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domingo, 7 de maio de 2017

PARTE I: O Papel de Francisco Pereira Maia Guimarães na Revolução Pernambucana de 1817

PARTE I: O Papel de Francisco Pereira Maia Guimarães na Revolução Pernambucana de 1817
  
                                                                                              Heitor Feitosa Macêdo

         A Revolução Pernambucana de 1817 teve seu início no dia 6 de março de 1817, no Recife/PE, e, daí, foi alastrada para outras capitanias do Brasil, como PB, RN, AL e CE, sendo que esta última capitania contou com a participação de um indivíduo chamado Francisco Pereira Maia Guimarães, sobre o qual os historiadores, até o presente momento, esqueceram-se de dedicar-lhe uma pesquisa mais detalhada.
         Os livros citam breves passagens acerca da participação de Francisco Pereira Maia Guimarães nos fatos de 1817, mas não aprofundam nem sistematizam as informações. Por esta razão, é comum haver equívoco sobre o assunto, como, por exemplo, quando confunde-se Francisco Pereira Maia Guimarães com seu filho, José Francisco Pereira Maia (o “Coronel Mainha”), ou quando afirma-se que aquele teria nascido em Portugal e não na Colônia brasileira.
         São informações, aparentemente, insignificantes, mas que, uma vez reveladas, podem justificar as ações desse indivíduo no contexto de 1817.

1. A Origem do Revolucionário Francisco Pereira Maia Guimarães
1.2. Nacionalidade e Naturalidade: Documento Inédito

            Saber a nacionalidade e naturalidade de Francisco Pereira Maia Guimarães será muito útil na análise de sua participação na Revolução Pernambucana de 1817. Mas, antes disso, apresentaremos as contradições dos autores referentes ao tema.
         Uma das testemunhas oculares da Revolução de 1817, o padre Joaquim Dias Martins, publicou a obra Os Mártires Pernambucanos em 1853, cujos manuscritos datam de 1823,[1] ou seja, foram elaborados ao longo de seis anos após a Revolução de 1817. Importa dizer que nas afirmações do padre Martins consta que Francisco Pereira Maia Guimarães era natural da Capitania do Ceará:

Guimarães único (Francisco Pereira Maia) cearense de 1817; era morador na villa do Crato, no Ceará, onde exercia com applauso publico a profissão de advogado quando chegou áquella villa o illustrissimo emissario ‒ Alencar 2º ‒ a quem se unio fogosamente na causa da Liberdade: seo enthusiamo fez-se tão notável que, apenas se lavrou na camara o auto da Liberdade, que elle mesmo dictou, foi unanimemente aclamado commandante militar da villa, onde tudo começou a marchar na melhor ordem no sentido da Liberdade: mas a perfidia do brutal Capitão Mor José Pereira Filgueiras fez que tudo abortasse, ficando Guimarães preso, e sendo remettido em grilhões ao furioso Governador Sampaio, o qual, depois de tê-lo vilmente insultado, o remetteo á Alçada de Pernambuco: esta o mandou sepultar nos carceres da Bahia, onde esperou a redempção geral das côrtes de Lisboa, em 1821.[2]

            Mas esta indicação quanto ao lugar de nascimento de Francisco não era a mais exata! Os “cronistas” da segunda metade do século XIX, como Pedro Thebérge e João Brígido, ou melhor, os primeiros “historiadores” do Cariri cearense, citam em suas narrativas Francisco Pereira Maia Guimarães, porém, indicam Portugal como sendo o berço deste revolucionário de 1817.[3] Mas não foi sem razão, pois, provavelmente, João Brígido, na época em que residia no Crato, deve ter consultado os antigos livros paroquiais, nos quais encontram-se os registros (assentamentos de batismo) dos cinco filhos de Francisco Pereira Maia Guimarães: José Francisco Pereira Maia (Coronel Mainha), Antônia, Manoel, Francisco e Joaquina.
         É justamente no registro de batismo do seu filho primogênito que atribui-se a Francisco Pereira Maia Guimarães a nacionalidade portuguesa, como sendo natural de Guimarães:

Joze filho legítimo de Francisco Pereira Maia Guimarães e de D. Maria Izabel da Penha, neto paterno de José Pereira Maia Guimarães natural de Guimarães e de D. Antonia Joana Cedrin natural de Maçarelos e da parte materna de Manoel Ferreira Lima ja defunto natural de Sam Mateus e Dona Izabel Maria da Franca, natural desta freguezia nasceo a 8 de Maio de 1803 e foi batizado a vinte sinco de Maio de mil oitocentos e quatro com os santos oleos foi batizado por mim e foram padrinhos Domingos Pedroso Batista por procuraçaỏ do Padre Joze Duarte Cedrim  e Dona Tereza de Jezus Batista do que para contar mandei fazer este asento em que me asigno, O Coadjutor Pedro Ribeiro da Silva.[4]

            Ora, quem ousaria duvidar de um documento oficial?
         Foi por esta razão que vários pesquisadores afirmaram abertamente que Francisco seria português, e, entre estes grandes estudiosos, como Padre Antônio Gomes,[5] Irineu Pinheiro,[6] Lourival Maia,[7] Monsenhor Montenegro,[8] etc.
         Em publicações recentes, os pesquisadores contemporâneos, alicerçados nesta fonte documental e na vasta bibliografia, continuam sustentando que Francisco Pereira maia Guimarães é filho de Portugal.
         Em um trabalho de nossa autoria, “Sertões do Nordeste: Inamuns e Cariris Novos (Volume I)”, consignamos que Francisco era português, arriscando a tese de que seu retorno a Portugal teria sido motivado pelo acirramento da lusofobia no Brasil em meados da 1822, época da Independência.[9]
         Em outro trabalho lançado mais recentemente, que arrola 1976 nomes de portugueses que migraram para o Ceará, de autoria de Francisco Augusto de Araújo Lima, contempla-se a mesma coisa, ou seja, diz-se que Francisco Pereira Maia Guimarães nasceu em Portugal:

Francisco Pereira maia Guimarães nasceu na Freguesia de N. Senhora da Boa Viagem de Massarelos, Porto, filho de José Pereira Maia, de Guimarães, Braga, e de Antônia Joana Cedrim, da Freguesia de Massarelos, Porto. Naturalidade não documentada, pode ser natural da Freguesia de São Vicente de Mascotelos, Guimarães. No termo de batismo de seu filho José, consta Maçarelos por massarelos, Porto.[10]
Registro de batismo de Francisco Pereira Maia Guimarães (Fonte: http://digitarq.arquivos.pt/)
           Porém, este derradeiro autor teve a felicidade de indicar dados desconhecidos sobre um documento inédito que trata do assunto e que está disponível num site português, na Torre do Tombo. Porém, inicialmente, tivemos dificuldade em encontrar o arquivo digital.
         Assim, de posse dessa informação dada pelo genealogista Francisco Augusto, entramos em contato com a professora mineira Maria Cecília Santos Carvalho, que nos indicou o endereço eletrônico onde o arquivo estava disponível.
         Ao realizar a leitura paleográfica do manuscrito, em meados do mês de fevereiro de 2017, constatamos que Francisco Pereira Maia Guimarães não havia nascido em Portugal e, também, não havia nascido no Ceará. Na verdade, este indivíduo era pernambucano, por ter vagido em Recife no ano de 1782, conforme o seu assentamento de batismo:
Diz Francisco natural da Villa do R.e e morador em Maçarelos Bispado do Porto f.o Leg.o de Joze Pereira da Maya Guim.es e de sua m.er D. Antonia Joanna Cedrim q´ faz a bem de sua justiça q´ o Rd.o Vigario do R.e lhe paçe p.r Cert.tam o thior do Seo Batismo p.to
Pa o M.to Rd.o Snr. D.or Vigario Geral Seja Serv.o md.r paçar a d.a Cer.tam em forma q´ faço fé
E R M.ce
Antonio Jacome Bezerra, Parocho Encómendado na Parochia [e] Igreja de Saó Fr Pedro Glz´ da Villa do Recife. Certifico que revendo os Livros dos assentos dos baptizados da p.te do R.e no L.o doze afls trezentas, e trinta e huma v.o achei o d.o assento na forma, e theor seguinte. =  Aos doze dias do mes de Junho do anno mil Sette centos oitenta e dous nesta Matris do Corpo Santo  de minha Licença baptizou, e pos os S.tos Oleos o Padre Ignacio Francisco dos Santos em Francisco branco nascido aos dezanove dias do mes de Mayo do d.o anno filho Legitimo de Joze Pereira da Maya, natural da freguezia da Ribr.a conselho de Monte Longo, Arcebispado de Braga, e de sua mulher Antonnia Joana Sedrim natural de Maçarelos, Bispado do Porto, neto pella parte paterna de Joze Pereira natural de Pombeyro, e de sua mulher Mariana da Maya natural da dita freguezia da Ribr.a, e pella materna de Antonio Francisco de- [fl 29]
Sedrim natural de Sedrim, e de sua mulher Thereza Jozefa Palheiros, natural de Maçarelos. Foi padrinho Francisco Lopes Porto, cazado, moradores todos nesta freguezia, de que tudo mandei fazer este assento, que por verd.e assigney. E naó se tinha mais no d.o assento, ao qual me reporto, passa o referido na verd.e, conffirmo em fé do Parocho, e esta mandei fazer, na qual me assigney. Recife quatro de Mayo de mil sette centos oitenta e sete.
Antonio Jacome Bezerra
Vigario encomendado do R.e [fl. 20].[11]
Idem.
            Portanto, Francisco Pereira Maia Guimarães havia nascido na Colônia do Brasil, na Capitania de Pernambuco, mais especificamente, na Vila do Recife, no dia 19/05/1782. Esse fato muda parte da história e ajuda a contextualizar sua ligação com a Revolução Pernambucana de 1817, posto que, por ser brasileiro, certamente compartilhava dos mesmos sentimentos dos demais pernambucanos, que estavam sendo oprimidos pela Metrópole portuguesa, alijados dos altos cargos públicos e explorados pela excessiva tributação.
         Cabe aqui esclarecer que a professora Cecília Carvalho tem a primazia nessa descoberta, pois foi a primeira a publicar esta alvíssara na internet, no dia 2 de março de 2017, conforme consta na sua página do facebook.[12]
 
Prova de que a professora Maria Cecília Santos Carvalho foi a primeira a publicar o conteúdo do documento até então inédito sobre a nacionalidade e naturalidade de Francisco Pereira Maia Guimarães (Fonte: facebook: disponível em: https://www.facebook.com/mariacecilia.santoscarvalho?fref=nf&pnref=story).

CONTINÚA!




[1] BERNARDES, Denis Antônio de Mendonça, O Patriotismo Constitucional: Pernambuco (1820-1822), São Paulo ‒ Recife, FAPESP, 2006, p. 155.
[2] MARTINS, Padre Joaquim Dias, Os Martires Pernambucanos: victimas da liberdade nas duas revoluções ensaiadas em 1710 e 1817, Pernambuco, Typ. de F. C. de Lemos e Silva, 1853, p. 216.
[3] Ao tratar do episódio da Revolução Pernambucana no Cariri cearense, disse João Brígido: “Após tantas provas de monarquismo, muitos dos expedicionários foram presos à sua volta do Rio do Peixe, entre eles o português Francisco Pereira Maia Guimarães...” (BRÍGIDO, João, Ceará: Homens e Fatos, Fortaleza - CE, Edições Demócrito Rocha, 2001, p. 135).
[4] Livro dos Assentamentos de Batismo da Freguesia de Nossa Senhora da Penha, Crato, 1813-15, p. 29.
[5] ARAÚJO, Padre Antônio Gomes de, Povoamento do Cariri, Crato – Ceará, Faculdade de Filosofia do Crato, 1973, p. 118.
[6] PINHEIRO, Irineu, Um Baiano A Serviço do Ceará e do Brasil, In Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, Ano LXV, 1951, p. 16.
[7] Lima, Lourival Maia, Os Maia, Crato - Ceará, Fundação Casa das Crianças de Olinda, 1982.
[8] Montenegro, Padre F., As Quatro Sergipanas, Fortaleza, UFC, 1996, p. 90.
[9] MACÊDO, Heitor Feitosa, Sertões do Nordeste, Volume I, Crato – Ceará, A Província, 2015, p. 228.
[10] LIMA, Francisco Augusto de Araújo, Siará Grande: uma província portuguesa no Nordeste Oriental do Brasil, Volume II, Fortaleza – Ceará, Expressão Gráfica, 2016, p. 823.
[11] Arquivo Nacional da Torre do Tombo/Portugal, disponível em: <http://digitarq.arquivos.pt/>. Acesso em 01/02/2017.
[12] Outros pesquisadores se arrogam como primeiros descobridores desta informação (Ver: http://www.familiascearenses.com.br/. Acesso em 07/05/2017, às 19hs50min), porém, a publicação da professora Maria Cecília Carvalho é anterior às demais.

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