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sábado, 5 de janeiro de 2013

O MORGADO DA CASA DO UMBUZEIRO


                O MORGADO DA CASA DO UMBUZEIRO
                                                               
                                                                      Antônio Gomes de Freitas

         Aos que amam à história, despertam sempre curiosidade os assuntos e leituras relacionados com as nossas origens, com o povoamento da terra e o domínio que sôbre ela exerceram os primeiros ocupantes e os que os sucederam no curso dos tempos. É, portanto, com interesse sempre renovado que releio os trabalhos de Leonardo Feitosa e de Pedro Tenente matutos e autodidatas, comentaristas dos fatos pretéritos e linhagistas das velhas estirpes sertanejas.
A secular Casa do Umbuzeiro (Aiuaba - Ceará)
         Confesso a minha admiração pelos trabalhos dêsses investigadores de fatos e homens do meu sertão, e a minha admiração cresce ainda mais quando sei que fizeram êles obra útil, apesar de desprovidos de fontes bibliográficas, pois que sempre apoiados na tradição popular e oral. É bem verdade que os trabalhos que se apoiam em reminiscências, são por sua própria origem suscetíveis de erros e de equívocos, visto como acontece que algumas vezes a narrativa do episódio ou a informação de um fato, com o correr dos tempos chega até nós já deturpadas, e daí perder o caráter de autenticidade.   
         Queremos nesta oportunidade nos referir a um dêsses equívocos, aliás, cometido a só tempo, por Leonardo Feitosa e Pedro Tenente, na parte em que ambos afirmam que Maria da Ressurreição, consorte do pioneiro Domingos Alves de Medeiros, era filha do Capitão Gabriel de Morais Rêgo, dos Anjinhos; quando na realidade, não era filha dêste e sim cunhada, pois que o Capitão Gabriel era casado com a irmã de Maria da Ressurreição, de nome Catarina, ambas filhas de José da Silveira, português que se situou no tempo das entradas, em um contraforte da Serra Grande, que hoje chamam Serra do Silveira, localizada no município de Aiuaba.
         Oriundo de Tracunhaem, Pernambuco, de heráldica prosápia, Domingos Alves de Medeiros, de que trata esta crônica, chegou aos Inhamuns, no ano de 1715, em companhia de seus irmãos Padre José Bezerra do Vale, fundador da Casa do Umbuzeiro, e o Sargento-mor João Bezerra do Vale, que se matrimoniou com Ana, filha do famoso colono Francisco Alves Feitosa, em 22 de fevereiro de 1732 (1º livro de assentamentos eclesiásticos da Freg. De N.S. da Expectação, Icó), e armou tenda nos Cabaços, à margem do Rio do Jucás, e ainda mencionamos Ana Maria Bezerra, consorte do Ten. Cel. (ex-Alferes) Bernardo Duarte Pinheiro que se fixaram no Riacho do Machado, tributário do Salgado.
         Imensa prole deixaram espalhada no Ceará, e em outros pontos do País, os irmãos Bezerra do Vale, com exceção apenas de Domingos, que não teve filhos, nem com Maria da Ressurreição, com que casou em 28 de abril de 1738 (Livro acima citado).
         Até hoje os velhos documentos não contrariam a minha afirmação, havendo apenas uma opinião discrepante, de parte do Padre Pedro Leão, segundo informação de Pedro Tenente, que avisado logo formulou contestação nos seguintes termos – “Não sei pois em que se apega o Padre Pedro, atual Vigário de Maria Pereira para afirmar que o Capitão-mor José Alves de Medeiros, de quem vem a família Andrade, do Rio do Umbuzeiro, nos Inhamuns, seja filho de Domingos Alves de Medeiros”.
         Evidentemente, o Padre Pedro Leão não foi mais exato, a meu ver, movido por falsos preconceitos, mas pelo padre, veio à fala seu parente Leonardo Feitosa. Aqui cabe uma explicação. Os Feitosas dos Inhamuns, do planalto propriamente dito, são também Bezerra do Vale.
         Como dizíamos, Leonardo Feitosa, linhagista de sua família, procurou esclarecer as origens da honrada família Andrade, nestes termos – “O pe. José Bezerra do Vale tinha por companheira uma índia que se chamava Páscoa, e dela teve algumas filhas das quais uma se casou com um môço oriundo do Rio de Baixo e daquele casamento descendem o Pe. Pedro Leão Paes de Andrade, Vigário de Maria Pereira e o Coronel Nicolao Arraes, pai do advogado Raimundo Arraes” – hesitante, o honesto tradicionalista dos Inhamuns acrescentou mais adiante – “Não sabemos se êste genro do Pe. José Bezerra do Vale é o mesmo Ajudante Domingos Alves de Goes que foi casado com Josefa, filha do Padre”.
         Continuando eu, no revisionismo a que me propus a fazer da historiografia da minha região, de que nunca me canso de falar, desejo fazer alguns reparos à assertiva feita, aliás de boa fé, pelo meu citado conterrâneo, no que tange à paternidade de Josefa, tida por filha do Pe. José Bezerra, erroneamente. Josefa, espôsa do Ajudante Domingos Alves de Goes, é filha legítima de Felix Isidoro de Azevedo, conforme se lê no assento de seu casamento realizado na Fazenda Bebedouro, no dia 30 de outubro de 1786, e revalidado a 12 de dezembro do ano seguinte (1º livro de casamentos da Freg. De N.S. da Paz, de Araneirós, sob a guarda da Diocese de Iguatu).
         E o môço oriundo do Rio de Baixo (Baixo São Francisco), [revelam] os documentos, chamava-se Domingos Francisco de Goes, sergipano de boa cêpa, pois seu pai, da família Araújo, com sangue nas veias de Hus, da Holanda, foi casado com a filha de Valentim da Rocha e de Luiza de Andrade, naturais do Rio de baixo, de nome Joana do Ó, matriarcal dama, que se assenhoriou do lugar Bebedouro, na bacia hidrográfica do Umbuzeiro, na primeira metade do século transato, onde construiu com os filhos uma Igreja, e por esta razão é considerada a fundadora da cidade de Aiuaba.
         Anos depois, Domingos Francisco de Goes, contraiu núpcias, com uma jovem da casa de São Nicolau, de nome Josefa. Permitam-me ainda um parêntese. Agora é chegada a vez de esclarecer e situar na veracidade histórica as legítimas origens do clã do Umbuzeiro, dissipando as dúvidas, oriundas de equívocos cometidos por Pedro Tenente, Leonardo Feitosa e Padre Pedro.
         O tal – “moço oriundo do Rio de Baixo”, o Adão da família Andrade do Ceará, Domingos Francisco de Goes por ato oficiado pelo Padre Cura da Missão do Jucá, a 26 de julho de 1762, na Capela de Araneirós, recebeu por sua espôsa à Josefa, filha legítima do Capitão José Alves de Medeiros, o morgado da Casa do Umbuzeiro procedente do Pe. José Bezerra do Vale e da índia Micaela, da nação do Jucá (1º livro de casamentos da Freg. De N.S. do Monte Carmo, Ribeira dos Inhamuns, 64 verso, nos arquivos da Diocese de Iguatu).
         Domingos Francisco de Goes, e o notável Bernardino Gomes de Andrade, popularmente, Bernardino Gordo, da Batateira, êste com numerosa prole, da qual, não pequeno número tem guindado aos mais altos postos políticos da Nação e dos Estados, e se vem notabilizando por toda a parte, nos vários setores da atividade humana e social.
         Para satisfazer a curiosidade dos leitores passamos a mencionar alguns nomes de projeção nacional da descendência de Bernardino: Wenceslao Braz, ex-Presidente da República, Conselheiro Araújo Lima, ex-Ministro da Guerra, Felix Pacheco, ex-Ministro de Exterior, Dona Inês, virtuosa espôsa do Raimundo de Brito, ex-Ministro de Saúde, Matos Peixoto, ex-Presidente do Ceará e [o] Engenheiro João Luíz Ferreira, ex-Governador do Piauí, enfim, por encurtar razões, basta acentuar que, atualmente existem de sua descendência no Senado da República dois ilustres homens, Wilson Gomes de Vicente Bezerra Neto e outros não menos ilustres exercem mandato na Câmara Baixa do País, e aqui, na terra, os dedos das mãos não chegam para a contagem dos que têm acesso à assembléia Legislativa do Estado.
         Com os esclarecimentos dêste modesto trabalho, outro intúito não vive senão o de repor os fatos históricos e as individualidades que neles se movimentaram, procurando, por outro lado, corrigir equívocos e omissões, que poderiam desvirtuar a sua evidência e a sua origem verdadeira
                                                    (Do “Unitário”, edição de junho de 1967)              

Um comentário:

  1. Caros Leitores, o sobredito texto é a transcrição de um exemplar datilografado e, aparentemente, dedicado ao Monsenhor Francisco de Assis Couto. Portanto, ressalto que a ortografia original foi mantida, consoante "o português" da época.

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