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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ferro Caldo da Família Feitosa

                             Ferro Caldo da Família Feitosa
                                                                                                
                                                                               Heitor Feitosa Macêdo
         
          
A estrela utilizada pelos Feitosa dos Inhamuns/CE.
A civilização do couro, assim chamada por Capistrano de Abreu a empresa ligada ao criatório, ou ciclo econômico do gado, predominou na paisagem nordestina, promovendo a sua colonização. Deixando por legado antigos costumes, como a técnica de identificação da propriedade sobre os animais. Sendo oportuno registrar alguns apontamentos desse aspecto em relação à família Feitosa.
         No início do século XVIII, o povoamento do interior da Capitania do Ceará se intensifica, contribuindo para isso o fato de a lei de 1701 proibir a criação de gados nas proximidades do litoral e dos canaviais[1], pois o criatório devastava as plantações, sobremodo, as de cana-de-açúcar. Assim, a atividade açucareira empurrou para os sertões a cultura das alimárias.   
         Dessa maneira, em meados de 1707, chega ao Ceará a família Feitosa, onde requereu terras, através das doações sesmariais. Inicialmente, os irmãos emigrados de Penedo/AL, Lourenço e Francisco Alves Feitosa, peticionaram terras nas proximidades do Icó/CE, à época, o centro mais desenvolvido do interior da Capitania.
         Com o passar dos anos, foram adquirindo mais campos para acomodarem seus gados, até chegar ao cúmulo de somarem 35 sesmarias, que mediam em média, cada sesmaria, três léguas de comprimento por uma de largura (meia em cada lado de um rio). O desejo pelo latifúndio guiou esses irmãos para uma guerra violenta.
         Nos seus pedidos de sesmarias sempre alegavam não possuir terras suficientes para acomodarem seus gados “vacuns” e “cavalares”, ou seja, bovinos e equinos, principal fonte de renda naqueles tempos e naqueles meios. Não é à toa que gado vem da palavra “gaanar”, ou melhor, ganhar.
         A intenção desses indivíduos, e de muitos outros, era senhoreassem de latifúndios onde pudessem desenvolver a pecuária extensiva. Registre-se que pecuária deriva de “pecus” (gado, rebanho),[2] daí surgindo “pecúlio” (bens, propriedade, dinheiro).
         Foi com esse mote que os Feitosa alcançaram as pastagens do Sertão dos Inhamuns, onde deitaram seus imensos rebanhos. Havendo nessas paragens, inda hoje, muitos descendentes dos primeiros colonizadores, onde perseveram com seus criatórios, praticando técnicas dos séculos passados.
         Uma dessas técnicas consiste na individualização da posse sobre os animais, isto é, o dono identifica os semoventes (bois, cavalos, cabras, ovelhas etc.) através de um sinal característico, uma marca, que é posta, geralmente, no caso dos bovinos e equinos, sobre a epiderme.
         Frise-se que os ovinos e caprinos (chamados pelo sertanejo de “miunças”), por possuírem uma pele mais delgada, não suportam a marcação a fogo, restando aos donos assinalarem suas orelhas, decepando-lhes geometricamente pequenos pedaços de seu rebordo.
         Para gravar a fogo os sinais dos criadores, lança-se mão de um pedaço de ferro, o ferro-caldo, que consiste numa haste, em cuja extremidade há uma figura, e, na outra, um pedaço de madeira ou sabugo de milho, com a função de proteger a mão de quem manuseia o escaldante metal.
         Dessa forma, a ponta do ferro que contem a insígnia é posta entre brasas incandescentes, até que adquira a mesma temperatura destas. Então, os vaqueiros, depois de dominarem o quadrúpede, deitando-o sobre o solo e amarrando suas patas, aduzem firmemente a causticante marca em ambos os lados.
         Esse processo, chamado de “ferra”,[3] no Ceará, e em grande parte do Nordeste, é feito durante o mês de julho, quando as chuvas cessam e a pastagem encontra-se mais ressequida, reduzindo a incidência das bicheiras, que nada mais são do que larvas de moscas (berne), responsáveis pela formação de úlceras nos tecidos dos animais.
         Depois de identificado o animal, a posse do dono passa a ter natureza erga omnes, oponível contra todos os homens, pois, antes de ferrado o semovente, não há como provar-se a propriedade sobre o dito animal, o que, no passado, resultava em perda para Igreja dos quadrúpedes bravios, que fossem encontrados nos campos sem qualquer identificação do proprietário.[4] Estes bichos eram chamados de “gado do vento”.[5]
         Os Carmelitas diziam que os gados bravios, sem marcas e sinais, pertenciam a Nossa Senhora. Entretanto, foram esses religiosos contraditados pelo Rei de Portugal, em 1697, declarando que tais gados eram de propriedade da Fazenda Real.[6] 
         Na época em que o roubo e o furto eram mais graves que os crimes contra a vida, a obrigação de restituir animais alheios era quase sagrada. Sendo assim, caso uma rês tresmalhada (fugida) fosse esbarrar em terras de outro fazendeiro, este, depois de identificar a marca, tinha o dever de comunicar ao verdadeiro dono, tão logo, restituindo-lhe o bem. Para isso, o fazendeiro tinha a obrigação de “dar campo”, ou melhor, auxílio ao vaqueiro que vinha buscar a rês fujona, cedendo os vaqueiros da própria fazenda para proceder-se à pega (captura).
         Caso contrário, não conhecendo o ferro da rês, riscava-se o desconhecido ferro nas portas das casas ou nos troncos das árvores,[7] na intenção de publicar-se o paradeiro do animal evadido. Curiosamente, disso originou-se o nome da cidade de Paus dos Ferros, no RN, pois, nesse lugar, havia um pé de oiticica onde os vaqueiros gravavam em seu caule as marcas dos gados desconhecidos e dispersos.[8] 
         Existia uma rígida regra para proceder-se ao ato da ferra, em virtude de que não podia a marca constar em toda e qualquer parte do corpo do animal, mas nos exatos locais ditados pelo costume e pela lei.
         A intenção precípua era identificar os animais, distinguido seu dono e o local de sua origem. Nesse sentido criara-se uma ordem para dispor o ferro no epitélio dos bichos. Primeiramente, surgira o “ferro da ribeira”, na fase da colonização, quando os desbravadores se guiavam pelo curso dos rios. Posteriormente, surgiu o “ferro da freguesia”, ao passo em que as missões indígenas e as Igrejas iam sendo construídas pelos sertões.[9]
         O ferro da ribeira era posto do lado esquerdo do animal, na parte traseira, na porção inferior da coxa,[10] chamada pelos sertanejos de “anca”. Com a criação da freguesia, e o seu respectivo ferro (a letra do nome do santo padroeiro), o ferro da ribeira tendeu a cair em desuso, mas o lugar para se colocar a insígnia continuou sendo o mesmo (a anca esquerda).
         Hoje, com a evolução da divisão administrativa, existe o “ferro do município”, mas, no Ceará, persiste a terminologia “ferro da freguesia”, à exceção do Cariri/CE, onde ainda se fala em “ferro da ribeira”,[11] e Sobral, onde é chamado de “carimbo”.[12]
         O ferro do dono ou da fazenda é insculpido na coxa direita, também na porção inferior, pois os indivíduos que se sucedem na posse do gado, vão ferrando acima da marca anterior,[13] dizendo-se, na linguagem sertaneja, que a derradeira é a que “regula”, quer dizer, que tem validade. Esse ato de ferrar mais de uma vez, ascendentemente, é chamado de “contraferra”.[14]
         Os filhos do fazendeiro, em regra, herdam a mesma marca do pai, porém, costumam fazer certas modificações, acrescentando elementos ao desenho original, chamados de “diferenças”.[15] Estas, são formadas por vinte e um caracteres, dentre os quais, existe a balança, a meia lua, o puxete, a flor (uma espécie de r minúsculo)[16], o martelo etc.
         Outras vezes, com mais frequência entre as filhas, a marca do pai é utilizada sem nenhuma modificação, mas, é seguida, logo abaixo, de um número, conforme a ordem de nascimento de cada uma das filhas.
         O costume, a lei e a necessidade obrigaram os sertanejos a individuarem seus bens semoventes, com o fim de manterem-se nas suas posses. Logo, disso surgiu uma “rude arte” na criação dos símbolos identificadores, que, apesar de seu conteúdo popular, apresentam certa erudição.
         Entre os Feitosa do sertão dos Inhamuns, é de uso generalizado a figura da estrela, com cinco ou seis pontas. Não se conhece a razão disso, nem se os primeiros membros dessa família também faziam uso desse símbolo. Mas, é indiscutível que essa prática transcende os séculos, e está disseminada entre todos os membros desse clã.
         Muitos símbolos possuem uma forma pronta e acabada, que é impressa no couro dos gados. Porém, alguns desenhos exigem ferros diferenciados para se alcançar o resultado desejado, como ocorre com a sobredita estrela, que é gravada com o “giz” (um ferro, cuja extremidade cáustica é em forma de espátula ou buril). Com essa ferramenta, fazem-se os mais diversos desenhos.
         Outras marcas comuns entre os Feitosa são o “P”, para os habitantes do Rio de Jucá, e o “R” para os moradores do Rio do Puiú. Hoje, a razão para esse uso é praticamente desconhecida, contudo, a explicação é bem óbvia.
         Algumas marcas estavam ligadas diretamente a uma ribeira (terrenos marginais de um Rio) ou uma freguesia (divisão administrativa da Igreja), que poderia compreender mais de uma ribeira.
        
Usado no Rio do Puiú.
         A freguesia da antiga povoação de Arneiroz possui como santo padroeiro Nossa Senhora da “Paz”, por isso todos os gados pertencentes às fazendas circunscritas por essa freguesia deveriam possuir a marca com a letra “P” (Paz). Já a ribeira do Jucá estava ligada à freguesia de Tauá, cujo padroeiro é Nossa Senhora do “Rosário”, daí usar-se o “R” (Rosário) como sinal oficial da dita ribeira.
        
Usado no Rio de Jucá.
         Entretanto, essas marcas não eram privativas ou exclusivas dos Feitosa, apesar de serem largamente utilizadas pelos mesmos, devido ao número de propriedades pertencentes aos membros dessa grei ao longo das margens desses rios.
          Atualmente, há uma tendência em proceder-se à ferra com a utilização de simples letras do alfabeto vernáculo, em conformidade com os nomes dos proprietários. No entanto, ainda persistem casos em que, na família Feitosa, os símbolos gravados são herdados de tempos imemoráveis, seguindo as        mesmas regras dos séculos passados.
         Seria extenuante apresentar todas as marcas de ferro usadas pelos membros da família Feitosa. Desta maneira, exemplificativamente, será demonstrada a regra do processo de ferra ainda existente no seio dessa família. Na Fazenda Saco Virgem (Parambu/CE), pertencente ao Tenente Emiliano Ferreira Ferro (que viveu no século XIX), é comum assinalar os gados com um “3”, além da estrela.
        
O "3" usado pelo Tenente Emiliano Ferreira Ferro.
        Já o filho do Tentente, Epaminondas Ferreira/Feitosa Ferro, que fora dono da Fazenda Cacimba Velha (falecido no início do século XX), usava, além do “3” e da estrela, o número “7”, invertido e de cabeça para baixo.
        
Marca usada por Epaminondas Ferreira Ferro.
           Seguindo a tradição, todos os filhos de Epaminondas, inclusive as mulheres, marcavam seus animais com a estrela, o número “3” e o número “7”, porém, este derradeiro caractere é diferenciado para cada um dos filhos de Epaminondas. Neste caso, as mulheres não empregam exatamente a marca do pai e o número da ordem de seus nascimentos, mas fazem uso da mesma sistemática seguida pelos filhos do sexo masculino, que utilizam a marca paterna aplicando-lhe as diferenças.
         O filho primogênito de Epaminondas, Emiliano Ferreira Ferro (Milu), herdou a marca paterna sem nenhuma modificação, talvez isso esteja ligado ao velho instituto do morgadio, em que o filho mais velho herdava a totalidade dos bens do patriarca.
        
Marca usada por Emiliano, filho de Epaminondas.
           Outro filho de Epaminondas, Aderson Feitosa Ferro, utiliza a marca do pai com as respectivas modificações, empregando à figura um martelo na parte meridional. Assim, grava em seus animais, do lado direito, nas ancas, sua marca (composta pelo “7” invertido e de cabeça para baixo, e um “F”). No lado esquerdo, na anca, apõe a estrela; e na “pá” (porção anterior do animal) um “3”.
        
Marca usada por Aderson, filho de Epaminondas.
           Nos asininos (jumentos), Aderson usava o sete com um martelo na extremidade. O local para imprimir esse ferro diferia dos outros, porque, nos asnos, a marca era posta no chanfro (um pouco acima das ventas). Isso facilitava a visualização e a identificação do sinal enquanto esses bichos pastavam soltos nas matas.
        
Marca que Aderson reservava aos jumentos.
          Convém lembrar que muitos integrantes da família Feitosa não costumam fazer uso do ferro da ribeira (ou ferro da freguesia, ou ferro do município), mas, em seu lugar, empregam a estrela. Esta, particularmente, traz duas informações, a primeira é identificadora da família (Feitosa), a segunda indica o lugar, os Inhamuns. Isso fugia a regra, inclusive contrariando as leis que regulavam o tema.
         A tendência moderna é substituir esse antigo costume, da ferra, por técnicas menos trabalhosas, com marcas que se restringem às letras iniciais dos proprietários, substituindo-se o ferro em brasa por substâncias cáusticas, industrializadas. Outras vezes, fazendo-se uso de brincos auriculares ou tatuagens na parte interna das coxas dos gados.
         Além disso, as cercas delimitaram os espaços, extinguindo os compáscuos (pastagens em que os gados de diferentes donos ruminavam) e limitando os deslocamentos dos animais, evitando a confusão sobre a propriedade dos gados tresmalhados.
         Hoje, os vaqueiros, comodamente, campeiam montados em motocicletas, sem sopitar-lhes qualquer dúvida sobre os animais de seu domínio. Essa modernidade ameaça extinguir o secular costume da ferra, um instituto aparentemente supérfluo, mas que compõem elementos essenciais na caracterização da propriedade dos tempos passados. Por isso sendo necessário registrar esse processo no âmago da família Feitosa, antes que o tempo o devore e o esquecimento o apague. 
                 
                  

  
BIBLIOGRAFIA:

Barroso, Gustavo, Terra de Sol, 8ª Ed., Rio - São Paulo - Fortaleza, ABC Editora, 2006.

Couto, Mons. Francisco de Assis, Monografias: Paróquia de Iguatu, Gênese de Iguatu, História do Icó, Diocese de Iguatu, Origens de São Mateus, Fortaleza - CE, Editora A. Batista Fontenele, 1999.

Faria, Oswaldo Lamartine de, Encouramento e Arreios do Vaqueiro no Seridó, Natal - RN, Fundação José Augusto, 1969.

Koster, Henry, Viagens ao Nordeste do Brasil, 12ª Ed., Rio - São Paulo - Fortaleza, ABC Editora, 2003.

Maia, Virgílio, Rudes Brasões: Ferro e Fogo das Marcas Avoengas, Cotia - São Paulo, Ateliê Editorial, 2004.

DOCUMENTOS:

Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil - Ceará, 20 de junho de 1744 e 17 de fevereiro de 1746.

                
           
                           
                
           
             




[1] Faria, Oswaldo Lamartine de, Encouramento e Arreios do Vaqueiro no Seridó, Natal - RN, Fundação José Augusto, 1969, p. 12.
[2] Maia, Virgílio, Rudes Brasões: Ferro e Fogo das Marcas Avoengas, Cotia - São Paulo, Ateliê Editorial, 2004, p. 07.
[3] No Rio Grande do Sul chama-se “marcação” e não “ferra” (Ver: Maia, op. cit., p. 74)
[4] As leis da Província do Ceará também tratavam do assunto, chamando ao gado de três anos, sem marca, de “barbatão” (Ver: Maia, op. cit., p. 27).
[5] Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil - Ceará, 20 de junho de 1744 e 17 de fevereiro de 1746.
[6] Couto, Mons. Francisco de Assis, Monografias: Paróquia de Iguatu, Gênese de Iguatu, História do Icó, Diocese de Iguatu, Origens de São Mateus, Fortaleza - CE, Editora A. Batista Fontenele, 1999, p. 41 e 93.
[7] Barroso, op. cit., p. 140.
[8] Esse episódio fora tratado por Luís Câmara Cascudo numa nota de rodapé (in Koster, Henry, Viagens ao Nordeste do Brasil, Volume I, 12ª Ed., Rio - São Paulo - Fortaleza, ABC Editora, 2003, p. 223).
[9] Maia, op. cit., p. 71.
[10] Faria, op. cit., p. 17.
[11] Maia, op. cit., p. 71.
[12] Ibidem, op. cit., p. 72.
[13] Barroso, Gustavo, Terra de Sol, 8ª Ed., Rio - São Paulo - Fortaleza, ABC Editora, 2006, p. 139.
[14] Maia, op. cit., p. 28.
[15] Ibidem, op. cit., p. 35.
[16] Barroso, op. cit., p. 140.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A MANUFATURA DA SELA, SUA TÉCNICA E SUA ARTE

A MANUFATURA DA SELA, SUA TÉCNICA E SUA ARTE
                                                                                
                                                           
                                                              Autor: Dr. Carlos Leite Feitosa
                                                         Postado por: Heitor Feitosa Macêdo
         

Diário de Notícias-RJ-04/12/1960.

         Quando o homem primitivo saiu das cavernas e ganhou o espaço decidido a conquistar o meio que se lhe deparava, um dos primeiros animais que procurou domesticar, para ajudá-lo na luta pela sobrevivência que, então, iniciava, foi, por certo, o cavalo selvagem. As notícias desta atividade do bípede perfeito datam da mais remota antiguidade.
         Não há dúvida de que a doma resultou de peleja cruenta. Presumivelmente, o cipó foi um colaborador eficiente, tornando-se, portanto, o primeiro arreio de que o homem se serviu.
         Ao depois, já afeito à sua presença, não obstante permanecesse arisco, passou o mais forte a empregar o vencido como meio de transporte. As caminhadas constantes advertiram o cavaleiro de que deveria utilizar-se de um forro para evitar as pisaduras no animal e o seu próprio maltrato físico.
         Desses cuidados e diante do rudimentar objeto, através de milênios de evolução e de aperfeiçoamento, chegou-se a sela de hoje, a peça principal dos apetrechos de uma montaria.
         Existe uma diversidade muito grande deste utensílio, de conformidade, não só com os usos e costumes de uma zona, como, igualmente, de acordo com a utilidade de cada um, bem assim, conforme as posses de quem vai os adquirir.
         A descrição que passamos a dar, a respeito do tema em estudo, devemo-la ao Mestre Alceu, de Acopiara, cuja Oficina de Selaria frequentamos por diversas vezes, e onde tivemos oportunidade de assistir à confecção de selas e de outras peças análogas. Outros mestres, não menos competentes, deram-nos suas contribuições, como o mestre Chicute, de Iguatu, o Mestre João Clarentino, em Cachoeira, Tauá, meu tio-afim, com quem convivemos e observamos a técnica do seu trabalho. Nós mesmos, somos membros de uma família colonizadora que tem três séculos de atividades vinculadas ao criatório e, como é óbvio, temos andado a braços com arreios de montarias.
         2 Montagem – A montagem de uma sela é trabalho de mestria. Não é servoço para entendidos, e nem tão pouco para curiosos. A sua viga mestra, a sua fuselagem, é o arção, que se compõem da meia-lua (atrás), da lua-de-sela (na frente) e das espendas, estas, em número de duas. Todas as peças são confeccionadas com madeira de lei.
         A meia-lua ou lua-de-trás, é uma peça côncavo-convexa de um centímetro, mais ou menos, de espessura, trabalhada em madeira resistente, e é encontrada, tanto nas selas de cavaleiros, como nas de amazonas. Tem, realmente, quando montada, a aparência de uma meia-lua, porém fora do arção apresenta a forma de um bolo achatado, do qual se retirou um bom naco triangular, com o vértice para dentro. O mestre Alceu, tomando a parte pelo todo, chama de burranha a meia-lua.
         A matéria-prima utilizada nessa peça é a oiticica, árvore da família das Chrysobalanaceae, Licanea rígida. “Há outra, como a Juramataia (árvore leguminosa)”. Mas, também é feita com imburana, da espécie de espinhos, planta da família das Burseraceae (Bursera leptophleos). O mestre Chicute utiliza, ainda, o pau-piranha, a canafístula. São João (de folha amarela), o cumaru, a samambaia (que o artista rústico chama de samaíba). Também é usada madeira vinda do Rio grande do Sul.
         A técnica exige o emprego de madeira forte, porque é nela que o cavaleiro exerce mais força  e, por sua disposição (inclinação e sem encosto) e colocação (presa nas extremidades inferiores, deixando livre e para cima, a parte mais ampla), tem pouco ou quase nenhum apoio, a não ser o que lhe dá o enervamento.
         A lua-da-sela, também conhecida por lua-da-frente, é o arção chamado, diz o Mestre Chicute, é a parte da frente. Tem o aspecto de uma meia laranja embocada, e é onde o cavaleiro está sempre se apoiando com as mãos, para montar-se ou desmontar, ou em razão de desequilíbrio na sela. Sua posição é a vertical.
         Espendas, que o operário conhece por alpendras, e o linguista e folclorista Florival Seraine colheu prendas (Ver. Do Inst. Do Ceará, 1937, pág. 20), em número de duas, uma de cada lado, são as traves que ligam a meia-lua à lua-da-sela.
         Em algumas técnicas, prendem-se nelas os loros e o rabicho, atravessando-as, para poder oferecer melhor segurança, não só em face da madeira, mas, também, do enervamento, o que não ocorreria se a elas fossem simplesmente presas, leciona o Mestre Alceu. O Mestre Chicuta, objetivando, prefere não prender os loros através das espendas, para não as enfraquecer, achando melhor passá-los por cima do arção. O sistema adotado pelo Mestre de Iguatu, evidentemente, oferece melhor segurança, pois, do esforço que o cavaleiro imprimir aos loros, apoiado nos estribos, não se ressentirão as espendas. Ao contrário, sentirá melhor sensação de estabilidade, uma vez que exerça sobre os loros, estará colando mais ainda a sela no animal, ao passo que, se os loros atravessassem as espendas, quando o cavaleiro fizesse força sobre os estribos, elas ameaçariam partir-se - e a tendência é esta, não só pelo seu natural enfraquecimento, como pelo esforço exigido delas.
         Montado o arção, podemos constatar as seguintes medidas técnicas: a distância da “meia-luz” (meia-lua?) para a lua-da-sela é de 42 cm, no topo. O Mestre Chicute, entretanto, afirma que este tamanho é para as pessoas gordas. O comum é 35 cm a 40 cm. A inclinação natural da meia-lua, mais levantada ou mais deitada, depois de presa às espendas, é feita a olho. Não há medida de angulação para ela, mas, tão somente, o bom senso do artista. A bitola do ângulo aberto da meia-lua, para baixo, é de 23,5 cm, e é feito com molde. Para a lua-da-sela, que também se faz com molde, o ângulo aberto mede 25,5 cm.
         Formado o arção, com as quatro peças fundamentais, de madeira, é ele coberto com couro cru (não curtido) de boi (genericamente, gado vacum), bom, espichado, ato que toma o nome de enervamento e se constitui na cobertura total, ou parcial, da peça, com a finalidade de torná-la mais resistente ao seu fim, formando um todo só, para lhe dar mais consistência. Florival Seraine (obra e lugar citados) encontrou a palavra enervo, para indicar este ato.
         A matéria-prima empregada neste serviço deve ser de primeira qualidade, pois o artista de couro jamais trabalha com material ordinário, inferior. Em algumas zonas, como a do Cariri, faz-se de couro de morrinha (por exemplo: de animal morto por tingui, arbusto da família das Leguminosas, Lupinos [caravela], apreciado pelo gado, porém, após a sua ingestão, tem que ficar inativo, sem poder ser agitado, sob pena de morte imediata, por intoxicação), ou por outra causa qualquer cujos arreios, chamados de carregação, pois recebem até pregos na colocação das gualdrapas às espendas, são vendidos nas afamadas feiras do Crato e do Juazeiro do Padre Cícero. O melhor material que existe é o oriundo de matutagem, de espécie morta em açougue, que provém de rês sadia.
         Tanto a sola com que se confeccionam as gualdrapas, como o couro com o qual se enerva o arção, antes de serem utilizados, tomam um banho especial de óleo, para que se torne flexível e obediente à vontade do artista. Antigamente, empregava-se o óleo de pequi ou piqui, o mesmo que piquizeiro, árvore da família das Coriocáceas (Caryocar brasiliensis, Cam...?), óleo de linhaça (de semente de linho), que não eram tão bons como o de peixe.
         Atualmente, este tratamento é feito com óleo extraído do caroço do algodoeiro, planta têxtil da família das Malváceas. E no encouramento do arção que ele oferece os melhores resultados, segundo experiência realizada em 1928, pelo Mestre Chicute. Já tivemos ensejo de presenciar o Mestre João Clarentino, no lugar Cachoeira, em Tauá, aplicando a baga de carrapateira, planta da família das Enforbiáceas (Ricinus comunis, L.), também chamada mamona, o que se conseguia pela maceração das sementes. A peça submetida a este processo passava de uma a duas semanas fora de atividade, para que o óleo pudesse entranhar bem.
         O enervamento, ou enervo, pode cobrir totalmente o arção, ou apenas restringir-se a prender as peças principais, dando solidez ao conjunto, como se tratasse de trabalho confeccionado como uma única peça de madeira.
         Concluído o arção, que é a ossatura da sela, são preparados os suadores, em número de dois, um de cada lado. São espécies de almofadas, que se destinam a neutralizar os traumatismos que a sela produziria no animal se fosse posta diretamente, e que tem uma face de sola, para a qual se exige o mesmo material das gualdrapas, e , a outra, de lona boa, para resistir ao suor e ao esforço que sobre ele se exerce. A face de sola fica em contato com as gualdrapas, a de lona com a esteira que se interpõe entre o animal e a sela.
         O material de seu enchimento é a coroa de frade (popularmente, crôa de frade), planta da família das Cactáceas (Melocatus Neryl), pendão de cana (planta gramínea), capim macio (espécie de gramíneas), etc. Lançando-se mão da coroa de frade, que é o melhor enchimento que existe, queimam-se os espinhos.
         As gualdrapas ou capas (duas), são espécies de manta de sola que se estende por cima do arção, sendo a ele presas, as quais se unem na parte superior. O Mestre Chicute prefere chamá-las familiarmente de capas, porque, diz ele, são elas realmente, as capas da sela. Têm forma variada de acordo com a utilidade da sela. As de campo, possuem-na quadrada, visando proteger o mais possível o ventre do animal, com desenhos em baixo relevo. As das selas de passeio são arredondadas na parte anterior, formando um lobo, e cavada na posterior. Nestas, é utilizada a sola comum. No entanto, tratando-se de encomenda especial, faz-se de sola cilindrada. As gualdrapas vêm ligadas com a empanada.
         Terminadas as gualdrapas, passa-se a cuidar dos coxins, que se estendem sobre o arção e é uma peça inteiriça, unindo a bainha da burranha e a lua-da-sela. São eles costurados por fora para formar o local dos cheios. Se a sela for de mulher, chama-se, bainha de canudo, a bainha da burranha. Quando o coxim é trabalhado, toma o nome de carona. Se é liso, denomina-se, simplesmente, sobrecapa.
         O coxim, quer se apresenta como caronado, no caso do selote, ou como sobrecapa, na campeira, é uma peça que arremata o trabalho.
         Burranha, palavra consignada em “Enriqueça o seu Vocabulário”, do mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, embora não figure na 4ª edição, de 1943, do “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”, de Hidelbrando Lima e Gustavo Barroso, é uma peça que embainha o arção para segurar as gualdrapas e a empanada e constitui o enchimento onde se senta o cavaleiro. Tanto pode ser encontrada na sela de homem, como na de mulher. É colocada por cima da empanada que, por sua vez, fica sobre a enervadura.
         Por cima dos coxins está o seu empanamento a que o Mestre Chicute chama empanada, e diz que é feito de algodãozinho bom, cobrindo toda a sela, mas com enchimento – que é de pluma de algodão – somente no assento. Vale dizer: apenas na parte onde o cavaleiro monta. O empanamento ou empanada destina-se a formar o cheio e a armar a sobrecapa.
         3 Acabamento – Como parte do acabamento, vem a sobrecapa que é feita de couro macio, de bode ou cabra (caprino, o mesmo que caprum), de carneiro ou ovelha  (ovino, o mesmo que ovelhum), de vaqueta (couro delgado para forros), dos mais diversos matizes, como sejam: preto, azul, encarnado, roxo, amarelo, cinza, marrom, branco, etc. Não pode ser feita de couro laminado, pois precisa ter elasticidade.
         É nos desenhos da sobrecapa que o artista apresenta toda a sua arte. São feitos a olho, pois não há figurinos a imitar, mas, unicamente, a imaginação do obreiro, que os modifica todos os dias, recriando, afirma o Mestre de Iguatu. Pelo colorido das peças aplicadas, em que se emprega a pelica de diversos matizes, vê-se que se trata de uma verdadeira arte aplicada, a confecção de tão linda peça. Quando o artista está executando a sua arte, observa-se a sua preocupação em torná-la uma obra-prima, sente-se o seu esforço criador, nota-se a sua abstração comparada à dos Grandes Mestres da Pintura, da Escultura, da Tapeçaria, etc.
         O remate da sela, no entanto, só se conclui com o caronado, que é uma peça que dá melhor aspecto ao utensílio e maior conforto ao cavaleiro, com os debruns (remates), os floretes (enfeites), os rebaixos (baixos relevos), com as peças complementares e com as acessórias.
         O caronado, que o rústico chama corõeado, coronado e coronhado, é o serviço de estofamento e de costura que se faz somente na sobrecapa, e tem esse nome por semelhança do identicamente executado na carona, que o homem simples denomina corona, por influência da palavra couro, material usado nessa peça. (Ver encourado, por encourado). Coronado é o coxim fantasiado (trabalhado).
         Os debruns são feitos nos terminais, aureolando a sobrecapa e a capa das selas de passeio, arrematando referidas peças. As selas de campo são simples, não tem lugar para refinamentos.
         Floretes (o Mestre Chicute prefere chamar enfeites) são desenhos produzidos por aplicação de peças de cores variadas, fazendo-se matizado de duas, três e mais tonalidades. O couro é de verniz. Nas guardas da sobrecapa são aplicados vários enfeites singelos, como sejam: boquinhas redondas, flores, etc. Em uma sobrecapa, algumas vezes, emprega-se de 4 a 5 marcadores diferentes. Em terra adiantada, os artistas servem-se da estampa, marcando figura de animais. É o início da industrialização da sela, com o declínio da manufatura.
         Rebaixos são baixos relevos feitos na sola das gualdrapas das selas de campo, esclarece o Mestre Chicute, marcados com ponta de ferro, utilizando-se de punções que são batidos com martelo maneiro. Ao invés de punções, o artista de Iguatu fala em vazador cortado, sem ponta.
         4 Peças complementares – As peças que completam a sela, são os loros (dois), com o indispensável estribo; as cilhas, em número de duas; e o rabicho.
         Os loros são correias duplas de onde pendem os estribos, destinados a auxiliar a firmeza do cavaleiro sobre a sela, apoiando-se neles com os pés metidos nos estribos. São presos nas espendas, onde, também, é atado o rabicho. A bitola do loro, em média, é de 1,38 m. Nas oficinas, para evitar o uso constante da trena, com evidente desperdício de tempo, a técnica do artista é tirar as medidas calculando, em seu corpo, o tamanho da peça. Presenciamos o Mestre Alceu calcando a ponta de uma tira de sola com o pé em terra e levando a outra ponta até o queixo, onde media, exatamente, 1,38 m. Ao invés de atravessá-lo nas espendas, como assim o faz o Mestre Alceu, de Acopiara (sertão dos Quixelôs), o Mestre Chicute, de Iguatu (Médio Jaguaribe), prefere passar os loros por cima das espendas, para não diminuir a sua resistência. Para este último artista, os loros devem ter, não 1,38 m, como usa o Mestre Alceu, porém, sete palmos de comprimento, medidas tomadas da fivela para a pinta de abotoar.
         Cilhas – Prendendo a sela à cavalgadura, por baixo do seu ventre, existem as cilhas (a Cia dos matutos), que são duas: a cilha-da-frente e a cilha-de-trás. A cilha-da-frente, também chamada cilha-de-diante, pela bitola, ela é medida pela mesma maneira por que é feita a do loro. Já assistimos ao Mestre Alceu tirando suas medidas da do tamanho de uma braça sua, o que era feito do modo seguinte: mãos abertas, de ponta a ponta dos dedos e, mais, um braço: dos dedos até o cotovelo, por dentro do braço.
         Para proteger o animal, a cilha-da-frente é obrigada a ser de trança, uma vez que ela pega no sovaco do animal. Para maior embelezamento da peça, faz-se de trança fechada, onde entra muita arte, diz o Mestre Chicute. É trabalho difícil, continua o artista de Iguatu, e quem se meter a executá-lo, sem saber, passa de 30 a 50 anos tentando, e não o faz, sem ser ensinado. Costuma-se preparar com três pernas e com cinco, e só a acerta quem passar a ponta de três em três, ou de cinco em cinco, consoante a quantidade de pernas, ensina-nos o Mestre Chicute.
         A cilha-de-trás é um pouco maior, devido o ventre do animal. Tem o tamanho de 2,30 m. Na prática, a medida é tirada do mesmo modo por que se faz a da cilha-da-frente, sendo que, ao invés de a mensura terminar no cotovelo, vai até a axila. Há, ainda, outro sistema de medir-se a cilha-de-trás: prende-se uma ponta nos pés e levanta-se a outra até a extremidade dos dedos das mãos, levantadas para cima. O Mestre Chicute usa o palmo ao invés do metro. Então, diz que as cilhas têm 9 palmos de comprimento e passam por baixo das gualdrapas, ultrapassando-as, mas por cima do arção.
Diário de Notícias-RJ-04/12/1960.
         A cilha-de-trás é sempre lisa, porque está conforme a barriga do animal. A cilha estreita é mais segura, porque faz barriga, e, por isto, não deixa a sela correr, adverte o Mestre Chicute.
         O rabicho é uma peça inteiriça terminada em duas pontas que se prendem ao arção, passando por baixo da cauda do animal, destinado a manter a sela no centro do seu espinhaço, impedindo-a de correr para o pescoço. A parte central da sola deve ser macia e bem protegida, porque vai pegar o animal por baixo da cauda, em parte sensível, recomenda o Mestre Chicute. Já as pontas que se ligam à sela, devem ser fortes para poder suportar os repuxos. Como trabalho de arte, há no rabicho pequenos enfeites e recortes nos “debordos” procurando dar à peça um aspecto bonito.
         Muito ainda teríamos que dizer, não só a respeito da técnica e da arte da manufatura da sela, mas, também, sobre peças acessórias, como o peitoral, a rabichola, os alforjes, a carona, a cincha, o coxinulho ou coxonilho, etc., mas o angustioso espaço das colunas de um jornal não permite maior expansão.
         Por outro lado, a tentativa de sistematização que ora apresentamos, visa apenas despertar estímulos para [ilegível] estudos, na esperança de que obra alentada atinente ao assunto seja publicada por mestres.
(In Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 04 de dezembro de 1960)
           
        
                   
        
                  
                
        
           

terça-feira, 9 de julho de 2013

OS BAITOLAS DE VERDADE: ORIGEM DO TERMO BAITOLA


OS BAITOLAS DE VERDADE: ORIGEM DO TERMO BAITOLA
                                                                                             
                                                                                                       
                                                                                                    Heitor Feitosa Macêdo


         Às vezes uma palavra é suficiente para denunciar um costume secular, escondido entre práticas completamente adversas, contrárias, antípodas, em negativas subconscientes de certos hábitos. É exatamente nesse contexto que se põe o termo “baitola”, frequentemente propalado pelos sertões nordestinos.
         Essa designação é comum no Ceará, o que não significa que tal expressão tenha sido gestada unicamente nessa parte do Nordeste, pois se observa o uso desse vocábulo também em regiões circunvizinhas. Além disso, a etimologia aponta relativa generalidade do termo no território brasileiro. Somando-se a tudo isso a antiga e frequente prática da homossexualidade.
         Num retrospecto bíblico encontra-se desabrida condenação à prática do coito anal, tendo Deus aspergido uma chuva de enxofre sobre Sodoma e Gomorra, matando seus habitantes carbonizados. Pobres sodomitas que morreram pelo amor e pelo "mau" uso de seus orifícios! Então, num mundo sustido na religião monoteísta, pela qual o Ocidente fora dominado, é bastante natural a aplicação de sanções a esse “nefando pecado”.
         Porém, para que não se perca, voltando mais um pouco no tempo, veem-se os gregos e romanos, gente que gozava da virilidade de mancebos enquanto escrevinhavam seus tratados de filosofia. Esses cultores de rapazes legaram aos tempos modernos inestimáveis compêndios científicos, que por muito tempo foram suprimidos pela Igreja, pois, afinal, tratavam-se de ideias criadas em seio politeísta.
         O homem quinhentista, ao desembarcar na terra de pindorama (terras das palmeiras, como era chamado o Brasil pelos índios), trazia em sua bagagem os mesmos tabus da Idade Média, temendo o fogo da inquisição pela impudicícia.
         Essa sociedade “genitalizada” e teoricamente monogâmica disseminou-se pelos sertões, incluindo os do Nordeste. A família formava a célula desse corpo social, cabendo ao pater familias decidir sobre os destinos da sua propriedade, ou seja, além dos bens imóveis, a mulher, os filhos e os escravos.
         Ao patriarca era dado o desfrute de possuir “de fato” quantas mulheres lhe aprouvesse, impondo-se a monogamia unicamente à classe feminina. Quanto aos filhos, cabia também ao chefe da família escolher-lhes a sorte, mesmo aos rebentos varões, ditando qual seria assexuado, seguindo a vida sacerdotal; e reservando às filhas casamentos escolhidos, geralmente, entregando-as ainda pré-adolescentes a outros velhos ricos.
         Rodeado de mulheres escravas, negras ou índias, incluindo-se as cunhãs surripiadas das aldeias pelas chamadas guerras justas, o patriarca geria verdadeiro harém. Muitos ficaram célebres por esse seu poder procriador, havendo destaque para Jerônimo de Albuquerque, apelidado de o Torto, por perder um olho em luta com os índios. Esse indivíduo teve 26 filhos, por isso ser também chamado de o “Adão pernambucano”[1].
         Jerônimo de Albuquerque viveu maritalmente com a índia Maria do Espírito Santo Arco Verde (filha do cacique Ubiraubi - Arco Verde), nascendo dessa união Catarina de Albuquerque (a Velha), a primeira filha do casal e a mais amada pelo pai.
         Catarina casou-se com um fidalgo florentino, Felipe de Cavalcante, que havia migrado da Itália por sofrer perseguição da poderosa família Médice.[2] Então, veio ele residir na Capitania de Pernambuco, deixando numerosa prole, da qual descende quase toda população nordestina, não sendo exagero afirmar que a maioria das famílias brasileiras possui alguma gota de sangue desse notável patriarca.
          Esses descendentes de Felipe e Catarina se lançaram ao sertão, espalhando-se pelos quatro ventos, e legando à atualidade as populações desses rincões. Destaque-se que os Cavalcante desmembraram-se em outras famílias, quase sempre aristocráticas, as quais, por muito tempo, ostentaram riqueza e valentia, inclusive no semiárido.  
         Porém, contrastando com o estereótipo sertanejo, Felipe carregava hábitos discrepantes aos institucionalizados pela tradição dos rudes moradores da caatinga. Isso pelo fato de o dito fidalgo ser acusado perante o Tribunal do Santo Ofício por sodomia, sendo denunciado por Belchior Mendes de Azevedo.[3]
         A sodomia era tratada por “pecado nefando”, e os dicionários mais antigos não a especificam, simplesmente registrando sua significação da seguinte forma: “Pecado, por antonomásia, nefando, e por consequência indigno de definição por sua torpeza”.[4] Mas, o que seria nefando?
         Segundo o velho dicionário do Padre Bluteau, nefando é coisa indigna de exprimir com palavras, coisa da qual não se pode falar sem vergonha. O mesmo autor remete o pecado nefando, o de sodomia, ao demônio Incubo ou Sucubo, que ora serve de homem, ora de mulher.[5] Mas, como é sabido, trata-se da conjunção sexual anal, entre homem e mulher ou entre dois homens.
         Diz Gilberto Freyre[6] que os filhos família (filhos dos fazendeiros) muitas vezes iniciavam sua vida sexual com os moleques (filhos dos negros escravos), companheiros de brinquedos, sendo estes também chamados de “leva pancadas”, pois, frequentemente, eram vítimas de brincadeiras sádicas dos senhorzinhos.
         Ressalte-se a miscigenação do “tipo brasileiro”, já que é eticamente errado falar em raça, uma verdadeira mistura de brancos, negros e índios, sendo que estes últimos (os ameríndios) também não ficaram alheios à prática do amor sáfico ou socrático, ou seja, entre eles também houve homossexualismo.
         Os indígenas estavam organizados em uma sociedade “gerontocrática” [7], onde os mais velhos exerciam influência sobre as deliberações do restante da tribo. E, sendo a guerra uma constante entre aqueles povos, o homem adulto era mais valorizado do que as crianças e mulheres.[8] A masculinização era uma necessidade.
         Em regra, os chefes tupis possuíam mais de uma mulher, registrando-se 13 esposas para Cunhambebe e 34 para Amendua.[9] Entretanto, essa virilidade era posta a prova durante o desenvolvimento dos indivíduos mais jovens, que passavam de mitã a culumim-mirim, depois a culumim-guaçu,[10] até chegar a avá e tujuáe.[11]
         Nas fases iniciais, os jovens eram postos em compartimentos privativos aos homens, onde passavam por rituais secretos. Esse ambiente era chamado de “Baito”, que, segundo Gilberto Freyre, era “uma espécie de lojas de maçonaria indígena”.[12]  Os índios praticavam a pederastia sem ser por escassez ou privação de mulher, quando muito, pela influência do período de internato nessas casas secretas.[13]
         Entre os gentios do sexo masculino, deitar com as tias, irmãs e filhas não lhes causava nenhum embaraço, e muito menos os constrangia copular com outros machos. Sobre essa luxúria, diz Gabriel Soares de Sousa que muitos índios morriam exaustos de tanto fornicarem, além disso, eles aumentavam o órgão fálico com os pelos de um bicho peçonhento, tornando suas genitálias inchadas e disformes, ademais, assevera o autor que alguns valentes índios se gabavam por se servirem de outros homens, havendo nos sertões “alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas”.[14]
         Frise-se que a homossexualidade não se restringia aos homens, existindo também mulheres que faziam as vezes de varões, como fora observado por Gandavo[15]:

Algumas índias a que também entre eles determinam de ser castas, as quais não conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consentirão ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios, como se não fossem fêmeas. Trazem os cabelos cortados da mesma maneira que os machos, e vão à guerra com seus arcos e flechas, e à caça perseverando sempre na companhia dos homens, e cada uma tem mulher que a serve, com quem diz que é casada, e assim se comunicam e conversam como marido e mulher.         
         
        Muitas etnias ameríndias habitaram o território cearense, inclusive os tupis, sob o nome de Tabajaras, moradores no litoral da Capitania. Outro tanto de índios residia no interior, chamados genericamente de tapuias, ou seja, contrários aos tupis, índios bravios ou de língua travada (que não falavam a língua geral, o tupi-guarani), figurando entre eles os Cariús, Jenipapos, Cariris, Jucás, Icós, Canindés etc.
         O intercurso racial resultou numa aculturação, isto é, na formação de uma cultura híbrida, sendo a palavra “baitola” uma dessas reminiscências. Algumas versões folclóricas tentam explicar o étimo de tal expressão, contudo, terminam em suposições jocosas e insustentáveis.
Em verdade, “baitola” ou “baitolo” derivam do termo indígena supramencionado, “baito”, recinto reservado aos jovens, com o acréscimo do sufixo “la” ou “lo”, certamente um hibridismo provindo da língua portuguesa, pois a fonética gentílica desconhecia o som da letra “l”. Cabe destacar que uma variante tupi para baito é “baité”, desmembrando-se em “mbaé”, aquele que é, e “ité”, frio, discordante.[16]  
No Ceará, ainda hoje, também é comum ouvir-se o termo “baitinga”[17], cuja etimologia concerne a “baito”, com o acréscimo de “tinga” (branco), constituindo outra remissão índia aos indivíduos homoafetivos de cor branca.
Talvez a discussão a respeito da etimologia de uma palavra dessa natureza pareça algo insignificante. Porém, representa uma das principais consequências do etnocídio acometido aos povos indígenas, pois o uso da língua bugre fora veemente proibido, inclusive em muitas aldeias, e oficialmente banido pelo Marquês de Pombal em 1758.
 É necessário dizer que uma palavra pode ir além das definições aduzidas pelos dicionários, como a expressão em comento, que ultrapassa a sua literalidade jocosa e discriminante, para alcançar importantes fatos históricos, a partir de sua etimologia e da variação semântica no decorrer do tempo.   
         Desta feita, vê-se que, talvez, inexista brasileiro que não possua um “gay” na família, mesmo que seja um tataravô da era colonial. Não ficando de fora os brancos, nem mesmo os negros, e quanto aos índios, são estes, indubitavelmente, os precursores dos baitolas de verdade.   
        

BIBLIOGRAFIA:

Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712.

Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011.

Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006.

Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935.

Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977.

Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008.

Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950.

Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010.    



[1] Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977, p. 278.
[2] Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935, p. 208.
[3] Freyre, op. cit., p. 321.
[4] Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712, p. 688.
[5] Ibidem, op. cit., p. 698.
[6] Freyre, op., cit., p 50.

[7] Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006, p. 204, 190 e 289.
[8] Ibidem, op. cit., p. 206.
[9] Ibidem, op. cit., p. 271.
[10] Ibidem, op. cit., p. 196 e 197.
[11] Ibidem, op. cit., p. 188 e 189.
[12] Freyre, op. cit., p 118 e p. 136.
[13] Ibidem, op. cit., p. 119.
[14] Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010, p. 299.
[15] Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008, p. 136.
[16] Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011, p. 87.
[17] Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950, p. 10.