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terça-feira, 9 de julho de 2013

OS BAITOLAS DE VERDADE: ORIGEM DO TERMO BAITOLA


OS BAITOLAS DE VERDADE: ORIGEM DO TERMO BAITOLA
                                                                                             
                                                                                                       
                                                                                                    Heitor Feitosa Macêdo


         Às vezes uma palavra é suficiente para denunciar um costume secular, escondido entre práticas completamente adversas, contrárias, antípodas, em negativas subconscientes de certos hábitos. É exatamente nesse contexto que se põe o termo “baitola”, frequentemente propalado pelos sertões nordestinos.
         Essa designação é comum no Ceará, o que não significa que tal expressão tenha sido gestada unicamente nessa parte do Nordeste, pois se observa o uso desse vocábulo também em regiões circunvizinhas. Além disso, a etimologia aponta relativa generalidade do termo no território brasileiro. Somando-se a tudo isso a antiga e frequente prática da homossexualidade.
         Num retrospecto bíblico encontra-se desabrida condenação à prática do coito anal, tendo Deus aspergido uma chuva de enxofre sobre Sodoma e Gomorra, matando seus habitantes carbonizados. Pobres sodomitas que morreram pelo amor e pelo "mau" uso de seus orifícios! Então, num mundo sustido na religião monoteísta, pela qual o Ocidente fora dominado, é bastante natural a aplicação de sanções a esse “nefando pecado”.
         Porém, para que não se perca, voltando mais um pouco no tempo, veem-se os gregos e romanos, gente que gozava da virilidade de mancebos enquanto escrevinhavam seus tratados de filosofia. Esses cultores de rapazes legaram aos tempos modernos inestimáveis compêndios científicos, que por muito tempo foram suprimidos pela Igreja, pois, afinal, tratavam-se de ideias criadas em seio politeísta.
         O homem quinhentista, ao desembarcar na terra de pindorama (terras das palmeiras, como era chamado o Brasil pelos índios), trazia em sua bagagem os mesmos tabus da Idade Média, temendo o fogo da inquisição pela impudicícia.
         Essa sociedade “genitalizada” e teoricamente monogâmica disseminou-se pelos sertões, incluindo os do Nordeste. A família formava a célula desse corpo social, cabendo ao pater familias decidir sobre os destinos da sua propriedade, ou seja, além dos bens imóveis, a mulher, os filhos e os escravos.
         Ao patriarca era dado o desfrute de possuir “de fato” quantas mulheres lhe aprouvesse, impondo-se a monogamia unicamente à classe feminina. Quanto aos filhos, cabia também ao chefe da família escolher-lhes a sorte, mesmo aos rebentos varões, ditando qual seria assexuado, seguindo a vida sacerdotal; e reservando às filhas casamentos escolhidos, geralmente, entregando-as ainda pré-adolescentes a outros velhos ricos.
         Rodeado de mulheres escravas, negras ou índias, incluindo-se as cunhãs surripiadas das aldeias pelas chamadas guerras justas, o patriarca geria verdadeiro harém. Muitos ficaram célebres por esse seu poder procriador, havendo destaque para Jerônimo de Albuquerque, apelidado de o Torto, por perder um olho em luta com os índios. Esse indivíduo teve 26 filhos, por isso ser também chamado de o “Adão pernambucano”[1].
         Jerônimo de Albuquerque viveu maritalmente com a índia Maria do Espírito Santo Arco Verde (filha do cacique Ubiraubi - Arco Verde), nascendo dessa união Catarina de Albuquerque (a Velha), a primeira filha do casal e a mais amada pelo pai.
         Catarina casou-se com um fidalgo florentino, Felipe de Cavalcante, que havia migrado da Itália por sofrer perseguição da poderosa família Médice.[2] Então, veio ele residir na Capitania de Pernambuco, deixando numerosa prole, da qual descende quase toda população nordestina, não sendo exagero afirmar que a maioria das famílias brasileiras possui alguma gota de sangue desse notável patriarca.
          Esses descendentes de Felipe e Catarina se lançaram ao sertão, espalhando-se pelos quatro ventos, e legando à atualidade as populações desses rincões. Destaque-se que os Cavalcante desmembraram-se em outras famílias, quase sempre aristocráticas, as quais, por muito tempo, ostentaram riqueza e valentia, inclusive no semiárido.  
         Porém, contrastando com o estereótipo sertanejo, Felipe carregava hábitos discrepantes aos institucionalizados pela tradição dos rudes moradores da caatinga. Isso pelo fato de o dito fidalgo ser acusado perante o Tribunal do Santo Ofício por sodomia, sendo denunciado por Belchior Mendes de Azevedo.[3]
         A sodomia era tratada por “pecado nefando”, e os dicionários mais antigos não a especificam, simplesmente registrando sua significação da seguinte forma: “Pecado, por antonomásia, nefando, e por consequência indigno de definição por sua torpeza”.[4] Mas, o que seria nefando?
         Segundo o velho dicionário do Padre Bluteau, nefando é coisa indigna de exprimir com palavras, coisa da qual não se pode falar sem vergonha. O mesmo autor remete o pecado nefando, o de sodomia, ao demônio Incubo ou Sucubo, que ora serve de homem, ora de mulher.[5] Mas, como é sabido, trata-se da conjunção sexual anal, entre homem e mulher ou entre dois homens.
         Diz Gilberto Freyre[6] que os filhos família (filhos dos fazendeiros) muitas vezes iniciavam sua vida sexual com os moleques (filhos dos negros escravos), companheiros de brinquedos, sendo estes também chamados de “leva pancadas”, pois, frequentemente, eram vítimas de brincadeiras sádicas dos senhorzinhos.
         Ressalte-se a miscigenação do “tipo brasileiro”, já que é eticamente errado falar em raça, uma verdadeira mistura de brancos, negros e índios, sendo que estes últimos (os ameríndios) também não ficaram alheios à prática do amor sáfico ou socrático, ou seja, entre eles também houve homossexualismo.
         Os indígenas estavam organizados em uma sociedade “gerontocrática” [7], onde os mais velhos exerciam influência sobre as deliberações do restante da tribo. E, sendo a guerra uma constante entre aqueles povos, o homem adulto era mais valorizado do que as crianças e mulheres.[8] A masculinização era uma necessidade.
         Em regra, os chefes tupis possuíam mais de uma mulher, registrando-se 13 esposas para Cunhambebe e 34 para Amendua.[9] Entretanto, essa virilidade era posta a prova durante o desenvolvimento dos indivíduos mais jovens, que passavam de mitã a culumim-mirim, depois a culumim-guaçu,[10] até chegar a avá e tujuáe.[11]
         Nas fases iniciais, os jovens eram postos em compartimentos privativos aos homens, onde passavam por rituais secretos. Esse ambiente era chamado de “Baito”, que, segundo Gilberto Freyre, era “uma espécie de lojas de maçonaria indígena”.[12]  Os índios praticavam a pederastia sem ser por escassez ou privação de mulher, quando muito, pela influência do período de internato nessas casas secretas.[13]
         Entre os gentios do sexo masculino, deitar com as tias, irmãs e filhas não lhes causava nenhum embaraço, e muito menos os constrangia copular com outros machos. Sobre essa luxúria, diz Gabriel Soares de Sousa que muitos índios morriam exaustos de tanto fornicarem, além disso, eles aumentavam o órgão fálico com os pelos de um bicho peçonhento, tornando suas genitálias inchadas e disformes, ademais, assevera o autor que alguns valentes índios se gabavam por se servirem de outros homens, havendo nos sertões “alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas”.[14]
         Frise-se que a homossexualidade não se restringia aos homens, existindo também mulheres que faziam as vezes de varões, como fora observado por Gandavo[15]:

Algumas índias a que também entre eles determinam de ser castas, as quais não conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consentirão ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios, como se não fossem fêmeas. Trazem os cabelos cortados da mesma maneira que os machos, e vão à guerra com seus arcos e flechas, e à caça perseverando sempre na companhia dos homens, e cada uma tem mulher que a serve, com quem diz que é casada, e assim se comunicam e conversam como marido e mulher.         
         
        Muitas etnias ameríndias habitaram o território cearense, inclusive os tupis, sob o nome de Tabajaras, moradores no litoral da Capitania. Outro tanto de índios residia no interior, chamados genericamente de tapuias, ou seja, contrários aos tupis, índios bravios ou de língua travada (que não falavam a língua geral, o tupi-guarani), figurando entre eles os Cariús, Jenipapos, Cariris, Jucás, Icós, Canindés etc.
         O intercurso racial resultou numa aculturação, isto é, na formação de uma cultura híbrida, sendo a palavra “baitola” uma dessas reminiscências. Algumas versões folclóricas tentam explicar o étimo de tal expressão, contudo, terminam em suposições jocosas e insustentáveis.
Em verdade, “baitola” ou “baitolo” derivam do termo indígena supramencionado, “baito”, recinto reservado aos jovens, com o acréscimo do sufixo “la” ou “lo”, certamente um hibridismo provindo da língua portuguesa, pois a fonética gentílica desconhecia o som da letra “l”. Cabe destacar que uma variante tupi para baito é “baité”, desmembrando-se em “mbaé”, aquele que é, e “ité”, frio, discordante.[16]  
No Ceará, ainda hoje, também é comum ouvir-se o termo “baitinga”[17], cuja etimologia concerne a “baito”, com o acréscimo de “tinga” (branco), constituindo outra remissão índia aos indivíduos homoafetivos de cor branca.
Talvez a discussão a respeito da etimologia de uma palavra dessa natureza pareça algo insignificante. Porém, representa uma das principais consequências do etnocídio acometido aos povos indígenas, pois o uso da língua bugre fora veemente proibido, inclusive em muitas aldeias, e oficialmente banido pelo Marquês de Pombal em 1758.
 É necessário dizer que uma palavra pode ir além das definições aduzidas pelos dicionários, como a expressão em comento, que ultrapassa a sua literalidade jocosa e discriminante, para alcançar importantes fatos históricos, a partir de sua etimologia e da variação semântica no decorrer do tempo.   
         Desta feita, vê-se que, talvez, inexista brasileiro que não possua um “gay” na família, mesmo que seja um tataravô da era colonial. Não ficando de fora os brancos, nem mesmo os negros, e quanto aos índios, são estes, indubitavelmente, os precursores dos baitolas de verdade.   
        

BIBLIOGRAFIA:

Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712.

Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011.

Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006.

Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935.

Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977.

Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008.

Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950.

Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010.    



[1] Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977, p. 278.
[2] Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935, p. 208.
[3] Freyre, op. cit., p. 321.
[4] Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712, p. 688.
[5] Ibidem, op. cit., p. 698.
[6] Freyre, op., cit., p 50.

[7] Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006, p. 204, 190 e 289.
[8] Ibidem, op. cit., p. 206.
[9] Ibidem, op. cit., p. 271.
[10] Ibidem, op. cit., p. 196 e 197.
[11] Ibidem, op. cit., p. 188 e 189.
[12] Freyre, op. cit., p 118 e p. 136.
[13] Ibidem, op. cit., p. 119.
[14] Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010, p. 299.
[15] Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008, p. 136.
[16] Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011, p. 87.
[17] Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950, p. 10.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A PARTICIPAÇÃO DO CORONEL JOÃO DE ARAÚJO CHAVES NA GUERRA DE INDEPENDÊNCIA

A PARTICIPAÇÃO DO CORONEL JOÃO DE ARAÚJO CHAVES NA GUERRA DE INDEPENDÊNCIA

                                                                                Heitor Feitosa Macêdo
        
Coronel João de Araújo Chaves, da Fazenda Estreito
         A emancipação política do Brasil e o reconhecimento desse status foram episódios distintos, que merecem ser claramente divisados, pois creditar que o Brasil tenha se desvencilhado de Portugal unicamente pelo pagamento de cerca de 22 milhões de libras esterlinas é um erro.
         O território brasileiro até 1751[1] estava dividido em dois “Estados”, ou melhor, em duas colônias, a do Maranhão (iniciando da província do Piauí e estendendo-se por toda a região Norte, a Amazônia) e a do Brasil (começando do Ceará até a porção Sul do país, ressaltando-se que o atual litoral do Piauí, naquela data, pertencia à província do Ceará).
         Na época da independência pretendeu-se restabelecer o antigo Estado do Maranhão, conforme a vontade da burguesia portuguesa[2] e de D. João VI,[3] que tencionavam continuar na sua administração. Assim, o Brasil ficaria independente, porém, dividido.
         O processo emancipatório fora iniciado em alguns pontos do Brasil antes do suposto grito de D. Pedro I, e, curiosamente, mesmo depois de proclamada a independência, algumas tropas militares mantiveram-se relutantes e contrárias à causa.
         Na Bahia travou-se intensa luta, mas como não havia um exército organizado, foi necessário lançar mão de mercenários ingleses, franceses e alemães, além de milícias e populares, sob o comando de Labatut e, posteriormente, de Cochrane. Assim, os portugueses comandados por Madeira de Melo foram derrotados em dois de julho de 1823.[4]
         Porém, o território a partir do Piauí até a região Amazônica estava sob o domínio português, postando-se à frente desse exército o Sargento-mor José da Cunha Fidié, lusitano nomeado Comandante das armas da província do Piauí em nove de dezembro de 1821, ocasião em que recebera expressa ordem de manter a unidade das Províncias do Norte e a submissão destas à Corte Lusitana.
         Não se pode alegar ignorância por parte de Fidié em relação ao movimento de independência, porque tinha ele ciência da posição de D. Pedro I, mas, mesmo assim, preferiu seguir os propósitos da Coroa portuguesa, realizando a vontade de D. João VI em não entregar o Norte do Brasil ao Príncipe regente.[5]
         Sem ter qualquer notícia desses movimentos pelo país, os sertanejos do interior da província do Ceará proclamaram a independência, havendo destaque para o Crato, onde sua população já havia experimentado outrora, em 1817, a instituição da República. Nesta cidade, a informação sobre a oficialização da Independência, feita por D. Pedro I, somente chegou no dia 26 de dezembro de 1822[6], contudo, o povo cratense já o havia feito desde o dia 1º de setembro de 1822.[7]
         Sob a alcunha de Exército Independente seguiram os emancipacionistas do Crato em direção do Icó, onde a população era predominantemente portuguesa, tomando este reduto e instituindo um Governo Temporário, em 16 de outubro de 1822.
         Do Icó, o Exército Independente, formado por cerca de dois mil homens[8] e comandado por José Pereira Filgueiras, marcha em direção à Fortaleza/CE, que foi dominada pelos líderes caririenses. Então, no dia 23 de janeiro de 1823 os emancipacionistas assumem formalmente o Governo da província do Ceará elegendo-se uma Junta Governativa.[9]
         Mas isso não bastou para os cearenses, os quais, tão logo, cuidaram em expandir o movimento de libertação para o Piauí, constituindo a Força Expedicionária do Ceará, também denominada de Delegação Expedicionária, Exército Expedicionário ou Exército Libertador.[10]  
         Esse exército partira para o Piauí no dia 29 de março de 1823, no entanto, o Cel. João de Araújo se antecipou, pois, saindo dos Inhamuns, chegou à Valença/PI no dia 1º de março de 1823, comandando uma tropa integrada por 300 praças de cavalaria e uma companhia de infantaria[11]. Daí seguiu para Campo Maior/PI às nove horas do dia 07 de março[12], tomando parte no embate do Barranco do Jenipapo no dia 13 do mesmo mês.
         O Coronel João de Araújo Chaves não veio integrando o corpo da Força Expedicionária do Ceará, mas outros contingentes, batizados genericamente por Exército Auxiliar, Força Auxiliadora, Legião Imperial ou Exército Popular Auxiliador,[13] os quais se uniram à primeira ao longo dos meses que se seguiram, durante os embates.
         O Exército Popular Auxiliador era formado basicamente pela força militar de primeira linha (o exército profissional) e de segunda linha (as milícias), além dos chamados voluntários (vaqueiros, agricultores, índios e escravos), constando de gente do Ceará, Piauí e Pernambuco. Tal exército não dispunha de armas suficientes, mas veio a protagonizar a maior batalha pela causa da Independência do Brasil, a Batalha do Jenipapo.[14]
         Fidié havia se ausentado da Capital da Província do Piauí, Oeiras, desde o dia 13 de novembro de 1822, com o propósito de retomar a Parnaíba, que aderira ao movimento de independência no dia 19 de outubro de 1822.[15] A retirada de Fidié com cerca de 2000 homens favoreceu a proclamação da independência em Oeiras, realizada no dia 24 de janeiro de 1823.[16]
         A logística da guerra demandava retomar o controle sobre a capital da província, fato intentado por Fidié, que, saindo da Parnaíba, pôs-se em marcha na direção de Oeiras, mas, antes de chegar ao seu destino, havia de passar por Campo Maior, onde quedavam estacionadas as tropas do Exército Popular Auxiliador, incluindo-se o Coronel João de Araújo Chaves.
         Através de um espião[17], Fidié foi informado da situação em Campo Maior, bem como do deplorável armamento possuído pelos seus oponentes, duvidosamente estimados em 6000 homens[18], em sua maioria munidos de facas, facões, machados e chuços de ferrões. Nisso, Fidié enxergou a vitória, pois, na ocasião, comandava um exército profissional formado por 1100 homens, bem treinado e armado.[19]
         Às margens do Rio Jenipapo, no campo de mesmo nome, a nove quilômetros da Cidade de Campo Maior (ao lado da BR 343), tiveram encontro as tropas inimigas, momento pelo qual se deram combate, iniciado por volta das nove horas do dia 13 de março de 1823, e levado a termo, aproximadamente, às 14 horas do mesmo dia.
         O Exército auxiliar pretendia dar combate às tropas portuguesas em um ambiente que lhes favorecesse, evitando os campos abertos, pois suas armas (espingardas, foices, facões etc.) possuíam pequeno alcance, por isso a melhor opção seria a luta corpo a corpo. Por outro lado, Fidié era especialista em combates em campo aberto, pois essa era a regra na Europa. Logo, as condições à beira do Jenipapo acabaram beneficiando o exército português.
         A tropa portuguesa dispunha de 11 peças de artilharia, afora sobejo armamento e munição, o que não intimidou aos brasileiros, que, com admirável bravura, avançaram sobre o inimigo, desejando espetá-los com suas rudes quicés, lavados pelo heroico impulso do embate, instante em que eram alvejados pela grossa artilharia, indo morrer ao pé dos canhões.
         No entremeio dessa peleja, os patriotas, paulatinamente, conseguiram encurtar a distância que os separava de seus antagonistas, o que lhes conferiu certa vantagem sobre a tropa portuguesa. Mas, ao fim das cinco horas de intensa luta, os brasileiros, sem possuir qualquer treinamento, recuram desordenadamente.
         Apesar de Fidié alegar ter sido o vencedor dessa batalha, sendo essa a versão mais aceita pela história oficial, a verdade é outra, pois, mesmo havendo a debandada dos brasileiros, o Comandante português não atingiu seu objetivo: reconquistar Oeiras.
         A marcha de Fidié fora abortada, sendo ele obrigado a mudar sua rota, rumando para o Estanhado (hoje, cidade de União), de onde se dirigiu para Caxias/MA, reduto de seus ricos patrícios.[20] Além disso, boa parte da bagagem de guerra (munições, armas, dinheiro e o produto de saques de Parnaíba) fora deixada para trás, da qual se apossaram os patriotas.[21]
         Nesse confronto esteve presente o Coronel João de Araújo Chaves, que lutou ao lado dos dois comandantes do Exército Popular (João da Costa Alecrim e Luiz Rodrigues Chaves), bem como na companhia de um de seus parentes, o Capitão Manoel Martins Chaves, comandante interino de Piranhas (Ribeira de Crateús/CE), que veio a tombar morto no campo do Jenipapo.[22]
         A quantidade de mortos nesse evento é imprecisa, mas estima-se 200 brasileiros entre mortos e feridos[23], e mais de 500 aprisionados, enquanto que do lado português apenas 16 homens foram abatidos[24], o que enseja certa dúvida, pois são números dados pelo próprio Fidié, o qual inadmitiu a derrota na batalha do Jenipapo. Afinal, a guerra também era pelo discurso.
         No mais, esse cômputo ficara obstado pelo fato de não se saber onde foram enterrados os brasileiros abatidos no campo inimigo, sepultados sem identificação pessoal e em lugar ermo.[25]   
         Desse momento em diante, a perseguição ao comandante Fidié não cessou, sendo que no dia 20 de março de 1823 o Coronel João de Araújo Chaves se reuniu com o Comandante Rodrigues Chaves, o Capitão Alecrim e o Alferes Salvador Cardoso na Fazenda São Pedro (atual cidade José de Freitas/PI).
         O Comandante português chegou à Caxias/MA no dia 17 de abril de 1823[26], indo se alojar no Morro das Tabocas (posteriormente, Morro do Alecrim, em homenagem a João da Costa Alecrim), para onde também se dirigiram os combatentes do Jenipapo. Estes, chegando ao Maranhão, trataram de cercar o dito morro, no intuito de enfraquecer os inimigos. Dessa forma, distribuíram alguns destacamentos ao redor da área a ser isolada, cabendo ao Coronel João de Araújo e ao Capitão José da Costa Nunes fazerem a guarda da Barra do Riacho Fundo.[27] 
         Durante o cerco, ordens foram expedidas para que os brasileiros pusessem à cintura um cinto de palha de buriti e um ramo verde no chapéu[28], para que não fossem confundidos com os soldados de Fidié.
         Nesse comenos, no dia 26 de julho de 1823, chega a São Luís do Maranhão o Comandante da Esquadra Brasileira, Lord Cochrane, e no dia 28 do mesmo mês foi proclamada oficialmente a adesão do Maranhão à Independência do Brasil.[29] Mesmo sem despender efetivos esforços para esse resultado, Cochrane recebera injustamente as glórias pela Independência do Norte do Brasil, sendo condecorado pelo Imperador com o título de Marquês do Maranhão.[30]
         Em Caxias, o Exército Auxiliador Popular, vencedor da batalha do Jenipapo, recebeu o reforço da Força Expedicionária do Ceará, que chegou ao seu destino no dia 21 de julho de 1823, depois de 115 dias de marcha.[31] À frente de mais de 2000 soldados, na maioria, cearenses, vinha José Pereira Filgueiras, Tristão de Alencar Araripe e Luís Pedro de Melo Cezar.[32] No percurso o contingente aumentou, perfazendo um número de mais de 6000 homens, e, ao chegar a Caxias, somavam-se 18000 combatentes.[33] 
         O Comandante José Pereira Filgueiras tratou de negociar os termos da rendição com Fidié a partir do dia 23 de julho de 1823, mas este se manteve renitente durante a negociata, em razão de que abriu mão do posto de comandante das tropas portuguesas em favor do Tenente-coronel Luis Manuel de Mesquita.
         Desconhecendo a vitória ocorrida em São Luiz,[34] as negociações em Caxias continuavam, até que em 30 de julho os portugueses aprovaram os termos da capitulação (rendição),[35] documento que também foi assinado pelos integrantes da Força Brasileira, sobre o qual igualmente apôs sua rubrica o Coronel João de Araújo Chaves.[36]
         Esses sertanejos foram os verdadeiros responsáveis pela manutenção da unidade territorial do país, pois não fosse sua intervenção, ficaria o Brasil separado da sua Região Norte. Mas, o envolvimento de alguns desses heróis da independência nas guerras civis de 1817 e 1824 resultou num processo de desmoralização de seus feitos e, consequentemente, na proposital negação de seus méritos.
         Os mercenários estrangeiros levaram a fama e o soldo, enquanto a memória acerca da participação dos brasileiros do sertão nordestino foi suprimida pela história oficial até o presente momento.
         Predomina a versão de que a Independência fora comprada. Talvez! Mas só no cenário internacional, no sentido de que Portugal reconhecesse o Estado Brasileiro Independente. Quiçá, mais uma farsa, ou mesmo um presente de 22 milhões de libras esterlinas de um filho a um pai.
         Todavia, algumas centenas de nordestinos verteram sangue sobre o solo pátrio, rubro licor tão rapidamente absorvido pelos torrões quanto o foi a memória da participação desses matutos pela Independência do país.         
         Fato lastimável que envolve o Coronel João de Araújo Chaves, nascido e criado na caatinga do sertão dos Inhamuns, vencedor da Batalha do Jenipapo, protagonista da Guerra de Independência, um dos heróis brasileiros, e, como tantos outros, esquecido intencionalmente pela versão oficial da história.      



BIBLIOGRAFIA:

Freitas, Antônio Gomes de, Inhamuns (Terra e Homens), Fortaleza-CE, Editora Henriqueta Galeno, 1972.

Prudêncio, Antônio Ivo Cavalcante, Heróis da Solidão: Províncias do Norte (1817 a 1824), 1ª Ed., Fortaleza-CE, 2011.

Vicentino, Cláudio, História do Brasil, São Paulo, Editora Scip



[1] Prudêncio, Antônio Ivo Cavalcante, Heróis da Solidão: Províncias do Norte (1817 a 1824), 1ª Ed., Fortaleza-CE, 2011, p. 27.
[2] Ibidem, op. cit., p. 29
[3] Ibidem, op. cit., p. 24.
[4] Vicentino, Cláudio, História do Brasil, São Paulo, Editora Scipione, 1997, p. 166.
[5] Prudêncio, op. cit., p. 35.
[6] Ibidem, op. cit., p. 82.
[7] Ibidem, op. cit., p. 80.
[8] Ibidem, op. cit., p. 81.
[9] Ibidem, op. cit., p. 83.
[10] Ibidem, op. cit., p. 191.
[11] Freitas, Ibidem, op. cit., p. 104.
[12] Prudêncio, op. cit.,, p. 128.
[13] Ibidem, op. cit., p. 121.
[14] Ibidem, op. cit., p. 113.
[15] Ibidem, op. cit., p. 88.
[16] Ibidem, op. cit., p. 103.
[17] Ibidem, op. cit., p. 116.
[18] Ibidem, op. cit., p. 130.
[19] Idem.
[20] Ibidem, op. cit., p. 136.
[21] Ibidem, op. cit., p. 139.
[22] Freitas, op. cit., p. 105.
[23] Prudêncio, op. cit., p. 157.
[24] Ibidem, op. cit., p 138.
[25] Ibidem, op. cit., p. 161.
[26] Ibidem, op. cit., p. 169.
[27] Ibidem, op. cit., p. 179.
[28] Ibidem, op. cit., p. 178.
[29] Ibidem, op. cit., p. 181.
[30] Ibidem, op. cit., p. 184.
[31] Ibidem, op. cit., p. 192.
[32] Ibidem, op. cit., p. 191.
[33] Ibidem, op. cit., p. 197.
[34] Ibidem, op. cit., p. 209.
[35] Ibidem, op. cit., p. 198.
[36] Ibidem, op. cit., p. 200.