a subtração das datas, conclui-se que Dona Maria Martiniana, ao tempo da visita do inglês, possuía 27 anos, aproximadamente.
         De posse dessas informações, sabia que, agora, bastava encontrar o nome do irmão do avô de José Carvalho, Manoel da Cruz Rosa Carvalho, para, assim, desvendar o nome de sua esposa e, por conseguinte, identificar a derradeira filha do Capitão João Gonçalves.
         Desta feita, dando prosseguimento à investigação, recorri a um trabalho de genealogia sobre a família Alencar, de autoria de José Roberto de Alencar Moreira, mas, infelizmente, não encontrei o que tanto procurava. Ainda com muita curiosidade, continuei pesquisando e, por fim, nos escritos de Yoni Sampaio descobri que:

Joaquim Manoel Sampaio. Nasceu em 1849. Major da Guarda Nacional. Foi chefe político em Salgueiro. Casou com Bárbara Docelina de Alencar, filha de Antônio da Cruz Neves Júnior, Toínho do Ouro Preto, e de Alexandrina Xavier de Alencar, Dondón Alencar.

            Com estas informações, ficou tudo resolvido! A filha caçula do Capitão João Gonçalves, Alexandrina Xavier de Alencar, que o inglês havia mencionado, não é a que está no túmulo do cemitério do Crato, isto é, Dona Maria Martiniana de Alencar.
         Ao fim, dei-me por satisfeito, pois, por obra do acaso, quiçá do destino, encontrei uma das netas de Dona Bárbara Pereira de Alencar, num jazigo, aparentemente, esquecido, a espera de alguma luz além da escuridão do interior de sua velha cripta piramidal.

Idem.



[1] CARVALHO, José, Heroína Nacional: Bárbara Pereira de Alencar, In Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza – Ceará, 1920, p. 213.
[2] Gardner, George, Viagem ao Interior do Brasil: principalmente nas províncias do Norte e nos distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841, São Paulo, Editora da Universidade do São Paulo, 1975, p. 94.
[3] MOREIRA, José Roberto de Alencar, Vida e Bravura: Origens e Genealogia da Família Alencar, Brasília, CERFA, 2005, p. 210.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Parte II: O Suposto Romance de Bárbara Pereira de Alencar com o Vigário do Crato, Miguel Carlos da Silva Saldanha

Parte II: O Suposto Romance de Bárbara Pereira de Alencar com o Vigário do Crato, Miguel Carlos da Silva Saldanha

                                                         Heitor Feitosa Macêdo

Cunhadio e Compadrio entre Bárbara e o padre Saldanha

            Outra tese que auxilia no exame da suposta convivência amorosa entre o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha e Bárbara de Alencar remete a dois vínculos comuns na sociedade da época, que são o cunhadio e o compadrio.
Desenho sobre a Revolução Pernambucana de 1817 representando a participação feminina, da autoria de Miguel JC (Fonte: <https://tvuol.uol.com.br/video/a-revolucao-pernambucana-como-voce-nunca-viu-04024D19326CD4896326>. Acesso em 18/04/2017)
         Estes dois institutos fazem parte dos dogmas religiosos da Igreja Católica, estando entre um dos sete sacramentos, e servem para estreitar laços, criando relações recíprocas de interação social, com conotação de parentesco espiritual, o que implica diretamente em ligações mútuas de afeto, coesão, direitos e obrigações. Ressalte-se que, no começo do século XIX, o cunhadio e o compadrio carregavam um significado muito mais importante e agudizado que hoje.
         Com o casamento, os irmãos de um dos cônjuges adquiriam a qualidade de parente do outro nubente, sendo chamado de cunhado. Já no compadrio, esta relação se dava em dois momentos: no batizado (logo após o nascimento) e na crisma (depois dos 14 anos de idade), porém, tinha o mesmo sentido, qual seja, a obrigação dos padrinhos (do latim vulgar patrinu, diminutivo de pater, ou seja, pai) de acolherem o afilhado na ausência dos progenitores, assemelhando-se, grosso modo, a uma relação subsidiária de paternidade e perfilhação.
         Mas como isto pode indicar o envolvimento amoroso entre Bárbara e o padre Saldanha?
         Analisando antigos documentos paroquiais, constata-se que duas irmãs de Brárbara de Alencar se casaram com dois irmãos do padre Saldanha.
         Antônia Pereira de Alencar, irmã de Bárbara, casou-se com Manuel Carlos da Silva, irmão do vigário Saldanha, no ano de 1793:

Em o primeiro do mes de julho de mil setecentos noventa e treis na capella de Barbalha pellas nove horas do dia depois de feitas as denunciaçons, que o depoem o Sagr. Consil. Trid. sem se descobrir empedimento algum em prezensa do Reverendo Padre Miguel Carlos da Sylva sendo primeiro examinados em Doutrina Cristam, de Parochial licença se receberam solemnemente por palavras de prezente Manoel Carlos da Sylva natural da Freguezia do Riaxo do Sangue de donde apresentou Certidam de banhos, filho legítimo de Manuel Carlos da Sylva e Izabel da Conceiçam com Antonia Perera de Alencar natural da Freguezia do Senhor Bom JESUS do Enxú de donde apresentou a certidam de banhos filha legitima de Joaquim Perera de Alencar, e Teodoria Rodrigues da Conceiçam, logo Receberam as bensons na forma do Ritual Romano, e asistiram prezentes por testemunhas Antonio Gonsalves de Arahujo Junior, e Alexandre da Sylva Pexoto, de que mandou fazer este assento, em que me asignei.
Cura André da Silva Brandão.

Neste registro paroquial constata-se a presença do padre Miguel Carlos da Silva Saldanha (repita-se, irmão do nubente), sendo que este casamento ocorreu no Cariri, mais especificamente, em Barbalha/CE. Sendo provável que Bárbara de Alencar também estivesse presente, pois também se tratava do matrimônio de sua irmã, momento de grande festividade.
Além desta, outra irmã de Bárbara de Alencar, Josefa Pereira de Alencar, depois de enviuvar, casou-se com Alexandre Carlos da Silva Saldanha (também chamado de Alexandre da Silva Peixoto), irmão do padre Miguel Carlos da Silva Saldanha, no dia 22 de janeiro de 1795:

Aos vinte e dois dias de janeiro de mil setecentos noventa e sinco nesta Matris de Sam José pellas nove horas do dia depois de feitas as denunciações, que o depoem o Sag. Consil. Trid. sem se descobrir empedimento algum em prezensa do Reverendo Cura André da Sylva Brandão sendo primeiro examinados em dotrina Cristam se receberam solenemente por pallavras de prezente Alexandre da Sylva Pexoto natural da Freguezia do Riaxo do Sangue donde aprezentou Certidam de banhos, filho legitimo de Manoel Carlos da Sylva, e de Izabel Rodrigues da Conceiçam, com Josefa Pereira de Alencar viuva que ficou do João José sepultado na Matris do Enxú donde apresentou a certidam de óbito, e aprezentou certidam de banhos filha legitima de Joaquim Perera de Alencar, e de Teodora Rodrigues, e asistiram prezentes por testemunhas o Padre Miguel Carlos da Sylva, e o Padre Francisco Eduardo, de que mandou o Reverendo Cura fazer este assento, em que com as testemunhas se asignou.
O Cura André da Silva Brandão
Miguel Carlos da Sa
O Pe Francisco Eduardo Paez de Melo.

Nesta cerimônia de esponsais, também ocorrida no Cariri, desta vez na Matriz de São José dos Cariris Novos, em Missão Velha/CE, vizinha à Barbalha, nota-se mais uma vez a presença do padre Miguel Carlos da Silva Saldanha. Como se percebe, por duas vezes, Dona Bárbara e o vigário Saldanha foram concunhados.
Isto não deve ser ignorado, pois, à época, os casamentos eram arranjados pelos pais dos noivos, expressando, além de intenções financeiras (somar ou manter o patrimônio dos clãs), uma afinidade preexistente entre as famílias, ou seja, uma interação estreita e, relativamente, antiga.
         Portanto, pode-se dizer que Bárbara já convivia em eventos familiares com o padre muitos anos antes de ele ter ido residir na então Vila do Crato na condição de vigário, em 1800, o que é corroborado por outros documentos paroquiais.
         Ademais, outro fator relevante reside no fato de o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha ter sido o padrinho de crisma do filho caçula de Bárbara de Alencar, José Martiniano de Alencar. Isto é o que revelam os livros paroquiais da freguesia do Crato, ao citar que, em 1801: “José, filho de José Gonçalves dos Santos e de Dona Bárbara Pereira, Padrinho o Reverendo Vigário Miguel Carlos Saldanha”.
         Nesse aspecto, merece ser destacado a prática comum entre os padres, naquelas eras, em apadrinhar seus filhos de sangue. Foi o que aconteceu com muitos sacerdotes contemporâneos e conterrâneos dos referidos personagens.
                       
A Data de Nascimento de José Martiniano de Alencar (o Senador)

            Na História há registros escritos que apontam o vigário do Crato, Miguel Carlos da Silva Saldanha, como o verdadeiro genitor de todos os filhos de Bárbara Pereira de Alencar. Porém, o mais comum é indicarem apenas o filho caçula desta matrona, José Martiniano de Alencar, como sendo filho de sangue do dito sacerdote. 
Em que pese ser, aparentemente, supérfluo, o exame da data de nascimento do senador José Martiniano de Alencar ajuda a desvendar alguns fatos, como o suposto romance, revelando as causas que desencadearam determinados comportamentos desses personagens históricos.
Um dos principais argumentos utilizados para negar o enlace entre Bárbara de Alencar e o padre Saldanha se estriba no ano da chegada deste sacerdote aos Cariris Novos para exercer sua função de padre, o que se deu, segundo alguns escritores, em 1800. Sabe-se que o filho mais moço de Bárbara nasceu antes disso, e, assim, presumem os especialistas que nenhum dos rebentos da heroína republicana pode ser filho do padre Saldanha, posto que ele morava no Riacho do Sangue, a 50 léguas de distância. É o que alega Pedro Jaime de Alencar, filho de Tristão de Alencar Araripe com uma escrava, e, portanto, neto de Bárbara Pereira:

O Padre Saldanha somente chegou ao Crato em 1800. Nessa época, José Martiniano, nascido em 16 de outubro de 1794, já estava na idade de crismar-se. O menino que, orientado por sua Mãe, almejava a careira (sic) eclesiástica, escolheu o novo pároco para ser seu padrinho de crisma. Portanto, o Padre Saldanha só veio a tornar-se compadre de Dona Bárbara e amigo da Família Alencar a partir de 1800.

            É um argumento que possui certa lógica, porém, é extremamente falho!
Atualmente, não existe unanimidade entre os historiadores ao indicar a data do natalício do derradeiro filho de Dona Bárbara. Pelo menos quatro datas diferentes são apontadas pelos que se dedicaram ao assunto, sendo elas: 1792, 1794 e 1797, 1798.
         Essa questão sempre esteve imersa em grandes dúvidas e, até agora, o único documento encontrado a este respeito cita o dia 02 de outubro de 1794 como sendo o ano de nascimento de José Martiniano de Alencar:

José, filho legítimo de José Gonçalves dos Santos e de D. Bárbara Pereira, neto paterno de João Gonçalves e Teodora Maria, nasceu a dois de outubro, e foi batizado nesta Matriz sem os Santos Óleos pelo Reverendo Padre André da Silva Brandão a vinte e dois de janeiro de mil e setecentos e noventa e cinco e foram seus padrinhos o Reverendo Antônio Leite de Oliveira e Dona Antônia Pereira, de que mandou o Reverendo Cura fazer este assento no qual se assinou. O Cura André da Silva Brandão.

Mutatis mutandis, existe um problema não resolvido, pois no ano de 1832 José Martiniano é escolhido como senador e toma posse no cargo. Saliente-se que a Constituição Brasileira de 1824 (no seu Capítulo III, artigo 45) impunha algumas condições para poder ser senador:

Art. 45. Para ser Senador requer-se
I. Que seja Cidadão Brazileiro, e que esteja no gozo dos seus Direitos Politicos.
II. Que tenha de idade quarenta annos para cima.
III. Que seja pessoa de saber, capacidade, e virtudes, com preferencia os que tivirem feito serviços á Patria.
IV. Que tenha de rendimento annual por bens, industria, commercio, ou Empregos, a somma de oitocentos mil réis.

            Assim, se for levado em conta que José Martiniano assumiu o cargo de Senador no ano de 1832, aos 40 anos de idade, logo, é porque nascera em 1792, o que contradita os registros paroquiais e toda a sua verossimilhança. Diante de tudo isso, a solução dada por alguns especialistas é a de que Alencar fraudou seus documentos pessoais, antecipando a data de nascimento, para poder se tornar senador. Isso não seria empecilho para Alencar, posto que foi um dos principais protagonistas do Golpe da Maioridade, o que possibilitou que D. Pedro II assumisse o trono aos 14 anos de idade.
         Em nossa opinião, o ano de nascimento do José Martiniano de Alencar é 1794, conclusão que segue um simples raciocínio matemático, pois, se ele foi crismado no ano de 1801, sendo este sacramento administrado às crianças a partir dos sete anos de idade, basta subtrair tais números para alcançar a data por nós apontada.
         Apesar das opiniões contrárias, mesmo que Alencar tenha vagido em qualquer das datas supramencionadas, nada impede que o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha tenha mantido contato com Bárbara de Alencar, posto que desde o ano de 1783 tem-se a prova cabal de que eles tiveram mais de um encontro. O primeiro destes é verificado através do assentamento de batismo do filho primogênito de Bárbara Pereira de Alencar, por nome, João Gonçalves de Alencar:

João filho legitimo do Capm. José Gonsalves dos Santos nal. da Frega. de S. Marinha de Topejo Cidade de Aroma Reino de Portugal Bispado de Lamego, e de D. Barbara Pera. d Alencar natural da freguezia de Cabrobó e oje moradora na Vila de N. Snra. da Real Vila do Crato neto paterno de João Gonsalves e de sua mulher Maria Manuela naturais de Fontelongo Cide. de Aroma Bispado de Lamego. Neto materno de Joaquim Pera. d Alencar nal. da mma. Frega. de Cabrobó e de sua mer. Teodora Roís da Conçam. nal. da mma. Frega. do Cabrobó. Nasceo a 27 de janro. de 1783 e foi batizado a 27 de fevero. Do mmo. ano pelo R. pároco do Inxú Carlos José de Mesquita, com imposisão dos Santos Oleos. Foram Padros. o Comte. Joaquim Pereira de Alencar e D. Teodora Roís da Conçam. seus Avós Maternos, do que para constar mandei fazer este asento em q me asinei. O cura Miguel Saldanha.

            O encontro entre os supostos amantes se repetiu no ano seguinte, em 1784, por ocasião do batizado do segundogênito de Bárbara de Alencar, Carlos José dos Santos (padre):

Carlos filho legítimo do Capm. José Gonsalves dos Santos nal. da Frega. de S. Marinha de Tropejo Cidade de Aroma Reino de Portugal Bispado de Lamego, e de D. Bárbara Pera. d Alencar nal da frega de Cabrobó e oje moradores os pais na Vila de N. Snra. da Penha da Real Vila do Crato. Neto paterno de João Gonsalves e de sua mer Maria Manuela naturais de Fontelongo Cide. de Aroma Bispado de Lamego. Neto materno de Joaquim Pera. d Alencar e de sua mer. Teodora Rodrigues da Conceição naturais da supradita Frega. do Cabrobó. Nasceu a 27 de agosto de 1784 e foi batisado pelo R. Vigário do Inxú Joaquim Tavares Benevides á 28 do mmo. mes.e ano com os Santos Oleos. Foram Padros. o R. P. Carlos José de Mesquita e sua tia materna D. Iria Franca d Alencar, de q pa. constar mandei fazer este asento  em que me asinei. O cura Miguel Carlos Saldanha.   

            Dessa forma, infere-se que o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha já frequentava o Cariri desde longa data e muito antes do nascimento de alguns dos filhos de Dona Bárbara de Alencar.

CONTINUA!

NOTA: TODOS OS DADOS AQUI APRESENTADOS SÃO RESPALDADOS EM FONTES ESCRITAS, CONTUDO, ESTAS SÓ SERÃO REVELADAS QUANDO DA PUBLICAÇÃO EM LIVRO DE NOSSA AUTORIA.

domingo, 16 de abril de 2017

Parte I: O Suposto Romance de Bárbara Pereira de Alencar com o Vigário do Crato, Miguel Carlos da Silva Saldanha

Parte I: O Suposto Romance de Bárbara Pereira de Alencar com o Vigário do Crato, Miguel Carlos da Silva Saldanha

                                                             Heitor Feitosa Macêdo

Mesmo depois da anistia dos patriotas presos durante a Revolução Pernambucana de 1817, um dado gerado por essa guerra, na esfera da informação, se protraiu no tempo, trespassando os séculos sem uma resposta definitiva. Trata-se do episódio que envolveu Bárbara Pereira de Alencar e o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha (Silva Peixoto) num suposto romance.
Imagem idealizada de Bárbara de Alencar.

Este evento já foi abordado por vários pesquisadores e historiadores, que sempre se posicionaram ferrenhamente em um dos lados desta trincheira. Alguns defenderam que D. Bárbara de Alencar teria sido vítima de um esquema difamatório originado pela maledicência de seus inimigos; outros são veementes em afirmar que Dona Bárbara, mesmo sendo casada com o português José Gonçalves dos Santos, foi amante do vigário do Crato, o padre Saldanha.
Mas qual dessas duas opiniões merece maior crédito?
A resposta será difícil, porque as evidências até hoje conhecidas são mínimas para afirmar com exatidão a ocorrência de tal enlace, mas, por outro lado, também não são suficientes para negar o referido. Daí, qual a melhor solução e que importância tem um evento, aparentemente, tão insignificante como este?
Tentando solucionar o problema, será feita uma exposição sistematizada de todos os informes que açambarcam o tema, isto para podermos alcançar melhor nível de compreensão sobre o fato e, a partir disso, um julgamento mais equilibrado.
Os principais autores e seus argumentos são os seguintes:

A Controvérsia

         Atualmente, a verdade sobre o envolvimento amoroso de Bárbara Pereira de Alencar com o padre Miguel Carlos da Silva Saldanha se tornou algo controverso nas fontes que tratam do assunto, pois, enquanto algumas afirmam que Bárbara foi amásia do padre Saldanha, outras negam a ocorrência do referido evento. 
Os registros até agora encontrados sobre o tal namoro são muito antigos, e desde o ano de 1817, à época da Revolução Pernambucana. As autoridades e os inimigos dos patriotas de 1817 afirmaram abertamente que D. Bárbara e o padre Saldanha eram amantes, o que também fora adotado pelos antigos cronistas, como João Brígido e Pedro Théberge, os quais puderam conviver com alguns dos personagens contemporâneos do fato mencionado.
Contudo, também houve quem, além de negar o ocorrido, defendesse a honra da matriarca alencarina, mesmo que em réplicas apaixonadas, à guisa de autodefesa ao orgulho do vetusto e poderoso clã sertanejo.
Entre os que afirmam a veracidade do enlace de Bárbara com o dito padre estão o ex-governador da Capitania do CE Manoel Ignácio de Sampaio, padre Francisco Gonçalves Martins, George Gardner, João Brígido dos Santos e Pedro Thebérge.
Negando a existência do romance entre Bárbara e o padre Saldanha encontram-se: Pedro Jaime de Alencar, José Carvalho, Ruth Alencar, J. C. Alencar Araripe e o padre Antônio Gomes de Araújo.
Neste caso, por óbvio, não sendo possível obter a rainha das provas, ou seja, a confissão dos supostos amantes, nos resta apenas averiguar elementos que sejam capazes de levar a uma conclusão lúcida, para tanto, confrontando os diferentes discursos que pairam em trono deste evento.  

O Primeiro e o Principal Difamador de Bárbara de Alencar

         Depois do perdão de 06 de fevereiro de 1818 (por Aviso de 02 de outubro de 1820), Bárbara Pereira de Alencar foi libertada do cárcere na Bahia no dia 17 de novembro de 1820, e retornou ao Cariri. Porém, seus bens haviam sido sequestrados pela Coroa Portuguesa e uma parte de seus sítios foram leiloados, ou melhor, foram à hasta pública.
         Um desses sítios, o Pontal, onde residira o padre Saldanha, bem próximo ao Sítio Pau Seco, bucólica residência de Bárbara, fora adquirido em hasta pública pelo padre Francisco Gonçalves Martins, o que culminou numa disputa judicial entre o adquirente e Bárbara de Alencar. Ressalte-se que a animosidade entre tais contendores existia desde o movimento de 1817, como será exposto.
         O padre Martins era baiano, natural de Santo Amaro, e neste lugar havia feito parte da Ordem dos Carmelitas Calçados com o nome Frei Francisco de São José, contudo, veio a se afastar da dita ordem religiosa.
Em 1817, o padre Francisco Gonçalves Martins já era um homem maduro, com 43 anos de idade, havendo uma interessante notícia de sua compleição física na data de 1824, quando já possuía 50 anos de idade, nos seguintes termos:  de estatura ordinária, corpo magro, rosto descarnado, olhos grandes e pardos, com sobrancelhas grossas, nariz afilado, boca ordinária, lábios grossos e possuindo todos os dentes da frente. 
O tal sacerdote mantinha relações estreitas com os magnatas da época, pois, além de ser amigo e partidário de um dos descendentes do Caramurú (Diogo Álvares Correia) em terras caririenses, o coronel Leandro Bezerra Monteiro, também fora procurador de um parente deste, Antônio Joaquim Pires, o derradeiro senhor da poderosa Casa da Torre, principal sede da riquíssima família baiana dos Garcia d’Ávila.
Quando da Revolução de 1817 no Cariri, o padre Martins foi designado por seu correligionário, o coronel Leandro Bezerra Monteiro, para ir ao engenho do capitão-mor José Pereira Filgueiras no intento de trazê-lo com palavras ao grêmio do partido realista, o que serve para demonstrar um pouco do fervor do padre pela monarquia e pela elite direitista da época.
 Pelo exposto, o contexto ganha maior transparência, pois é patente que, já havendo a rivalidade no plano político entre o padre e a família Alencar (republicanos x monarquistas), a arrematação do Sítio Pontal serviu de estopim para mais um embate direto entre os dois partidos. Ademais, o padre Martins acusou o Vigário Miguel Carlos da Silva Saldanha e Tristão Gonçalves Pereira de Alencar de terem ordenado um ataque ao Sítio Pontal, à noite e com homens armados, certamente na tentativa de reaver as ditas terras por meio da força.
Não bastasse tantos desdouros, durante as guerras de Independência do Brasil, em que os caririenses estiveram envolvidos até 1823, a família Alencar, formando umas das principais lideranças desse movimento, se rivalizou novamente com o padre Francisco Gonçalves Martins que, ao lado de outros figurões da época, se posicionou contra à Independência, e, quando esta foi finalmente alcançada, terminou sendo preso e remetido às enxovias do litoral pernambucano:

Mandada abrir devassa pelos dois chefes da Expedição (José Pereira Filgueiras e Tristão de Alencar Araripe), o padre Francisco Gonçalves Martins foi preso sob a acusação de conspirar contra a causa do Brasil na companhia de alguns outros. Como juiz e escrivão no processo instaurado contra o sacerdote, figuraram respectivamente o citado Francisco Pereira Maia e José Pedro Nolasco de Carvalho, primo de Tristão e sobrinho de Bárbara de Alencar. Julgado e condenado, o réu padre Francisco Gonçalves Martins foi mandado em cadeias à justiça de Recife, acompanhado dum ofício de Tristão, membro do Governo desta província. De sua prisão em recife, o réu apelou para o Supremo Tribunal de Justiça de Pernambuco, ao qual estava subordinada a Justiça do Ceará. O agravo do padre Francisco Gonçalves Martins, escrito de seu cárcere, constituiu, ao mesmo tempo, um libelo contra os seus inimigos políticos e pessoais de Crato, os quais o haviam levado à prisão e condenação.

Dessa forma, o padre Martins não economizou tinta para fazer sua defesa frente às acusações dos seus inimigos, os quais foram atacados mordazmente, tecendo, sem rodeios, que Bárbara de Alencar era “manceba teúda e manteúda” do Vigário do Crato, isto é, do padre Miguel Carlos da Silva Saldanha.  
Um dos netos de Bárbara de Alencar, filho natural de Tristão de Alencar Araripe, Pedro Jaime, corroborou os motivos que teriam levado à dita difamação, entretanto, como era de se esperar, defende a honra de sua avó, negando que tenha havido o romance:

Dona Bárbara, que perdera todos os bens materiais no confisco da contrarrevolução, percebia agora, manchado pela maledicência, um bem maior: a sua honra de mulher honesta, mãe de família exemplar. Segundo o mísero e infame sacerdote, Padre Martins, que havia arrematado em hasta pública o Sítio Pontal, de propriedade de Dona Bárbara, ao ver-se envolvido em demanda judicial, em torno do dito sítio, começou a fomentar, por vingança, uma campanha de injúria e difamação em torno da honra da veneranda senhora. Passou a divulgar que José Martiniano, o filho mais novo de Dona Bárbara, não seria de seu marido, o comerciante português José Gonçalves dos Santos, mas sim do Vigário do Crato, Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha. Essa infâmia precisava ser rebatida com veemência, por não ter o menor cabimento.

            Até hoje, o dito padre tem carregado a culpa de ser o primeiro propagador da referida infâmia contra D. Bárbara Pereira de Alencar. Todavia, encontramos outro indivíduo, em tempo bastante remoto, afirmando por escrito que esta matrona era amásia do padre Saldanha, e, ao que tudo indica, em data anterior ao labéu do padre Francisco Gonçalves Martins.
Nos extratos do Ofício nº 11, do dia 13 de agosto de 1817, do governador do Ceará Manoel Ignácio de Sampaio, enviado a um dos desembargadores responsáveis pela apuração do levante de 1817, consta uma afirmação categórica, certamente a mais antiga que se tem notícia acerca do suposto namoro de Bárbara de Alencar e da perfilhação de seu filho caçula, cuja paternidade é atribuída ao padre Saldanha:

Nas cadeias da fortaleza daquela vila se acham presos à ordem de Sua Majestade, Maximiano Gomes da Sila, espião e propagador das doutrinas de Carvalho, o Padre Francisco Manuel de Barros , cujo crime consta do documento nº 28, Gregório José de Lemos, e Antônio da Costa Vilar, cujo crime consta dos documentos nos 29 e 30, além dêste os 8 indivíduos que mais figuraram na revolta do Crato que são o Padre José Martiniano de Alencar, seu irmão Tristão Gonçalves Pereira de Alencar, seu irmão o Padre Carlos Pereira de Alencar, sua mãe Bárbara Pereira de Alencar, o vigário do Crato o Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha, pai do padre José Martiniano, Francisco Joaquim de Gouvêa e Inácio Tavares Benevides, parentes daquele Alencar, e o Padre Frei Francisco de Santa Ana Pessoa, parente do infame João Ribeiro Pessoa de Melo.       
    
            Como se percebe, os boatos quanto à infâmia de Bárbara de Alencar já circulavam, por escrito, desde agosto de 1817, o que leva a crer que o padre Martins não foi o primeiro a publicar em letras as notas difamatórias, e, pelo visto, era ele apenas um dos principais a fazer a dita imputação contra a honra da referida matriarca.  

CONTINUA!
NOTA: TODOS OS DADOS AQUI APRESENTADOS SÃO RESPALDADOS EM FONTES ESCRITAS, CONTUDO, ESTAS SÓ SERÃO REVELADAS QUANDO DA PUBLICAÇÃO EM LIVRO DE NOSSA AUTORIA.


O CAPITÃO-MOR DA REAL VILA DO CRATO (CE): SUA HISTÓRIA EM VERSO E REVERSO

O CAPITÃO-MOR DA REAL VILA DO CRATO (CE): SUA   HISTÓRIA EM VERSO E REVERSO

                                                  Autora: Maria Cecília Santos Carvalho
                                                   Postado por: Heitor Feitosa Macêdo

Quantas vezes já ouvimos a expressão: Ninguém é insubstituível?
Acredito que somos todos insubstituíveis, visto que ninguém pode fazer o que o outro faz da mesma forma.


            Somos todos produto da nossa família, do nosso meio, das nossas vivências; trazemos, em nosso âmago, características, reações e comportamentos únicos, os quais constroem a nossa história; e é por essa nossa história, boa ou ruim, que poderemos ser ou não lembrados através dos tempos.
            Partindo deste ponto de vista, entro no tema a que me propus, contando um pouco da história militar e política do brasileiro José Pereira Filgueiras, eleito para o posto de capitão-mor da Real Vila do Crato (CE), em 7 de maio de 1799.
            No dia 3 de maio celebra-se a proclamação da República no Crato. Com duração de apenas oito dias, o levante republicano iniciado nesta referida data de 3 de maio e considerado por muitos historiadores pouco planejado e repentino, tanto no Ceará quanto em Pernambuco, sua capitania de origem, foi abortado pelas tropas legalistas no dia 11 deste mesmo mês, por ordem do governador do Ceará, Manuel Ignacio de Sampaio.
            Presos os cabeças do movimento e seus principais adeptos, iniciou-se a terrível Devassa, com centenas de patriotas processados, alguns executados sumariamente, outros assassinados, sendo que muitos foram exilados ou perderam suas vidas nas prisões.
            Para abrandar os ânimos nas festividades de coroação de D. João VI, em 6 de fevereiro de 1818, foi expedida uma Carta Régia que ordenou o fim da Devassa e suspendeu ordens de prisão após essa data, perdoando os réus, com exceção dos comandantes das rebeliões, que continuaram nas prisões e só foram libertados em 1821.
            Após este pequeno resumo da Revolução Pernambucana no Ceará, mais especificamente, acontecida na Vila do Crato, suponhamos que o capitão-mor José Pereira Filgueiras tivesse apoiado o movimento, mesmo sem entender com maior profundidade o plano dos inconfidentes. Será que as forças realistas das outras vilas sob sua jurisdição também apoiariam o movimento levantado tão repentinamente como o que aconteceu na Vila do Crato? Estariam todas essas vilas e seus povos prontos para suportar suas consequências?
            Provavelmente, sem um planejamento eficiente, todas essas vilas teriam sido subjugadas pelas forças legalistas e, com certeza, o governador Sampaio não teria como perdoar seu comandado, o capitão-mor José Pereira Filgueiras, pelo crime de alta traição à Casa de Bragança; ele também teria sido preso e responsabilizado como um dos cabeças da malfadada revolução eclodida no Crato.
            Consideremos: se o governo cearense tivesse criado uma comissão militar para julgar os patriotas republicanos, certamente, os chefes do movimento teriam sido executados ainda mesmo em Fortaleza.
            Vejamos o que fez D. Marcos de Noronha e Brito, o Conde de Arcos, governador da Bahia, que, por decisão própria e levado por seu cruel autoritarismo, sem nem mesmo participá-la ao Rei, nomeou comissão militar, mandando para o patíbulo, sem prova comprovada e sem julgamento, os chefes patriotas Domingos José Martins, José Luiz de Mendonça e Miguel Joaquim de Almeida e Castro, o intemerato Padre Miguelinho.
            Avançando mais um pouco no tempo, podemos ainda indagar: Caso o capitão-mor José Pereira Filgueiras tivesse sido preso, condenado e provavelmente executado junto aos outros líderes do levante de 1817, quem estaria habilitado, na então província do Ceará, a chefiar a expedição em socorro aos independentistas do Piauí e Maranhão, em 1823? Quem teria oferecido sua vida e coragem para comandar os confederados republicanos cearenses durante os terríveis combates da Confederação do Equador, em 1824? Qual seria a versão da História do Ceará contada até os dias de hoje, motivo de honra para seus cidadãos?
            Não se pode deixar de dar razão ao Dr. Irineu Pinheiro, um dos biógrafos mais legítimos do capitão-mor do Crato, quando em sua tese, Um Baiano a Serviço do Ceará e do Brasil, ¹ questiona: Por que nada se fez (no Ceará), no primeiro quartel do século passado, sem a colaboração de Pereira Filgueiras, ou melhor, sem sua ostensiva chefia?
            Concluindo estas breves considerações, pensemos bem antes de julgar e condenar o capitão-mor José Pereira Filgueiras, que, embora monarquista, levantou exércitos contra a opressão absolutista e ofereceu sua vida visando ao bem da nação brasileira, terra onde nasceu e que tanto amou.


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¹  PINHEIRO, Irineu. Um Baiano a Serviço do Ceará e do Brasil. Revista do Instituto do Ceará  (RIC), Fortaleza (CE), tomo LXV, ano 1951, pp. 5-27.
                            

segunda-feira, 27 de março de 2017

Quem disse que o Ceará não participou da Revolução Pernambucana de 1817?

Quem disse que o Ceará não participou da Revolução Pernambucana de 1817?                                                                                                                                                                                                                  
                                                                         Heitor Feitosa Macêdo

         No dia 03 de maio de 2017 completam-se 200 anos do dia em que a República e a Independência foram proclamadas no Cariri cearense, sul do Estado do Ceará, antecipando a oficialização destas instituições em todo o Brasil. Contudo, há quem negue a adesão do território cearense à Revolução de 1817. 
        
Ouvidor do CE João Antônio Rodrigues de Carvalho.
No dia 6 de março de 1817, os revolucionários (liberais) pernambucanos de Recife puseram em prática os planos que arquitetavam há quase duas décadas, pois, dois anos antes da Insurreição dos Suassuna, ocorrida em 1801, já disseminavam na surdina princípios político-filosóficos iluministas.
         No final do século XVIII, também chamado de século das luzes, os princípios da corrente filosófica iluminista foram trazidos da Europa ao Brasil, onde desencadearam movimentos que, embora breves, foram bastante fecundos, gravando nos espíritos dos brasileiros ideias até então consideradas subversivas, como a igualdade, liberdade e fraternidade.
         O primeiro esboço dessas novas ideias eclodiu no interior do continente, na Vila Rica, hoje, Ouro Preto/MG. No entanto, tal movimento foi rapidamente abafado, não dando tempo para que fosse instalado um Governo Liberal. Mesmo assim, constituiu uma revolução no campo das ideias.
         Coisa semelhante ocorreu na Insurreição ou Inconfidência dos Suassuna, desta vez, em Pernambuco, onde um ramo da aristocrática família Cavalcante de Albuquerque, além de tomar o nome nativista de um mamífero do continente Americano (Suassuna ou Suaçuna = veado escuro), abraçou o pensamento que, naquele instante, revolvia a Europa e a América. Porém, tendo sido delatados por um amigo íntimo, os irmãos Suaçuna foram presos antes mesmo de deflagrarem qualquer esboço de efetiva rebeldia, todavia, como nada ficou provado contra eles, logo foram soltos e, mais tarde, puderam agir amplamente na Revolução de 1817 que, na capital pernambucana, Recife, durou 75 dias, de 6 de março a 19 de maio do mesmo ano. Mas, e no Ceará?
         Na maior parte da então província do Ceará, a revolução foi desarticulada graças à ação do precavido governador Manoel Ignácio de Sampaio, que mandou prender o seu principal articulador, o ouvidor-geral do Ceará João Antônio Rodrigues de Carvalho. No entanto, a Revolução rompeu no sul desta província, no Cariri, onde residiam alguns prosélitos do liberalismo.
         Os líderes revolucionários de Recife enviaram o padre José Martiniano de Alencar para deflagrar o movimento no Cariri. Assim, no dia 3 de maio de 1817, na Vila do Crato, arrodeado de cabras armados, o padre Alencar, mais tarde senador do Império, proclamou a República e a Independência do pequeno lugarejo. Depois, no dia 5 do mesmo mês e ano, foi até a vila de Jardim e fez o mesmo com o apoio de seu tio. Contudo, no dia 11 de maio veio a contrarrevolução e facilmente desbaratou aquela efêmera República de 8 dias. É sobeja a historiografia acerca da participação do Crato e Jardim no referido movimento, entretanto, há quem a negue!
         O respeitabilíssimo professor da Universidade Federal do Ceará, Paulo Bonavides, preclaro doutrinador do Direito, principalmente da Teoria do Estado, nega que o Ceará tenha participado da Revolução Pernambucana de 1817, nos seguintes termos:

Do ponto de vista estritamente político e constitucional, a Revolução de 1817 foi, nos marcos do constitucionalismo luso-brasileiro, importantíssimo passo avante. Se a cotejarmos com o passado, verificaremos que ela produziu no Brasil um projeto de governo constitucional bem superior à Súplica dos portugueses a Napoleão, em que estes rogavam ao Rei invasor a outorga de uma Constituição (...). Contrariando a expectativa de seus autores, a ação revolucionária não se alastrou pelas demais províncias, à exceção da Paraíba, e do Rio Grande do Norte, que não tardaram, todavia, em desertar a causa. Outra província, simpática a Pernambuco e ao pensamento liberal, a saber, o Ceará, não se levantou, apesar do empenho dos chefes republicanos em lhe obter a adesão. O mesmo aconteceu com a Bahia, poderosa base e ponto de partida da ação que veio bem cedo exterminar a revolução.[1]

         O texto deixa explicito que, na opinião de Paulo Bonavides, o Ceará “não se levantou” em favor dos princípios da Revolução de 1817, equivalendo dizer que no território cearense não houve levante dos liberais contra o absolutismo monárquico. É uma pena que o dito autor não fundamente essa sua afirmativa, pois a participação do Cariri cearense na dita Revolução é inconteste, sendo um fato comprovado pela antiga tradição oral, por extensa bibliografia e por centenas de documentos manuscritos.
         Ao conjugar o verbo “errar” no presente do indicativo (eu erro, tu erras, ele erra...), é preciso ressaltar que a opinião deste intelectual não diminui o seu valor nem a importância de seu trabalho, ao passo que também não tem o condão de mudar o passado, principalmente no que diz respeito a essa lúdica cena vivida no coração do Nordeste, de uma República Sertaneja Caririense.
         Resumindo, ação e pensamento não se apagam com letras, pois estas chamas queimam que nem fogo de monturo!






[1] BONAVIDES, Paulo, Teoria Geral do Estado, 10ª Ed. Revista e aumentada, São Paulo – SP, Malheiros, 2015, p. 85 e 86.