Biografia
do capitão-mor Pedro Alves Feitosa e sua relação com o Cariri cearense
Autor: Heitor Feitosa Macêdo
O
capitão-mor Pedro Alves Feitosa nasceu em 1714, na freguesia de Nossa
Senhora do Rosário da vila de Penedo, hoje, Estado de Alagoas, mas, na época do
nascimento do biografado, referida vila fazia parte da então capitania-geral de
Pernambuco.
Seus pais foram o coronel Francisco
Alves Feitosa e Catarina Cardosa da Rocha Resende Macrina. Frise-se que este
seu genitor foi um dos primeiros colonizadores dos sertões dos Inhamuns e
Cariris Novos (Cariri cearense), tendo, nesta última região, ocupado
principalmente terras nos atuais municípios de Crato, Santana do Cariri e Nova
Olinda, desde os anos de 1723 e 1724,[1]
contribuindo com o desenvolvimento da região ao introduzir e fomentar o
criatório de gados e instalação de engenho de açúcar, a exemplo do Engenho da
Serra, na zona rural do município de Crato-CE[2].
E o que tem a ver o capitão-mor
Pedro Alves Feitosa com o Cariri cearense? Explico!
Até o ano de 1755, Pedro Alves
Feitosa aparece nos documentos ocupando o posto militar de tenente-coronel da
Ribeira dos Inhamuns, de acordo com um manuscrito obtido na Torre do Tombo, em
Portugal, onde o biografado consta como testemunha de um processo da Santa
Inquisição:
O
Tenente Coronel Pedro Alves Feitosa homem casado, que vive de suas
fazendas de gado, de idade de quarenta e um anos, natural da freguesia de nossa
Senhora do Rosário da vila do Penedo deste Bispado de Pernambuco, e morador na
fazenda do Papagaio freguesia do Icó há trinta e quatro anos, tido e havido por
homem branco e cristão velho (...).[3]
Contudo,
no ano seguinte, em 1756, já ostenta outro posto militar, desta vez, o de
capitão-mor, de acordo com os documentos eclesiais, onde Pedro comparece a uma
celebração de casamento também na qualidade de testemunha:
Aos
vinte e cinco dias do mês de agosto de mil setecentos e cinquenta e seis
pela manhã nesta igreja de Nossa Senhora da Conceição desta Freguesia de Nossa
Senhora do Monte do Carmo, feitas as denunciações na forma do Sagrado Concílio
Tridentino nesta Freguesia, onde a contraente é natural e moradora e o
contraente morador e haver justificado perante o reverendo vigário da Vara do
Icó o ter vindo do seu natural de menoridade cujo mandado de casamento fica em
meu poder sem se descobrir impedimento em presença minha e das testemunhas o Capitão-mor
Pedro Alves Feitosa e Manoel da Rocha Franco pessoas conhecidas se casaram
solenemente por palavras de presente em face da Igreja Damião Ferreira de
Mendonça natural da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de... filho legítimo
de João da Cunha barros e de Justa Ferreira com Maria Fernandes Lima filha
legítima de Miguel Fernandes Campelo e de Quitéria Gonçalves Lima e logo
receberam as bençãos conforme os ritos e cerimônias da Santa Madre Igreja do
que tudo fiz este assento que por verdade assinei. Anclato Soares da Veiga –
Cura da Freguesia de Nossa Senhora do Carmo. Manoel da Rocha Franco. Pedro
Alves Feitosa.[4]
O
pesquisador francês Pedro Théberge, radicado no Icó desde a primeira metade do
século XIX, menciona que, em junho de 1756, foram concedidas diversas
cartas-patentes para os moradores do interior cearense, incluindo o Cariri.[5]
Logo, é inevitável a dedução de que Pedro Alves Feitosa tenha recebido sua
patente de capitão-mor nessa data.
E
como saber em qual lugar Pedro Alves Feitosa ocupava o cargo militar de
capitão-mor?
Dita
informação é dada por Antonio José Vitoriano Borges da Fonseca, governador da
então capitania do Ceará entre os anos de 1765 a 1781 e autor de uma importante
obra de genealogia (Nobiliarquia Pernambucana), escrita ainda no século XVIII, na
qual aponta que Pedro Alves Feitosa era capitão-mor dos Cariris Novos (hoje,
conhecido por Cariri cearense):
D. Anna
Cavalcante de Nazareth Bezerra, filha do Capitão Manoel de Araújo Bezerra e de
sua mulher D. Anna de Nazareth Bezerra Cavalcante, §...nº 8. Casou com Pedro Alves Feitosa, natural do Rio de S. Francisco e Capitão-Mor dos Cariris Novos, filho do Coronel Francisco Alves
Feitosa e de sua mulher Catharina da Rocha.[6]
Ao
lado disso, encontra-se outro documento que reforça tal fato. Isso, porque, no
arquivo inédito do Barão de Studart, existe uma petição datada de 1807 que
confirma que Pedro Alves Feitosa era capitão-mor “da Vila do Crato”. Dito
documento é uma petição de justificação do então capitão-mor da vila de São
João do Príncipe (atualmente, cidade de Tauá-CE), José Alves Feitosa Júnior,
sobrinho e genro do biografado, que revela o seguinte:
Ano
de nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e sete aos quinze
dias do mes de setembro do dito anno nesta Villa do Principe Capitania do Seará
Grande em meo Escritorio por parte do Capitão Mor Jose Alvarez Feitoza forão
entregues huma petição de Itens (...). Diz José Alvarez Feitoza Junior Capitão
Mor actual desta Villa de São João do Principe que lhe faz a bem justificar
perante/ Vossa Senhoria os artigos seguintes (...). Sexto que Pedro Alvarez
Feitoza foi cazado com Dona Anna Cavalcante de Nazareth da qual hé filha Dona
Maria Alvares Feitoza Prima segunda de Dona Maria Madalena Vieira hé filho
legitimo do Coronel Francisco Alvares Feitoza e sua mulher Dona Catharina
Cardoza da Roxa Resende Macrina foi Capitão Mor da Villa do Crato desta Capitania
sempre se tratou com nobreza distinção e como rico que era e o justificante hé
seo genro por ser cazado com aquella sua filha Dona Maria Alvares Feitoza e
thio por e thio por ser irmão do Avô do Justificante.[7]
Quando
José Alves Feitosa fala que seu tio Pedro foi capitão-mor da Vila do Crato, na
verdade quis dizer “capitão-mor do sertão ou ribeira dos Cariris Novos”, pois
esta vila só veio a ser inaugurada no ano de 1764.
Ao
tempo em que Pedro se tornou capitão-mor, aproximadamente, em 1756, o atual
território do Cariri era “termo” (distrito) da vila do Icó e, como foi dito, ao
ser inaugurada a vila do Crato (por desmembramento da do Icó), todo o chamado
sertão dos Cariris Novos passou a integrar a Real Vila do Crato[8].
O
capitão-mor da Ordenança era a maior autoridade militar dentro do seu
território. Segundo o ex-ministro do STF, Tristão de Alencar Araripe (Júnior),
o papel dos capitães-mores dos distritos na então capitania do Ceará Grande era
o seguinte:
Não
havia na capitania autoridades especiais para o exercício das funções
policiais, que eram exercitadas pelos capitães-mores de ordenanças nos seus
respectivos distritos, debaixo da inspeção geral do governador como encarregado
de manter a segurança interior. Tendo os capitães-mores por distritos extensos
territórios não podiam acudir com prontas providências aos sucessos em lugares
distantes: por isso em 1765 lembrou o governador desta capitania, Borges da
Fonseca, o estabelecimento de comandantes de distrito, que com os capitães-mores
concorressem nas províncias policias.[9]
O
capitão-mor do sertão dos Cariris Novos, Pedro Alves Feitosa, casou-se com D. Ana
Cavalcante de Nazaré Bezerra e gerou os seguintes filhos: 1- Maria Madalena
Vieira (c/c o capitão-mor José Alves Feitosa); 2- Mariana Alves Feitosa (casada
com o tenente-coronel Eufrásio Alves Feitosa); 3- sargento-mor Francisco Alves
Feitosa (c/c Ana Alves Feitosa)[10].
Deve ser salientado que do
capitão-mor Pedro Alves Feitosa descendem diversas pessoas que contribuíram
para o desenvolvimento do Cariri e especialmente o Crato, entre eles, podem ser
citados: monsenhor Francisco de Assis Feitosa, vigário da paróquia do Crato por
décadas e um dos primeiros fundadores do Hospital São Francisco de Assis (atual
Hospital São Camilo); monsenhor Antonio Alves Feitosa; Madre Feitosa, fundadora
do Colégio Pequeno Príncipe; Aderson Feitosa ferro, primeiro enfermeiro do
Hospital São Francisco de Assis; professor José do Vale Arraes Feitosa;
professora Marília Feitosa Ferro, umas das fundadoras da Universidade Regional
do Cariri (URCA) e tantos outros que aqui, por hora, não foram mencionados.
Por fim, cabe dizer que,
Pedro Alves Feitosa, talvez, tenha sido o primeiro indivíduo a ocupar o posto
de capitão-mor do sertão dos Cariris Novos, pois as fontes históricas, até
agora, não indicam outro anterior a ele.
[1]
MACÊDO, Heitor Feitosa. Sertões do Nordeste: Inhamuns e Cariris Novos. Volume
I. Crato-CE, A Província Edições, 2015, p. 151.
[2] O
inventário do coronel Francisco Alves Feitosa diz que a ele pertencia o Engenho
da Serra, na atual zona rural do Município do Crato (FEITOSA,
Leonardo. Tratado Genealógico da Família
Feitosa. Fortaleza/CE: Imprensa Oficial, 1985, p. 20 e p. 18).
[3] Cadernos
do Promotor. Torre do Tombo, Portugal.
[4] FEITOSA, Aécio. Feitosas: Casamentos Celebrados
nas Igrejas, Capelas e Fazendas do Inhamuns (1756 – 1801): História da Família
Feitosa, Fortaleza, 2009.
[5] THÉBERGE,
Pedro. Extractos dos Assentos do Antigo Senado do Icó. In Revista do
Instituto do Ceará, Fortaleza, 1895, p. 229.
[6] FONSECA,
Antonio José Vitoriano Borges da. Nobiliarquia Pernambucana. Volume I. Rio de
Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, 1935, p. 241.
[7] Coleção
Antonio Gomes de Freitas. Arquivo Virtual do Instituto Cultural do Cariri
(ICC). Disponível em: < https://institutoculturaldocariri.com.br/wp-content/uploads/2018/09/Colecao-Antonio-gomes-de-Freitas_Novo-Documento-2018-08-22-2_1-merged.pdf>.
Acesso em 03 de fev. de 2026, às 18h18min.
[8] MENEZES,
Luiz Barba Alardo de Menezes. Documentação
Primordial sobre a Capitania Autônoma do Ceará. 2ª Ed. Fac-símile de
Separatas da Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza: Fundação Waldemar
Alcântara, 1997, p. 48.
[9]
ARARIPE, Tristão de Alencar. História da Província do Ceará. 2ª Ed. Fortaleza:
Tipografia Minerva, 1958, p. 83.
[10]
FEITOSA, Leonardo. Op. cit., p. 20 e p. 21.

Nenhum comentário:
Postar um comentário