Páginas

sexta-feira, 9 de maio de 2014

História do Cariri: Crianças e Adolescentes

História do Cariri: Crianças e Adolescentes
                                                                       
                                                                           Heitor Feitosa Macêdo
        
         O Cariri cearense, antigamente chamado de Cariri de Dentro ou Cariris Novos, para distingui-lo do Cariri Paraibano, fica ao Sul do Estado do Ceará, estando sua história intimamente ligada à trajetória das crianças e adolescentes, no que concerne a evolução de seus direitos. 
        
Crianças do Caldeirão, Crato/CE.
            No interior da Capitania do Ceará, a ocupação deu-se posteriormente à do litoral, principalmente no Cariri. Levas de portugueses, paraibanos, maranhenses, baianos, pernambucanos, sergipanos, alagoanos, norte-rio-grandenses, e até mesmo os próprios cearenses alocados em outras paragens, migraram para a fecunda terra, repleta de mananciais.[1] Todos esses indivíduos traziam consigo alguns poucos negros, e bastantes índios que os fortificavam e os ciceroneavam.
         Curiosamente, conta a tradição que a descoberta do Cariri deu-se a partir do sequestro de um "menor", negro, o qual era escravo de um potentado ligado à Casa da Torre (propriedade dos d’Ávila, descendentes do famoso Caramuru). Entre tais índios cresceu o dito escravo, até que retornou à Bahía em busca de auxílio para os aborígenes, deflagrados em cruenta guerra.[2] Desta forma, esse "menino" fora o responsável por ensinar aos bandeirantes o caminho até o Cariri cearense.
         Há época da chegada dos colonizadores, no final do século XVII e início do século XVIII, o Cariri era palco de constantes conflitos indígenas, havendo destaque para os Cariris, já radicados naquela localidade há muitos anos, em razão do que combatiam os invasores: Cariús, Calabaças e Inhamuns. E, nesta contenda, as crianças não escaparam a cólera dos seus antagonistas. Sobre este acontecimento registrou a antiquíssima tradição oral que:

Horrível carnificina fizeram os Cariris em seus inimigos, a  ponto  de comprazerem     de untarem-se com os miolos das crianças, cujas cabeças quebravam  contra  os paus,  pegando-as  pelas  pernas.  Algumas caboclas moças foram  presas,  levadas  para  o  acampamento e depois atadas umas às outras e precipitadas na Cachoeira.[3]
            A "Cachoeira" mencionada é a de Missão Velha, primeira localidade onde esses índios foram aldeados. Posteriormente, mais dois aldeamentos foram criados, o de Missão Nova, e outro por nome de Missão do Miranda[4], onde frades capuchinos administravam os dogmas da fé católica, principalmente para as crianças, por serem menos arredias. Com o passar dos anos, este último aldeamento ganhou foros de povoamento, originando a Vila Real do Crato, depois cidade do Crato. Não foi à toa que, em 1838, o inglês George Gardner descreveu este aglomerado nos seguintes termos: "Toda a população da Vila chega a dois mil habitantes, na maioria todos índios ou mestiços que deles descendem". 
         Nesse interregno, tal localidade havia atraído as atenções de toda a região, principalmente por conta das idéias que nela haviam eclodido. Alguns de seus habitantes vertiam de entusiasmo revolucionário, enquanto outros, não menos empedernidos em suas convicções, cuidavam em manter a velha ordem. Desta feita o povo do Crato tomou parte na revolução pernambucana de 1817; voltando a pegar em armas pela independência do Brasil, em 1822; como se não bastasse, em 1824 participou ativamente da Confederação do Equador; além do levante armado de 1832, a "Guerra do Pinto". Decerto, essa parte do "sertão" cearense, estava habitada por gente denodada e pensante, em pé de igualdade com os principais centros urbanos do país.
         Apesar de o esclarecimento intelectual permear por entre aquela gente, não foi o bastante para extirpar alguns maus tratos que as suas crianças sofriam, inclusive nas escolas. Aliás, esse era o método usual em todo país. E, na época em que a província encontrava-se sob o governo do ex-revolucionário cratense[5], José Martiniano de Alencar, o castigo nas escolas foi regulamentado por iniciativa da Assembleia Provincial, em 20/09/1836. Deliberou-se que os alunos poderiam ser castigados com palmatoadas, desde que não excedessem a quatro por dia.[6] Mas isso não foi suficiente, pois os "bolos legais" multiplicavam-se conforme o deleite da autoridade em sala.
         Os alunos do Liceu, em Fortaleza/CE, foram menos afortunados, por conta do Regulamento nº 19 de 4 de Junho de 1845, que trazia o título "Da polícia das aulas", permitindo ao professor da primeira cadeira castigar os seus pupilos com pancadas de palmatória, de no máximo doze. Toda essa severidade seria temporariamente extinta em 24 de dezembro de 1849, quando o presidente da Província do Ceará sancionou uma lei que punha fim aos castigos físicos nas escolas. Mas isto causou descontentamento nos pedagogos da época, forçando a Assembleia Legislativa a restabelecer o castigo do bolo, desde que não ultrapassasse de seis ao dia.[7]
         Para ilustrar o malefício desse sádico método de ensino, frise-se o que ocorrera em Juazeiro, no ano de 1858, quando o professor do primário, Padre Antônio de Almeida, foi acusado de ter quebrado com pancadas de palmatória as cabeças de alguns dos seus alunos. No entanto, esse tratamento indigno dado às crianças e adolescentes não se restringia às escolas, como acentua o historiador Irineu Pinheiro:[8] "Nos próprios lares não se tratavam com a doçura que êles mereciam. Proibindo-lhes participar da conversa das pessoas grandes. Ouvissem caladinhos, não fizessem a menor pergunta. Isso veio até o comêço deste século".
         Desde muito cedo, o Cariri, em especial o Crato, cultivou o ensino. Inúmeras foram as escolas que surgiram ali. Merecendo destaque para a criação do Seminário São José, em meados de 1875[9], para o qual convergiram meninos de todas as regiões circunvizinhas. Neste templo religioso, de culto ao conhecimento, a didática mantinha-se invariavelmente truculenta: "Punia-se, corporal e moralmente, os alunos faltosos com palmatoadas algumas vezes, outras, obrigando-os a passar os silêncios de joelhos, a ficar encostados a uma das colunas do pátio interno durante os recreios, não lhes sendo permitido sair nos feriados, etc".[10]
         No entanto, nem tudo era de todo ruim, pois se a educação impingia maus tratos, também trazia benefícios, como foi o caso das casas de caridade instaladas pelo Padre Antônio José Pereira Ibiapina.
         O Pe. Ibiapina era filho de Miguel Francisco Pereira, membro de uma das principais famílias de Sobral/CE. Os avós paternos do Padre Ibiapina desejavam que o genitor deste seguisse carreira religiosa, contudo, Miguel, seminarista em Olinda/PE, optou pelo casamento com Thereza Maria de Jesus, sendo, por isso, excluído do desfrute dos bens de seus pais, deserdado, o que o levou a seguir para a povoação de Ibiapina, no alto da Serra da Ibiapaba. Esta pequena povoação era um aldeamento de índios tabajaras, edificado pelos jesuítas, lugar em que veio à luz o terceiro filho do casal, o Pe. Ibiapina, em 05 de agosto de 1806. [11]
         Durante a infância e parte da adolescência, acompanhou o itinerário de seus pais, morando em várias cidades, como Icó, Crato, Fortaleza e, em Olinda, onde ingressou no Seminário.[12] Mas findou perdendo prematuramente a mãe, enquanto o pai foi executado em Fortaleza, por ter se envolvido no movimento republicano de 1824. Para piorar, seu irmão mais velho havia sido preso em Fernando de Noronha, onde falecera por afogamento.[13] Mesmo assim, Ibiapina retomou os estudos, e na Academia de Pernambuco alcançou o título de bacharel em direito, no ano de 1832. Daí em diante, veio a exercer várias funções notórias, como Chefe de Polícia, Deputado e Juiz de Direito.[14] Porém, por desgosto com a justiça, abandonou esta última função para abraçar a vida de causídico, a qual desempenhou até o ano de 1850.[15]
         Já maduro, contando com 47 anos, em 1853, Ibiapina volta-se à vida religiosa, alcançando o presbiterato, fato o fez mudar de nome, passando a se chamar José Antônio de Maria Ibiapina.[16] Então, peregrinando pelos sertões do Nordeste, municiado de impressionante eloquência, realizou construções em favor dos pobres, a partir de capital privado, adquirido através de doações. As benfeitorias consistiam em açudes, hospitais e cemitérios. Mas o seu maior legado foi a criação das Casas de Caridade que, dentre as suas finalidades, destacava-se a de abrigar e educar as meninas órfãs. Essa empreitada tinha como um de seus objetivos combater o abandono, os maus tratos e a prostituição infantil, bastante comum, principalmente em anos de miséria.
         O contexto enfrentado pelo abnegado advogado dos pobres era o de uma época em que a exploração humana estava respaldada na oficialidade, e, não raramente, alguns indivíduos abusavam desse direito. Pelas leis e costumes daquele período, o trabalho escravo restringia-se aos africanos e seus descendentes, contudo, houve quem dilatasse essa condição, inclusive sexualmente, cativando os libertos, não escapando as crianças e adolescentes, tudo isto, mesmo depois da abolição, conforme relato de Eduardo Campos[17]:

Sucederia assim  até mesmo depois de declarados livres os escravos no Ceará (25 de março de 1884). Nesse ano, recalcitrantes continuavam alguns proprietários agrícolas inflingindo maltratos físicos a pessoas mantidas a seu serviço, obrigando-as a executarem trabalhos acima de sua capacidade normal. Pela Constituição de 17 de dezembro de 1855 chamava-se a atenção do presidente da Província "para socorrer umas pobres donzelas, orphãs desvalidas, uma d'ellas com educação primaria e de familia, mocinhas que tiveram o infortunio de com a secca ficarem sem paes e  serem   apanhadas  pelo   portuguez José Antônio de Medeiros,  o qual traz ditas orphãs com a maior pressão possível. Servindo de creadas  de tratar burros, carqueijar  sosinhas de um para  o  outro  sitio, e tudo quanto é  serviço grosseiro, expostas à prostituição...[18]
           
      No Cariri, Missão Velha foi o primeiro lugar escolhido por ibiapina para a instalação de uma Casa de Caridade, inaugurada em 1865. Depois, em 1868 ergueu a Casa de Caridade do Crato, e inaugurada em 1869, neste mesmo ano foram fundadas outras duas, em Barbalha e Milagres.
         Todas ficaram sob os auspícios de gente da terra e regidas por um estatuto que preconizava em seu artigo 1º: "tem dois fins as Casas de Caridade desta Instituição, e vêm a ser a educação moral e o trabalho". Medida bastante previdente, já que a maioria das crianças do sexo feminino era excluída dos estudos, continuando no analfabetismo o resto da vida. O art. 2º tratava da faixa etária das crianças que seriam acolhidas: "recebem-se nestas Casas as órfãs de 5 a 9 anos, sendo pobre e desvalidas". O terceiro artigo versava sobre as atividades ensinadas: "A primeira educação das órfãs é ler, escrever, contar, aprender a doutrina cristã e cozer. Finda esta educação, entrarão nos trabalhos manuais como tecer panos, fiar nos engenhos, fazer sapatos e qualquer gênero de indústria que a casa tenha adotado". Além de educar e profissionalizar as meninas acolhidas, também procurava dar-lhes uma família, a começar por um cônjuge: "Logo que as órfãs tenham completado a primeira e a segunda educação, estando em idade conveniente, serão casadas à custa da Caridade".
         Nessas Casas, a "roda dos enjeitados"[19] (roda dos expostos) foi peça indispensável, pois as crianças indesejadas pelos pais poderiam ser postas aos cuidados das irmãs de caridade, evitando o abandono cruel e outros prejuízos às crianças, como o infanticídio e o aborto. Essa roda era um método utilizado na Europa desde o final do século XII, e parece ter chegado no Brasil em 1734, na Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Funcionava da seguinte forma:

A  Roda  era  formada  de  uma  caixa  cilíndrica  giratória  com  abertura  que coubesse um  recém-nascido  e  coincidisse  com  outra  abertura  feita  na  parede ou muro externo da casa.  Dessa  forma  a  criança  era  colocada  pelo  lado  de fora e,           girando o cilindro, estava  acolhida  pelas pessoas de dentro da casa, permanecendo no anonimato  quem  a  abandonou.  Uma  campainha anunciava a chegada do novo morador da casa![20] 
            
       Cabe salientar que a rejeição de menores não era coisa nova, muito menos o acolhimento dos abandonados, e, mesmo depois de aventarem-se essas instituições de caridade, o amparo por parte de outras famílias continuou paralelamente, representando as antigas formas de adoção, “adoção a brasileira”. Isto pode ser facilmente atestado pela leitura dos velhos assentamentos de batizados e casamentos das Igrejas Católicas.[21] Ressalte-se que a mãe da heroína Bárbara de Alencar também foi adotada, ou melhor, exposta, como se dizia naquele tempo, no ano de 1760.[22]
         Infelizmente, tais medidas não foram suficientes para eliminar de vez os maus tratos feitos às crianças no Cariri. Esta região fora maculada, em sua história, pela ação funesta das classes dominantes, no episódio ocorrido no Caldeirão do beato[23] José Lourenço, que, tendo formado uma comunidade baseada na distribuição igualitária da produção agrícola e na propriedade comum, atraiu a antipatia dos potentados circunvizinhos, por conta da progressiva escassez da mão de obra barata. Além disso, a Igreja Católica, representada pela Ordem dos Salesianos, declarou-se dona do pedaço de terra em que havia se instalado a comunidade, já que a propriedade de tal gleba pertencia ao Pe. Cícero, o qual havia cedido a posse da mesma à comunidade liderada pelo beato. A questão ganhou gravidade quando o exército e parte da polícia estadual atacaram a comunidade.[24]
         O alvo, composto por sertanejos pobres e monges inofensivos, também era formado por inúmeras crianças, que não foram poupadas no embate que se seguiu. Para atestar essa atrocidade, após o massacre, 16 crânios de crianças foram encontrados em um cipó, entre a vegetação ao derredor do sítio Caldeirão.[25]
         Desta feita, no Cariri, início do século XX, completa-se o ciclo de conquistas e regressos quanto aos direitos da criança e do adolescente. Pois, desde o início de sua ocupação, experimentou a mistura de raças e costumes, ficando sua história a confundir-se com a sorte de suas crianças. Seguindo um modelo mais amplo, universal, no qual os menores nem sempre ficaram isentos de maus tratos, apesar das garantias conquistadas de fato e de direito ao longo dos tempos.  




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Araripe, Tristão de Alencar, História da Província do Ceará: desde os tempos primitivos até 1850, 2ª Edição, Fortaleza, Tipografia Minerva, 1958.

Araújo, Padre Antônio Gomes de, A Cidade de Frei Carlos, Crato/CE, Faculdade de Filosofia do Crato, 1971.

Brígido, João, Apontamentos para a História do Cariri, Fortaleza, Expressão Gráfica Editora Ltda, 2007.

Campos, Eduardo, Revelações da Condição de Vida dos Cativos do Ceará, Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1984.

Carvalho, Ernando Luiz Texeira, A Missão Ibiapina, Passo Fundo, Editora Berthier, 2008.

Cordeiro, Domingos Sávio de Almeida, Um Beato Líder: Narrativas Memoráveis do Caldeirão, Fortaleza, Imprensa Universitária, 2004.

Farias Filho, Waldemar Arraes de Farias, Crato: Evolução Urbana e Arquitetura (1740-1960), Fortaleza, A Província Edições, 2007.

Feitosa, Aécio, Casamentos Celebrados nas Capelas, Igrejas e Fazendas dos Inhamuns (1756 - 1801), Fortaleza, 2009.

Macedo, Joaryvar, Temas Históricos Regionais, Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1986.

Moreira, José Roberto de Alencar, Vida e Bravura: Origens e Genealogia da Família Alencar, Brasília, CERFA, 2005.

Pinheiro, Irineu, O Cariri: Seu Descobrimento, Povoamento, Costumes, Fortaleza, FWA, 2009.
______________, Efemérides do Cariri, Imprensa Universitária do Ceará, 19



[1] Macedo, Joaryvar, Temas Históricos Regionais, Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1986, p.99.
[2] Brígido, João, Apontamentos para a História do Cariri, Fortaleza, Expressão Gráfica Editora Ltda, 2007, p. 11. 
[3] Ibidem, op. cit., p. 13.
[4] Araripe, Tristão de Alencar, História da Província do Ceará: desde os tempos primitivos até 1850, 2ª Edição, Fortaleza, Tipografia Minerva, 1958, p. 57.
[5] Moreira, José Roberto de Alencar, Vida e Bravura: Origens e Genealogia da Família Alencar, Brasília, CERFA, 2005, p. 212.
[6] Pinheiro, Irineu, O Cariri: Seu Descobrimento, Povoamento, Costumes, Fortaleza, FWA, 2009, p. 168.
[7] Idem.
[8] Ibidem, op. cit., p. 169.
[9] Farias Filho, Waldemar Arraes de Farias, Crato: Evolução Urbana e Arquitetura (1740-1960), Fortaleza, A Província Edições, 2007, p. 116.
[10] Pinheiro, Op. cit., p. 167.
[11] Carvalho, Ernando Luiz Texeira, A Missão Ibiapina, Passo Fundo, Editora Berthier, 2008, p. 23-24.
[12] Op. cit., p. 26.
[13] Op. cit., p. 27.
[14] Op. cit., p. 28.
[15] Op. cit., p. 30.
[16] Op. cit., p. 33-34.
[17] A escravidão no Ceará foi abolida em 1884, por isso o título de "Terra da Luz".
[18] Campos, Eduardo, Revelações da Condição de Vida dos Cativos do Ceará, Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1984, p. 44.
[19] Pinheiro, op cit., p. 149.
[20] Carvalho, op cit., p. 52.
[21] Para exemplificar veja-se: "08/08/1763 - Casamento de Antônio Mateus da Silva Braga, exposto (sic) na casa do Capitão Cosme Ferreira da Silva, com Maria Lima Lopes, nascida em Santo Antão da Mata..." (Feitosa, Aécio, Casamentos Celebrados nas Capelas, Igrejas e Fazendas dos Inhamuns (1756 - 1801), Fortaleza, 2009, p. 51).
[22] Araújo, Padre Antônio Gomes de, A Cidade de Frei Carlos, Crato/CE, Faculdade de Filosofia do Crato, 1971, p. 54.
[23] "Ibiapina foi o precursor dos beatos no Nordeste" (Domingos Sávio de Almeida Cordeiro, 2004, p. 73).
[24] O ataque à comunidade do Caldeirão deu-se em dois momentos, primeiro em 11/07 de 1936, como registrou Irineu Pinheiro (Efemérides do Cariri, 1963, p. 218), e em 11/05 de 1937, momento da "chacina" (Cordeiro, 2004, p. 53).
[25] Cordeiro, op cit., p. 106.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

DOCUMENTOS INÉDITOS: V - Confirmação da Patente do Sargento-mor Leandro Custódio de Oliveira Castro

DOCUMENTOS INÉDITOS: V - Confirmação da Patente do Sargento-mor Leandro Custódio de Oliveira Castro
                                                                                             

                                                                                               Heitor Feitosa Macêdo
        
        
             O Sargento-mor Leandro Custódio de Oliveira Castro migrou para o Ceará no final do século XVIII, onde se alocou definitivamente, constituindo numerosa família e adentrando na vida militar, servindo como oficial nas chamadas Ordenanças.
         A oralidade é sobeja de historietas no que tange ao Leandro Custódio de Oliveira Castro, inclusive quanto a sua chegada aos sertões do Ceará, mais precisamente, nos Inhamuns, onde deixou rico folclore ao seu respeito.
         Leonardo Feitosa foi o primeiro a registrar, em letras, os contos narrados pela tradição. Um desses, interessantíssimo, refere-se à origem de Leandro. Assim, disse o “velho contador de histórias” que Leandro Custódio de Oliveira Castro, o primeiro desse nome, viera do Rio Grande do Norte para o Ceará, porque lá teria maculado a honra de uma parenta.
         Conta-se que o pecado cometido pelo “potiguar” teria sido o fato de ter engravidado uma prima, em desconformidade com as leis eclesiásticas, recusando-se a reparar o dano. A ofendida, Ana Tereza da Anunciada,[1] entregara seu corpo sob a falsa promessa de casamento, o qual foi esperado por algum tempo. Frequentemente, Ana Tereza ia até a cadeia onde Leandro cumpria pena, e perguntava-lhe se já resolvera casar, ao que o contumaz “deflorador” respondia “não”.
         Depois do nascimento da criança, ante as negativas de Leandro em ceder àquela obrigação, Ana Tereza voltava à sua casa insatisfeita, momento em que mirava o seu inocente filho, cantando:

Quero-te bem,
Quero-te ódio,
Por seres filho
De Leandro Custódio.[2]
            
      Algum tempo depois, Leandro resolvera casar-se com a prima, mas ela já havia mudado de ideia, recusando-o como marido. Na verdade, Ana Tereza possuía um gênio forte, de uma índole inquebrantável.
         Depois disso, veio Leandro bater no sertão cearense dos Inhamuns. Certamente a amizade ou o parentesco determinaram essa escolha, sendo o verdadeiro motivo ainda hoje ignorado.
         No seu novo domicílio, arranjou um casamento rentável, com uma noiva rica e literalmente “bem aparentada” (no sentido do parentesco). A nubente chamava-se Eufrásia Alves Feitosa, filha do Capitão José Alves Feitosa, dono da Fazenda Várzea da Onça.
         Na época, o costume era de que as mulheres contraíssem matrimônio ainda muito jovens, e, não raramente, casavam-se durante a fase da puberdade. Assim, a esposa de Leandro possuía, na data do enlace, catorze anos.[3] Diz o assentamento eclesiástico:

Aos vinte dias do mês de novembro do ano de oitenta e nove (1789) na capela do Cococi [...] receberam-se em casamento Leandro Custódio de Oliveira (Castro), natural da Freguesia de Igarassu, com D. Eufrásia Alves Feitosa, natural da Freguesia de Arneiroz [...] Manuel da Costa Gadelha – Cura de Arneiroz.[4]
            
     Desse matrimônio nasceram dez filhos, aos quais se juntou o primogênito de Leandro, o pequeno Leandrinho (Leandro Custódio Bezerril) que ficara residindo com a mãe, Ana Tereza, nas terras do Rio Grande do Norte.
         Anos depois de alocar-se no Ceará, Leandro Custódio resolvera fazer uma visita aos parentes na sua terra natal, levando consigo a esposa Eufrásia, e, premeditadamente, pediu a esta que, chegando ao Rio Grande, solicitasse a guarda do filho de Ana Tereza.
         Atendendo ao pedido de Eufrásia, Ana Tereza entregou-lhe a criança, entretanto, destacou que dava o filho a Eufrásia e nunca o faria em favor de Leandro, por ser ele “muito ruim”.[5] Desta forma, retornara o casal ao Ceará trazendo o pequeno Leandro Custódio Bezerril.
         Os descendentes de Leandro Custódio de Oliveira Castro e Eufrásia Alves Feitosa foram:[6]
1 - Coronel Lourenço Alves de Castro c/c D. Lusia Alves Feitosa e Vale, filha do Major José do Vale Pedrosa;
2 - Capitão Francisco Alves de Castro c/c Bárbara Alves Feitosa, filha do Alferes Jacinto de Morais Rego;
3 - Bernardo Freire de Castro Jucá c/c D. Antonia Joana Cedrim, filha do português Francisco Pereira Maia Guimarães e Maria Isabel da Penha[7];
4 - D. Ana de Castro (Donana da Cajazeira) c/c José de Sousa Rego, dono da Fazenda Cajazeira, filho do Capitão Vicente Ferreira de Sousa;
5 - Leandro Custódio de Oliveira Castro (o segundo com este nome) c/c D. Maria, filha de José de Sousa Rego. Leandro fora assassinado por José do Vale Pedrosa (o Nô);
6 - Capitão José Alves de Castro (da Fazenda Cruz); em 1as núpcias c/c D. Benedita (filha do Major José do Vale Pedrosa); em 2as núpcias c/c Ana Pereira (neta de Teodósio, tronco da família Lô do Estreito);
7 - Leonarda Alves do Vale c/c José Alves de Araújo Feitosa, filho do Capitão Leonardo de Araújo Chaves;
8 - D. Joana c/c Coronel Pedro Alves Feitosa e Vale, da Fazenda Papagaio, filho do Major José do Vale Pedrosa;
9 - D. Maria Madalena de Castro c/c Capitão Pedro Alves Feitosa, da Fazenda Cococá, filho de Eufrásio Alves Feitosa, da Fazenda Estreito;
10 - D. Antonia Cândida de Castro c/c Felix Manoel de Morais Rego, filho de Alberto de Morais Rego, morador no Apodi/RN, e neto paterno do Capitão-mor Pedro de Sousa Rego.


1. Onde Nasceu Leandro Custódio de Oliveira Castro?
           
       A tradição oral e muitos documentos apontavam que Leandro Custódio de Oliveira Castro teria como naturalidade o Rio Grande do Norte. Todavia, com o aparecimento de outras fontes, descobriu-se que ele nascera em Pernambuco.
         Inquestionavelmente, Leandro, antes de chegar ao Ceará, estava domiciliado no Rio Grande do Norte, na Fazenda de Tamatanduba, que faz divisa com a Fazenda Cunhaú, antigas propriedades dos Albuquerque Maranhão.[8]
         Em 21 de julho de 1871, um dos netos de Leandro, o ex-deputado estadual Padre Francisco Máximo, declarou em seus Autos de Ordenação que seu avô era natural do Rio Grande do Norte, nos seguintes termos:

O clérigo Francisco Máximo Feitosa e Castro, seminarista desta diocese, natural e moradores na Freguesia do Cococy, filho legítimo de Lourenço Alves de Castro e de Lusia Alves Feitosa e Valle naturais da mesma Freguesia do Cococy; neto paterno de Leandro Custódio D’ Oliveira Castro Natural da Freguesia de Tamatanduba no Rio Grande do Norte (do Bispado de Pernambuco), e de Eufrásia Alves Feitosa natural da Freguesia de Arneirós deste Bispado, e ambos já falecidos; neto materno de José Do Valle Pedrosa, e Anna Gonçalves Vieira Mimosa, ambos da Freguesia do Cococy e já fallecidos; desejando ascender a ordens menores sacras até presbytero para o que deve previamente habilitar-se de vita et moribus vem rogar a Vossa Exelência  Reverendíssima se digne admitil-o a referida habilitação mandando proceder nas diligências do estylo até final sentença.[9]
            
        Apesar de tudo isso, os documentos paroquiais evidenciam que a naturalidade de Leandro era mesmo Pernambuco, mais especificamente, Igarassu. Essa afirmação é repetida em vários assentamentos, como o foi no de seu casamento (supracitado) e no de batismo de seu filho, Francisco:

Aos dois dias do mês de novembro do ano de noventa e hum (1791) na capela do Cococi filial a esta matriz de Arneiroz, batizei e pus os santos óleos em Francisco, filho legítimo de Leandro Custódio de Oliveira (Castro), natural da Freguesia de Igarassu e de D. Eufrásia Alves Feitosa, natural da Freguesia de Arneiroz; neto paterno de Bernardo de Castro Pereira, natural de Goianinha Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres e de Dona Joana da Conceição natural de Igarassu; neto paterno de José Alves Feitosa e de Dona Maria Madalena, já defunta, naturais de Arneiroz, nasceu em quinze de setembro do mesmo ano, foram padrinhos o Sargento-mor Francisco Alves Feitosa e D. Maria Alves Feitosa mulher do Alferes Francisco Alves Feitosa de que fiz este assento em que me assino – Manuel da Costa Gadelha, Cura de Arneiroz.[10]
            
      Portanto, não resta dúvida quanto ao lugar de origem do Sargento-mor Leandro Custódio de Oliveira Castro, no caso, Igarassu/PE. No entanto, presume-se que Leandro tenha transferido seu domicílio para o Rio Grande do Norte (Tamatanduba), por motivos ainda desconhecidos.

2. Um dos Legados de Leandro: Sobrenomes
            
      A família a qual Leandro se unira através do casamento era numerosa, com uma parentela quase infinda. A maioria dessa gente tinha o hábito de casar-se dentro do mesmo clã, ou seja, praticavam a endogamia. Uma dessas consequências, além dos defeitos genéticos, era a repetição dos nomes e sobrenomes, sendo comum os Francisco, os Lourenço, “Manuéis” etc., seguidos  dos patronímicos “Alves Feitosa”, invariavelmente.
         Essa homonímia resultava em confusões, dificultando a identificação dos membros desta grei, sendo isso remediado pela técnica de remeter o nome do indivíduo ao lugar de sua residência, uma fazenda, por exemplo, dizendo-se: José Alves Feitosa da Várzea da Onça[11] para distingui-lo de seu primo José Alves Feitosa de Santana.[12]
          Outro método era o uso do substantivo militar de alferes, sargento-mor, major, capitão, capitão-mor. Mas isso só funcionava até que alguém, homônimo, alcançasse a mesma patente, quando se recorria novamente à distinção toponímica, ligada ao domicílio.
         As famílias ricas e afidalgadas do sertão casavam-se, nas palavras de João Brígido, “como os gados, quase os pais com as filhas, tudo por amor dos haveres”.[13] Entre os Feitosa não era diferente, unia-se o primo com prima e tio com a sobrinha. Contudo, excepcionalmente, realizaram-se nos dois primeiros séculos poucos casamentos fora da parentela.
         O casamento de Eufrásia com Leandro Custódio de Oliveira Castro constou entre essas exceções. Tal enlace ampliou o número possível de combinações dos nomes de família, que passaram a adotar, com maior frequência, os sobrenomes “Oliveira” e “Castro”.

2.1. O Sobrenome “Jucá”
            
     Leandro Custódio batizou um de seus filhos com um sobrenome inédito, “Jucá”. Homenageando seu pai, chamou a criança de Bernardo Freire de Castro Jucá. E a razão que o levou a usar esta denominação (Jucá) é explicada, por alguns, como uma forma de Leandro também prestar cortesia aos índios habitantes dos Inhamuns.
         Não parece ser uma assertiva sensata, pois, naqueles tempos, o índio era tratado como coisa, e não na categoria de gente. Havendo verdadeira aversão às práticas indígenas, desde as danças e cânticos até o hábito de pilhagem, principalmente dos gados. Afinal, os moradores dos Inhamuns eram criadores, e os índios eram uma ameaça, exceto aqueles que estavam abrigados nas Missões ou absorvidos pela civilidade.
         Outra versão para explicar o motivo que levou Leandro a batizar seu filho com o inusitado sobrenome, “Jucá”, encontra embasamento no fato de ele residir na Fazenda Cruz, à margem do Rio Jucá.
         Paralelamente, é comum na vegetação da caatinga inhamunsense haver uma pequena árvore denominada de jucá (ou pau ferro, por sua rija natureza). Essa palavra, de origem indígena (Jucá), significa “matar”, sendo bastante comum observá-la, alhures e algures, funcionado como nome próprio, “Juca”, com acento tônico na primeira sílaba, “jú”.
         Talvez, a verdadeira razão que levara Leandro a batizar seu filho com o dito sobrenome nunca seja respondida, porém, o que importa é que esse patronímico vingou, espalhando-se ao longo das gerações, hoje, existindo em todo o país.

2.2. Os Sobrenomes “Bezerril” e “Bizarria”
            
     Como ficou dito, o filho primogênito de Leandro chamava-se Leandro Custódio Bezerril, e veio morar com o pai no Ceará, onde também findou casando dentro da família Feitosa, com Josefa, filha de Francisco de Holanda Cavalcante.[14]
        Não havia uma regra muito rígida para o uso dos sobrenomes, consequentemente, existindo variações para se escrever um mesmo patronímico. Assim, Bezerril corrompeu-se em Bizarria,[15] sendo este segundo nome o mais usado e propagado pelos descendentes de Leandro Custódio Bezerril, que também se assinava como Bezarril.[16]

3. A Carta Patente
            
     O posto de Sargento-mor das Ordenanças fora requerido por Leandro Custódio, havendo necessidade de o pedido ser confirmado no prazo fixado em lei, no caso, dois anos. O documento trás a carta patente e o pedido de confirmação da mesma.
        

      
                     Sem dúvida, a oportunidade de obter o dito posto fora obra do cunhado de Leandro, o Capitão-mor José Alves Feitosa, que havia sido nomeado para esta função depois da criação da Vila de São João do Príncipe (hoje, cidade de Tauá/CE).
         Existia uma estreita relação entre esses dois cunhados, inclusive no que respeitava aos negócios. Nesse sentido disse Leonardo Feitosa:

O sargento-mor Leandro Custódio tornou-se muito rico. Em certo ano fez ele um empréstimo interessante ao cunhado: tinha ele uma boiada pegada para marchar para a feira, quando o Capitão-mor José Alves Feitosa, que, às vezes, acarretara com grandes despesas de natureza urgente, se apresentou e pediu-lhe a boiada toda por empréstimo, e sendo atendido, mais tarde pagou-a na mesma moeda – uma boiada com igual número de bois.[17]
            
     Desta feita, faz-se oportuno apresentar a carta patente com o seu respectivo requerimento de confirmação, para o posto de sargento-mor das Ordenanças da Vila de São João do Príncipe. Cargo que não era pago com o soldo, mas com privilégios, isenções, graças e honras, conforme se ler, abaixo, no documento e em sua respectiva transcrição paleográfica.


Informe com o seu parecer o Governador Interino do Ceará juntando Copia da Ordens, que o authorizaỏ a creaçaỏ deste posto, e remetendo hum mapa da Povoaçaỏ desta Villa e seu Termo. Lx.a 22 de março de 1804.
[sete rubricas ilegíveis]
Senhor
Diz Leandro Custodio de Oliveira e Castro Sargento Mor das ordenansas da Villa novamente creada Denomenada Sáo [João] do Príncipe da Capitania do Ciará grande, que seno Nomiado pelo Governo Interino daquela Capitania no dito Posto como consta de sua Patente junta requer a V.A.R. queira Mandar passar lhe sua Carta Patente de confirmação na forma do Custume.
P// a V.A.R assim o queira Determinar visto estar secomcluindo o tempo na mesma Patente declarado p.a ser confirmada.
ERM
Como Procurador Antonio Jozé da S.a Coêlho
Os Governadores Interinos da Capitanîa do Seará Grande etc. Faze-Mos saber aos que esta Carta Patente virem, que attendendo a achar-se vago o Posto de Sargento Mór das Ordenanças da Villa de Sam Joáo do Principe, novamente criada, de que he Capitáo Mór Jozé Alves Feitoza e haver Nos sito Proposto pelos Officiaes da Camera da referida Villa com acistencia do mesmo Capitáo Mór em primeiro lugar a Leandro Custodio de Oliveira Castro, por concorrerem nelle os requizitos necessários; e por esperar-Mos delle que no exercio do mencionado Posto se haverá com zelo e honra, e muito como deve a boa confiança que de sua pessoa feze-Mos: Have-Mos porbem na conformidade das Reaes Ordens nomear ao dito Leandro Custodio de Oliveira e Castro, no Posto de Sargento Mór das Oredenanças da Villa novamente criada e denominada Sam Jóao do Principe de que he Capitaỏ Mór Jozé Alves Feitoza; como qual não haverá soldo algum, mas gozará de todas as honras; graças, privilégios, e izençoens, que directamente lhe pertencerem; e será obrigado a requerer a Sua Alteza Real o Principe Regente Nossa Senhor á confirmaçảo desta Patente dentro de dois annos contados da data desta como Determina a real Ordem de 22 de Maio de 1795: Pelo que Ordena-Mos ao dito Capitaó Mor por tal o reconheça, honra, e estima, e lhe confira a Posse e Juramento do estillo de que fará assento nas costas desta; e aos Officiaes e Soldados seos subordinados  lhe obideçảo, e cumpráo suas Oredens relativas ao Real Serviço como devem e sáo obrigados. Em firmeza do que lhe Manda-Mos passar a prezente por Nos assinadas e sellada com o Sello das Armas Reaes, que se registará na Secretaria deste Governo, e Vedoria Geral. Dada na Villa da Fortaleza do Seará aos onze dias do mez de Janeiro. Anno de Nascimeto de Nosso Senhor Jezus Christo de mil oito centos e três. Francisco Luiz de Mariz Sarmento Secretario do Governo a fiz escrever.
D.or Gregorio Joze da S.a Couto [rubrica]
O Capp.am Joze Henriques Pr.a [rubrica]
Luis Martins de Paula [rubrica]
Carta Patente pela qual VV.SSrias hão porbem nomear a Leandro Custodio de Oliveira e Castro no Posto de Sargento Mor das Ordenanças da Villa novamente criada e denominada Sam Joáo do Principe, pelos motivos nella declarados.
Para VV.SS.rias verem.  
Regd.a no Lv.o de Reg.o de patentes e Nomeaçỏes, que serve nesta Secretr.a do Gov.o V.a da Fort.a 13 de Janr.o de 1803/Francisco Luiz de Mariz Sarm.to [rubrica]
Deste Reg.to na Secretaria
Zs....................2$560Zs
Julio_ _ _ _ _ 32$000 [V]

Aos sette dias do mez de fevereiro do Anno do Nacimento de Nosso Senhór Jezus Cristo de mil oito sentos e seis dei pose e tomei o Juramento depreito e amenaje a liandro Custodio de Oliveira e Castro do posto de Sargento Majór das orden.ças da V.a de S. Joaó do Principe o que tudo fiz na forma do estillo dia cera Supra.
Jozé Al´z Feitoza [rubrica]
Cumpra-se, e Registre-se. Vedoria Geral do Seará em 15 de Janeiro de 1803/
[rubrica ilegível]
Req.da a fl 148 fv L.o 1º de Registro q serve [sem.es ?]: nesta Vedoria Geral V.a da Fort.a do Seará em 15 de Janr.o de 1803/
Emigdio Pinto de Vasconcellos [rubrica]




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Brígido, João, Ceará (Homens e Fatos), Fortaleza - Ceará, Edições Demócrito Rocha, 2001.

Cascudo, Luís da Câmara, A Casa de Cunhaú: História e Genealogia, Brasília, Edições do Senado Federal, 2008.

Feitosa, Aécio, Casamentos Celebrados nas Capelas, Igrejas e Fazendas dos Inhamuns (1756 - 1801) – História da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2009.

Feitosa, Leonardo, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2º Ed., Imprensa Oficial, 1985.

Lima, Lourival Maia, Os Mais, Crato - Ceará, Fundação Casa das Crianças de Olinda, 1982.


DOCUMENTOS:

Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil - Ceará, 09 de março de 1803.

Departamento Histórico Diocesano Padre Antonio Gomes de Araújo (DHDPG), Crato - CE, Autos de Ordenação.
   




[1] Feitosa, Leonardo, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2º Ed., Imprensa Oficial, 1985, p. 86.
[2] Ibidem, op. cit., p. 87.
[3] Diz Leonardo Feitosa que Eufrásia nascera no ano de 1775, tendo se casado aos 14 anos de idade (in Feitosa, op. cit., p. 88).
[4] Feitosa, Aécio, Casamentos Celebrados nas Capelas, Igrejas e Fazendas dos Inhamuns (1756 - 1801) – História da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2009, p. 136.
[5] Feitosa, Leonardo, op. cit., p. 87.
[6] Ibidem, op. cit., p. 86.
[7] Ver: Lima, Lourival Maia, Os Mais, Crato - Ceará, Fundação Casa das Crianças de Olinda, 1982. Ver também os assentamentos de batismo de Nossa Senhora da Penha, no Crato - CE, pois consta nesses calhamaços o registro de nascimento de Antônia, em 07/12/1805.  
[8] Cascudo, Luís da Câmara, A Casa de Cunhaú: História e Genealogia, Brasília, Edições do Senado Federal, 2008, p. 23, 47, 84, 85, 96, 98 e 99.
[9] Departamento Histórico Diocesano Padre Antonio Gomes de Araújo (DHDPG), Crato - CE, Autos de Ordenação do Padre Francisco Máximo Feitosa e Castro.
[10] Feitosa, Aécio, op. cit., p. 137.
[11] Feitosa, Leonardo, op. cit., p. 27.
[12] Ibidem, op. cit., p. 31.
[13] Brígido, João, Ceará (Homens e Fatos), Fortaleza - Ceará, Edições Demócrito Rocha, 2001, p. 313.
[14] Francisco de Holanda Cavalcante era filho do Capitão Arnaud de Holanda Cavalcante e de Francisca, neta do Cel. Francisco Alves Feitosa (Leonardo, op. cit., p. 38 e 94).
[15] Compartilha dessa mesma opinião Aécio Feitosa, dizendo que o primeiro a usar a corruptela foi Raimundo Bizarria, ex-professor da Bahia (in Feitosa, Aécio, op. cit., p. 242).
[16] Essa variante, Bezarril, pode ser vista no requerimento de confirmação da carta patente de José do Vale Pedrosa (Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil - Ceará, 09 de março de 1803).   
[17] Feitosa, Leonardo, op. cit., p. 87.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O ROMANCE DO V.R.

O ROMANCE DO V.R.
   
                                                             
                          Autor: José Alves de Figueiredo
                    Postado por: Heitor Feitosa Macêdo
            
Luizinha e sua neta (Lolita), em Portugal.
        Leio sempre, com agrado, nos jornais de Fortaleza, as croniquetas assinadas por V.R. e concluo que o autor aprendeu regularmente a arte culinária, dosando bem o sal desse alimento espiritual que fornece aos leitores do sertão.
         Saboreava um dia desses o trabalho que V.R. traçou sobre os ardores cinegéticos de gente de destaque da Capital. Quando me assaltou fortíssima saudade de minha velha camaradagem em nossa juventude, há quase meio século, com o signatário da espirituosa cônica.
         A gente, quando já se vai aproximando do túmulo, torna-se mito sentimental, recordando todas essas futilidades da vida passada com um desejo impotente de voltar...
         Como vai longe aquele belo tempo!
         Tínhamos ambos 16 ou 18 anos, quando em torno de uma fogueira de São João nos fizemos compadres para se tornarem mais estreitos os laços de nossa camaradagem.
        
Luizinha, aos 72 anos, e sua família, em Guimarães/Portugal.
         V.R. arranjou, nesse tempo, namoro com uma menina de nome Luizinha, filha do professor público Manuel da Penha de Carvalho Brito e vivia, nos arroubos da primeira fase de seu sonho, a dar na concha da balança do meu coração todo o peso do grande amor que aumentava dia a dia.
         Luizinha não era tipo de beleza, mas, vista através das lentes de aumento que Eros sabe pôr aos olhos dos apaixonados, tinha retoques mágicos para o namorado que, na veemência do seu enlevo, vivia a exalçá-los em linguagem açucarada.
         Moreninha e pequena como um lírio, era bem a noiva ideal do meu compadre que sempre foi pouquinho, fisicamente.
        
Luiza da Penha Pereira Maia.
Nesse tempo, já o coronel José Belém de Figueiredo tinha deixado de ser o modesto comerciante que fora, para transformar-se no Manda-Chuva de Crato.
         Aconteceu que um jornal de Fortaleza publicou artigo enviado de Crato, causticando os processos violentos empregados pelo detentor do poder que oprimia, sem piedade, a bela princesa do Sul cearense.
         A autoria dessa publicação foi atribuída ao professor Penha, e o coronel Belém, sem um indício que justificasse, de qualquer modo, esse ato de prepotência aldeã, concebeu, de pronto, plano de vingança original e cruel: – Chamou seu lugar-tenente, o famigerado Jesuíno Antonio Maria, comandante de um
Lolita, em 1954.
a guarda municipal composta de bandidos da pior espécie, e mandou que o mesmo se improvisasse farmacêutico e transformasse o jornal em pílulas, obrigando o velho educador cratense a degluti-las.
         A ordem, arbitrária e cruel, foi cumprida na parte leste da Praça São Vicente, hoje Avenida Cel. Manuel Siqueira Campos, sob as vistas da população estarrecida.
         Anos depois ficou apurado que o autor do artigo em questão fora o ouvires José Flamínio que, na ocasião, vendo as barbas do vizinho arderem, pôs as suas de molho, dando um pulinho para Belém do Pará, de onde não mais voltou.
         Julgando-se desmoralizado, o professor Penha resolveu emigrar com toda a família para Manaus, ficando por lá até morrer.
         Foi violentíssima a dor de V.R. ao separar-se de sua diva. Houve repetidas juras de fidelidade e, depois do competente bota-fora, sob torrente de lágrimas, o Romeu, saudoso de sua Julieta, voltou-se para o meu lado e descreveu-me toda a imensa dor que lhe avassalava a alma, todo o prodígio de sua fortaleza de espírito para assistir sem perder o juízo, o fragoroso ruir dos seus sonhos dourados.
        
Luizinha e família, na Vila Aurora/Portugal, em agosto de 1918.
       
      Inspirado, patético, teve frases como estas: “Minha cabeça é um vulcão, arde em lavas de desespero! Meus miolos fervem como se estivessem dentro de uma caldeira infernal! Resta-me apenas a esperança de alcançar recursos, para seguir Luizinha e me casar com ela! Do contrário, meterei bala no crânio e acabarei com esse trapo de vida amargurada”.
         Eu, amigo sincero, receoso de que meu apalermado camarada cometesse mesmo um desatino, velei por ele, roguei, implorei mesmo que afastasse do seu pensamento aquelas ideias sinistras que me punham em sobressalto contínuo.
         Cupido, sempre canalha, solícito e hábil em pregar logros à humanidade. Prepara as coisas de uma forma, mas só permite que elas se realizem de acordo com as secretas intenções...
         Luizinha, em Manaus, esperou alguns anos, certa de que aquelas ardentes juras, seladas com tantas lágrimas, tinham caído no rol das letras prescritas, resolveu ligar seu destino ao de um português rico e foi viver em Lisboa, numa bela chácara que seu marido ali possuía, a saborear belas peras e gostosas maçãs.[1]
         Enquanto viveu nesta cidade seu cunhado José de Holanda Praxedes, eu tive notícias de Luizinha pelas cartas que ela lhe dirigia. Pela leitura de suas missivas, concluí que minha patrícia tinha evoluído muito, intelectualmente, nas terras de além-mar.
         Nos jornais que remetia de lá ao citado cunhado, enchia as margens com longos comentários elucidando assunto de que os mesmos se ocupavam.
         Lembro-me de belo comentário, em estilo cintilante, escrito por ela nas margens de número da “A Mala da Europa”, sobre o modo de governo do país amigo, encarando o problema do meretrício, ainda no tempo de D. Carlos, e do qual muito gostei.
         Morto José Holanda, eu não tive mais notícias de Luizinha e não sei se viverá.
         Se ainda vive, deve estar bem velhinha e muito reduzida na sua figurinha de Tanagra.
         Quanto ao meu compadre V.R., posso informar que deixou de andar com essas fantasias de Vesúvio na cabeça, para ter belas ideias e traçar lindas crônicas. Deixou também de ter os miolos a ferver nas caldeiras de Pedro Botelho. Não abriu o crânio com uma bala e nem foi para o Norte. Achou mais prático viver muitos anos e ficar em Fortaleza, evitando as endemias do inferno verde. Casou com senhora de respeitável família da nossa Capital, que há anos o deixou viúvo. Tem filhos e perfeitamente educados.[2]  
         Aliás, já é tempo. Subiu como eu, cinco etapas ascendentes na montanha da vida, e, preguiçosamente, desceu uma para o lado oposto, igualmente como seu velho companheiro que comete indiscrições dessa natureza.
Crato, 1932

(in Figueiredo, José Alves de, Ana Mulata: Contos e Crônicas, Crato - CE, Instituto Cultural do Cariri, p. 25 a 29).  


                
               




[1] Luizinha faleceu em 1956, em Guimarães, Portugal. Escrevia para a parenta e amiga, D. Santa Moreira, sempre saudosa da terra natal e com a velhice amargurada pelos desgostos que lhe dava o marido, desgostos esses compensados pelo carinho e amizade dos filhos (nota de J. de Figueiredo Filho).
[2] Os filhos de Vicente Roque são Atualmente pessoas de real projeção nas suas profissões e nos meios onde vivem (nota de J. de Figueiredo Filho).