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sábado, 10 de maio de 2014

ANTIGAS FAZENDAS - SERTÃO DOS INHAMUNS: A CASA DO ESTREITO

ANTIGAS FAZENDAS - SERTÃO DOS INHAMUNS: A CASA DO ESTREITO
                                                                                         
                                                                          
                                                                             Heitor Feitosa Macêdo
        
         As antigas habitações humanas ajudam a contar parte da história dos povos sob múltiplos aspectos, no que concerne à técnica, aos hábitos e costumes, dentre outras matérias correlatas. Tudo isto possibilitando a análise do passado a partir das antigas construções que abrigaram os personagens motores da nossa história.

Casa do Estreito, Arneirós/CE.
          O “homem colonial” arranchou-se primeiramente em nichos que pouco variavam das cavernas pré-históricas, verdadeiras choças, algumas circulares, de influência indígena, algumas de palha, outras entremeadas com barro e pedra. Pouco depois, predominou a casa quadrangular, espalhada pelos sertões há algumas centenas de anos.
         Essas vetustas edificações de alvenaria tendem a extinguirem-se pelas intempéries naturais, mas outro fator preponderante reside no hábito nefando de o sertanejo não preservar devidamente os principais monumentos representativos de sua história. Neste sentido, poucos são os que hesitam em danificar as antigas casas abandonadas para retirar-lhes a matéria prima, reaproveitando-a em construções mais recentes e menos significativas.
         Essa ameaça visa tanto às portentosas casas senhoreais quanto os casebres construídos durante o ciclo do gado. Indiscriminadamente, a predominante construção de rústica taipa, ou as edificações de pedra e cal, são alvos da incúria dos “matutos” que, levados pela globalização cultural, alinham-se à moderna uniformização de suas residências.
         Assim, inicialmente arrancam-lhe as telhas canais, enormes, moldadas em eras passadas sobre as coxas dos cativos. Em seguida, extraem a grossa madeira de lei que reveste o vertical telhado, geralmente composto de cedro, imune aos cupins, penetrável apenas pelos grossos pregos artesanais, que unem o madeiramento, este, lavrado a golpes de machado por carpinas das eras passadas.
        
Ruínas da Casa do Estreito.
     Em seguida, vitimam as paredes centenárias que, com espessuras superiores a um metro de largura, suficientemente resistiriam a uma bala de canhão. Os casarões dos antigos senhores paulatinamente convalescem pelas mãos que lhes retiram os imensos tijolos, os quais ainda guardam em suas superfícies as marcas de dedos dos seus remotos construtores, certamente escravos-pedreiros.
       Algumas vezes, em vez do tijolo adobe, a casa é composta de pedra e cal, conferindo grande solidez ao conjunto arquitetônico. As pesadas lascas de imensas pedras, entremeadas pelo hidróxido de cálcio, obtido a partir de outras rochas, formam verdadeiro penedo habitacional, à semelhança dos fortes medievais. Em razão disto, tais casas haveriam de transpor séculos, não fosse a deletéria ação humana.

         Ao final, apenas uma pequena elevação de terra recobre o antiquíssimo alicerce, que o sertanejo chama de murundu, e, por vezes, ainda repousa nessa superfície algum fragmento de telha ou tijolo, como cruzes postas sobre túmulos de cadáveres anônimos, devorados pelo tempo.
         Essas catacumbas dormem silentes, penetrando no esquecimento, uma a uma, enquanto o concreto armado invade os campos, cheio de ferro e cimento, bem acima dos primeiros lares de nossa antiga gente.
         Em razão disso, é premente registrar uma dessas edificações, hoje, literalmente arruinada. Trata-se da casa da Fazenda Estreito, localizada no município de Arneirós/CE, à margem direita do Rio Jaguaribe.
         A história dessa edificação confunde-se com a trajetória dos seus moradores e das gerações que se sucederam sob o seu teto. Portanto, cabe mencionar o seu primeiro senhor, o célebre Coronel João de Araújo Chaves.
         Desde o início da ocupação do território cearense a família do dito coronel esteve presente, pois seus bisavós haviam migrado do Baixo São Francisco (Penedo/AL), durante a expansão do ciclo econômico do couro, compondo as primeiras levas de desbravadores daqueles sertões.
         À época dessa migração, tal grupo já era abastado, porém, na Capitania do Ceará, haveria de conquistar enorme poder, através dos “serviços reais”: devassando o território, capturando índios e pagando tributos à Coroa, ao passo que adquiriam patentes do oficialato, bem como terras de sesmarias de sertão adentro.
         Por relevantes razões o governo português malquistou-se com os Araújo Chaves, tratando-os com verdadeira mão de ferro. Um dos motivos deu-se por conta de o referido grupo ser confundido com os seus primos, os Feitosa, envolvidos na guerra de 1724. Apesar da participação discreta dos Araújo Chaves neste conflito, a indistinção entre as duas famílias fora inevitável, ganhando foros de generalidade.
         O outro motivo deu-se quase cem anos depois que os Araújo Chaves se alocaram no Ceará, quando enfrentaram grande percalço, ao que tudo indica, em decorrência de seu crescente poder, o que causava incômodo às autoridades. Este momento é representado com a prisão do dito Coronel Manoel Martins Chaves em 1805, realizada pessoalmente pelo governador João Carlos Augusto d'Oeynhausen e Gravembourg, Marquês de Aracati e afilhado da Rainha D. Maria I, a Louca.[1]
         Os Araújo Chaves dominavam hegemonicamente o cume da Ibiapaba, na região Norte do Ceará, na Serra dos Cocos, enquanto que nos Inhamuns dividiam o poder com os seus parentes, os Feitosa.
         Entre os bisavós do Coronel João de Araújo Chaves destacam-se o Capitão-mor José de Araújo Chaves e o Coronel João Ferreira Chaves, irmãos que haviam se tornado grandes latifundiários no território cearense, principalmente no Acaraú e nos Inhamuns.
         Na Ribeira dos Inhamuns, mais precisamente no Rio Carrapateira, em Tauá/CE, apeou-se o avô paterno do Coronel João de Araújo Chaves, com igual nome e mesma patente militar. Então, o primeiro Coronel João de Araújo Chaves era o fundador da Fazenda Carrapateira, sendo sucedido por seu filho, homônimo, o Sargento-mor João de Araújo Chaves. 
         O Coronel João de Araújo Chaves “do Estreito” era, desde o seu avô, o terceiro com este mesmo nome. Havia nascido em “berço de ouro”, fato que se somaria ao seu talento militar, possibilitando sua ascensão como uma das figuras mais destacadas da época.
         Ao que tudo indica, foi o edificador da Casa do Estreito, pois é o primeiro a ter o seu nome ligado à dita propriedade, ou seja, “Coronel João de Araújo Chaves do Estreito”. Entretanto, a data da construção deste imóvel não é conhecida, podendo-se apenas presumir que tenha ocorrido no início do século XIX.[2] 
         Depois de atingir a idade adulta, João de Araújo Chaves (futuro Coronel de Cavalaria) adentrou a vida militar, na qual lograria grande sucesso. À época, ao lado da liderança militar estava o poder da administração pública, sendo o oficialato, além de um dever beligerante, também uma incumbência política. Nesses termos, o Coronel João de Araújo Chaves (do Estreito) substituiu ao pai, o Sargento-mor João de Araújo Chaves[3], no ônus militar e na gestão pública.
          Mas todo esse poderio era dividido principalmente com um dos irmãos do dito Coronel, o riquíssimo Antonio Martins Chaves, domiciliado na Fazenda São Bento, possuidor de setenta e cinco fazendas[4] e o último Capitão-mor do Ceará[5]. Este, já ancião, no dia 11 de março de 1851, era chefe do partido liberal, e encontrava-se preso por conta da perseguição promovida pelos membros da família Fernandes Vieira.[6]
         Esses dois irmãos haviam contraído casamento dentro da família Feitosa, sendo todos ligados ao partido liberal. O Capitão-mor Antonio Martins Chaves casou-se com D. Maria Primeira de Araújo Chaves (filha do Capitão Leonardo de Araújo Chaves e D. Rita Alves Feitosa),[7] enquanto que o Coronel João de Araújo Chaves contraiu núpcias com D. Josefa Alves Feitosa (filha do Tenente-coronel Eufrásio Alves Feitosa)[8].
         Os feitos militares do Coronel João de Araújo Chaves estão intimamente ligados aos principais episódios bélicos da época, iniciando o exercício de tais funções a partir de 1823, na “Guerra de Independência do Brasil”, depois, em 1824, quando participou contra a Confederação do Equador, e, em 1832, guerreando contra Joaquim Pinto Madeira, na chamada “Guerra do Pinto”.
        
Ruínas da Casa do Estreito.
         Pela arquitetura da referida casa, com detalhes bastante requintados para os sertões daquele tempo, com platibandas, biqueiras, alvenaria de pedra e cal etc., é provável que tenha sido construída no início do século XIX. Representando não só um estilo arquitetônico, mas o modus vivendi dos sertanejos das eras passadas.
       Por fim, atualmente, o solar do Estreito foi desapropriado pelo Governo Federal, encontrando-se em ruínas, ilhadas pelas águas do Jaguaribe, prestes a entrar em total esquecimento. Certamente, a história da Casa do Estreito confunde-se com a história de um povo, estando ameaçada pelo abandono e pelo descaso público.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


Bezerra, Maria do Carmo Lima, Notas sobre Casas e Fazendas dos Inhamuns, Brasília, Edições do Senado Federal, Volume 185, 2012.

Chandler, Billy Jaynes, Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns: A História de uma Família e uma Comunidade no Nordeste do Brasil – 1700-1930, Fortaleza-CE, Edições UFC, 1981.

Freitas, Antônio Gomes de, Inhamuns (Terra e Homens), Fortaleza-CE, Editora Henriqueta Galeno, 1972.

Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, O Cearense, 1º de abril de 1852, p. 02, disponível em:  http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=709506&pesq=  Acesso em: 20/03/2013.






[1] O Coronel Manoel Martins Chaves foi acusado da morte de um juiz ordinário Antonio Barbosa Ribeiro, na Vila Nova Del’Rei, atual cidade de Guaraciaba do Norte.
[2] Maria do Carmo Lima Bezerra registra que a dita casa teria sido erguida na segunda metade do século XVIII, porém, afirma que seu fundador teria sido o “Coronel José de Araújo Chaves”, o que não condiz com realidade, pois não há nenhum indivíduo com este nome, José de Araújo Chaves, utilizando a patente mencionada, de coronel (In Notas sobre Casas e Fazendas dos Inhamuns, Brasília, Edições do Senado Federal, Volume 185, 2012, p. 100).
[3] Freitas, Antônio Gomes de, Inhamuns (Terra e Homens), Fortaleza-CE, Editora Henriqueta Galeno, 1972, p. 69.
[4] Chandler, Billy Jaynes, Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns: A História de uma Família e uma Comunidade no Nordeste do Brasil – 1700-1930, Fortaleza-CE, Edições UFC, 1981, p. 158.
[5] Chandler, Billy Jaynes, Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns: A História de uma Família e uma Comunidade no Nordeste do Brasil – 1700-1930, Fortaleza-CE, Edições UFC, 1981, p. 61.
[6] Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, O Cearense, 1º de abril de 1852, p. 02, disponível em:  http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=709506&pesq=  Acesso em: 20/03/2013.
[7] Feitosa, Leonardo, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza-CE, Imprensa Oficial, 1985, p. 60.
[8] Ibidem, op. cit., p. 59.

3 comentários:

  1. Bom trabalho! Fiquei interessada, principalmente pq sou bisneta de Manoel de Araújo Chaves e Rosalina Ferreira do Nascimento, que antes de fixarem morada em Cariré, àquela época pertencente ao município de Sobral, moraram em Crateús-Ce. Eles vieram morar aqui fugindo de conflitos. Não sabemos quem eram seus pais, seus irmãos etc., mas sabemos que deixaram para trás: pais, irmãos e demais parentes.

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